A banda de rock progressivo que o Jethro Tull transformou: "Nós somos terrivelmente chatos"
Por Bruce William
Postado em 24 de junho de 2026
A imagem clássica de uma banda de rock em turnê costuma envolver excesso, madrugada, confusão e alguém destruindo alguma coisa que não lhe pertence. O Jethro Tull nunca se encaixou muito bem nessa caricatura. No palco, a banda podia ser excêntrica, teatral e imprevisível. Fora dele, segundo Ian Anderson, a vida era bem menos cinematográfica.
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Essa diferença ficou clara quando o Jethro Tull cruzou caminho com grupos mais ligados ao mito da estrada selvagem. Anderson lembrava que, ao abrir shows para o Led Zeppelin, havia respeito, mas não exatamente intimidade. O Zeppelin ocupava outro espaço, com aura de deuses do rock, enquanto o Tull fazia seu trabalho e tentava não se meter demais no caminho.
"Led Zeppelin era Led Zeppelin, eles eram deuses do rock, e nós éramos o humilde grupo de abertura", disse Anderson. Ele contava que quase não falava com Robert Plant, via Jimmy Page como um pouco mais amigável e preferia manter distância de John Bonham, a quem descreveu como um "maluco delirante", embora educado com ele nas poucas ocasiões em que se encontraram.
O caso mais curioso, porém, viria anos depois, com o Emerson, Lake & Palmer. Conforme relata a Far Out, Anderson admirava a banda e já gostava do que Keith Emerson havia feito com o The Nice, grupo que ele via como uma espécie de precursor do rock progressivo. Mesmo circulando em ambientes parecidos, Jethro Tull e ELP quase não se cruzaram nos anos 1970, porque viviam em turnês próprias.
O Emerson, Lake & Palmer acabou se separando em 1978, depois de desgaste criativo e pessoal. Quando voltou à ativa nos anos 1990, surgiu a possibilidade de dividir uma turnê com o Jethro Tull. Anderson aceitou, mas parecia curioso para ver como aquele trio, famoso por personalidades fortes, funcionaria na estrada depois de tanto tempo.
A surpresa veio rápido. Segundo Anderson, já na segunda noite de turnê, uma pessoa da equipe do ELP o procurou espantada com o comportamento da banda. "Não consigo acreditar na transformação", teria dito. "Desde que eles estão nesta turnê trabalhando com vocês, são legais com todo mundo o tempo todo. São até legais uns com os outros; jantam juntos e viajam juntos no ônibus da turnê. Como isso está acontecendo? O que vocês fizeram para eles virarem pessoas tão agradáveis de se ter por perto?"
Anderson dizia não ter feito nada de especial. Não houve palestra motivacional, intervenção psicológica ou plano secreto para domesticar lendas do rock progressivo. A explicação dele era mais simples: o Jethro Tull tinha uma cultura de estrada tranquila, quase tediosa, e talvez isso tivesse contaminado positivamente o ambiente.
"Nós somos terrivelmente chatos", afirmou. "Não ficamos acordados a noite toda nem fazemos loucuras. Tudo é calmo e relaxado, e as pessoas, esperamos, são gentis umas com as outras e cuidam das coisas. Acho que meio que incorporamos nossa cultura naquele período de renascimento do ELP."
A história é engraçada porque inverte uma fantasia antiga do rock. Em vez de uma banda arrastar outra para a bagunça, o Jethro Tull teria puxado o Emerson, Lake & Palmer para o convívio civilizado. Não foi uma transformação musical, nem uma mudança de repertório. Foi uma espécie de choque de normalidade.
Para Ian Anderson, isso dizia muito sobre a longevidade do Jethro Tull. A banda podia gastar toda a energia no palco, mas não precisava reproduzir o caos vinte e quatro horas por dia para provar autenticidade. Às vezes, a atitude mais radical numa turnê de rock é simplesmente jantar junto, viajar no mesmo ônibus e não infernizar a vida de ninguém.
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