O dia em que Herbert Vianna aceitou cantar na música que o acusava de ter se vendido
Por Gustavo Maiato
Postado em 23 de agosto de 2026
Em 1986, a Plebe Rude lançou "Minha Renda", faixa que acusava Herbert Vianna de ter se convertido a músicas radiofônicas de refrão fácil com o único objetivo de ganhar dinheiro. O verso mais direto não deixava dúvida: "Já sei o que fazer para ganhar muita grana, vou mudar meu nome para Herbert Vianna." A resposta do vocalista dos Paralamas do Sucesso foi a menos previsível possível - ele conseguiu um contrato com uma grande gravadora para a banda, produziu o disco e ainda gravou o vocal justamente na parte que o atacava.
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A história foi reconstituída em vídeo publicado no canal de Júlio Ettore, dedicado aos bastidores de "O Concreto Já Rachou", disco que completa 40 anos.
O primeiro encontro entre as partes aconteceu antes disso, em 1984, no Circo Voador, na Lapa. A Plebe Rude foi convidada para o segundo Rock Voador, evento que também teria Legião Urbana e Paralamas no lineup. Os brasilienses estavam decepcionados com o disco recém-lançado pelos cariocas, que consideravam pop e comercial demais.
Na hora da passagem de som, com Herbert Vianna presente no local, a banda escolheu tocar exatamente "Minha Renda". A letra havia nascido como crítica aos falsos punks e acabou virando ataque à indústria fonográfica e às bandas que se vendem. Quem normalmente cantava o verso sobre Herbert era Jander Bilaphra, o Ameba, guitarrista e vocalista. Naquele dia, porém, quem soltou a frase foi Philippe Seabra - que já tinha rusgas antigas com o carioca, vindas do tempo em que Herbert morou em Brasília, incluindo uma história de pedal queimado que ele atribuía ao colega.
Seabra achou que ia dar confusão. Todos olharam para Herbert, inclusive os demais integrantes dos Paralamas. Segundo o vídeo, o vocalista achou graça e a vida seguiu.
A situação se inverteria no ano seguinte. Com o interesse da gravadora EMI-Odeon pela banda - resultado direto do lobby de Herbert, já que os Paralamas estavam na mesma casa -, veio a ligação para Brasília avisando que havia proposta de contrato. Herbert assumiu a produção do disco, com liberdade total prometida à banda.
Nas gravações, iniciadas em outubro de 1985, o produtor conseguiu ampliar o mini-LP de seis para sete faixas e sugeriu soluções que entraram no resultado final - como o violoncelo em "Até Quando Esperar" e a saída da guitarra no meio de "Proteção". E, quando convidado pela própria banda a gravar o verso que zombava dele, aceitou. Segundo o vídeo, a decisão deixou a música ainda mais punk.
O clima no estúdio, porém, não era tranquilo. As discussões sobre divisão de direitos autorais - que precisaram ser resolvidas antes da assinatura do contrato - contaminaram as sessões, com embates fortes entre Seabra e o baterista Gutje. Outra faixa que gerou atrito foi "Até Quando Esperar": o baterista insistia em cantar junto com Philippe, que era contra. Gravou, mas a segunda voz acabou ficando apenas com Ameba.
O disco também contou com participações de George Israel em "Seu Jogo" e Fernanda Abreu em "Sexo e Karatê". A gravadora não pediu alteração em nenhuma letra, e a censura aprovou todas - algo que não aconteceu com a Legião Urbana, que precisou modificar um verso de "A Dança".
A ironia final ficou por conta da repercussão. Ninguém - nem a banda, nem a gravadora - apostava na faixa que se tornaria o maior sucesso do disco. Todos queriam trabalhar "Minha Renda", que chegou a ganhar clipe no Fantástico, com Herbert Vianna aparecendo para cantar o próprio verso. Mas quem comprou o disco se apaixonou pela faixa de abertura: "Até Quando Esperar" estourou de forma orgânica em todo o país.
Confira o vídeo completo abaixo.
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