Helloween - Em Porto Alegre, 2 horas e 20 minutos que pareceram passar em instantes
Resenha - Helloween (KTO Arena, Porto Alegre, 16/09/2026)
Por Guilherme Dias
Postado em 03 de outubro de 2026
O Helloween chegou aos 40 anos de carreira, marca histórica que rendeu uma turnê mundial iniciada ainda em 2025. Para encerrar as festividades, a banda escolheu a América Latina, continente onde possui uma de suas bases de fãs mais fiéis. Em 2026, o grupo passou por diferentes países da região, chegando ao Brasil para duas apresentações, em Porto Alegre e São Paulo. No dia 16 de setembro, foi a vez da capital gaúcha receber o grupo, em apresentação realizada na KTO Arena, localizada na zona norte da cidade. Além dos clássicos que marcaram diferentes fases de sua trajetória, a excursão também promove o décimo sétimo álbum de estúdio, "Giants & Monsters", lançado em 2025.
Fotos por: Giovanni Maglia

O que parecia impossível alguns anos atrás se tornou um fato inegociável nos dias atuais. Até 2016, o Helloween vivia sua formação mais longeva, contando com Andi Deris (vocais) desde 1994, Michael Weikath (guitarra) e Markus Grosskopf (baixo) desde o início, em 1984, Sascha Gerstner (guitarra) desde 2002 e Dani Löble (bateria) desde 2005. Em 2017, ocorreu o retorno de Michael Kiske (vocais) e Kai Hansen (vocais e guitarras) à banda. O que deveria ser apenas uma turnê de reunião com membros históricos acabou se tornando algo muito maior, rendendo, até agora, dois álbuns de estúdio, dois álbuns ao vivo, duas coletâneas, diversas turnês e passagens pelos principais festivais de heavy metal do mundo.

A oitava apresentação dos alemães em Porto Alegre contou com um telão interativo muito especial, que abriu a noite exibindo um vídeo com todos os álbuns de estúdio já lançados pela banda, acompanhado de uma orquestração de "March of Time", clássico do "Keeper of the Seven Keys pt.II" e nome da última coletânea, lançada em 2025. A música foi a primeira do repertório, contando com Andi Deris e Michael Kiske dividindo os vocais, assim como em "The King For a 1000 Years", novidade na turnê e que retornou ao repertório após 20 anos, quando esteve presente nos setlists da turnê do álbum "Keeper of the Seven Keys - The Legacy" (2005). A escolha mostrou um entrosamento impecável entre os vocalistas e reforçou que as composições lançadas após a saída de Kiske, em 1993, também podem ganhar sua voz.

Andi Deris elogiou a participação do público até aquele momento e apresentou a primeira música do álbum "Keeper of the Seven Keys pt. I" no set, "Future World", composição de Kai Hansen. Andi e Kiske dividiram a plateia em dois e fizeram o tradicional coro, desafiando cada lado a cantar mais alto e até julgando quem não estava participando. Depois, unificaram os dois lados para que todos cantassem juntos, sempre incentivando o público a superar a própria marca na tentativa seguinte. "Agora vamos levá-los para o Japão", disse Andi antes de apresentar "This is Tokyo", primeiro single de "Giants & Monsters" que, apesar de não ter sido muito bem recebido quando lançado, funcionou perfeitamente ao vivo.

Voltando para 1996, "We Burn", do álbum "The Time of the Oath", incendiou a plateia, que cantou a música com muita força junto com Andi. Já com Kiske nos vocais, "Twilight of the Gods", do "Keeper of the Seven Keys pt. I", foi uma das novidades no repertório e muito bem recebida desde a introdução, com destaque para os acordes iniciais de Kai Hansen e a potência vocal de Kiske. A música não era apresentada em turnês desde os anos 80, fazendo de seu retorno aos palcos um dos momentos mais especiais da noite. O Keeper voltou a aparecer no telão, dessa vez para comentar que o público estava gostando da jornada e lembrar que, antes de sua existência, já havia uma história. A referência era ao álbum "Walls of Jericho", de 1985, que introduziu "Ride the Sky", marcada pelo belo e longo solo com a dobradinha de guitarras de Kai e Weike.

A mais recente balada gravada pela banda também teve seu espaço no repertório. "Into the Sun" emocionou os fãs com o dueto entre Andi e Kiske, além de sua letra impactante. Na sequência, Andi agradeceu ao público e avisou que a próxima seria um pouco mais "rock and roll", levando a banda de volta a 1998, ano do clássico "Better Than Raw". As primeiras notas de Weike entregaram que se tratava do single "Hey Lord", que, após os marcantes refrões de Andi, ganhou um solo de destaque do guitarrista.

Depois de alguns segundos para recuperar o fôlego, Andi comunicou que a próxima seria uma de suas favoritas do último disco, composta por Sascha. Tratava-se da épica "Universe (Gravity For Hearts)", que teve Kiske novamente assumindo os vocais, com alguns trechos cantados também por Kai Hansen. Andi voltou à frente do palco para anunciar outra de suas favoritas, dessa vez escrita pelo baixista Markus Grosskopf: "Hell Was Made in Heaven", presente no álbum "Rabbit Don't Come Easy", de 2003.

Descanso para a maioria e trabalho para Dani Löble. Era o momento do solo de bateria, amado por alguns e odiado por outros, com o baterista aproveitando o espaço para interagir com a plateia. Um breve momento de paz, pois logo em seguida todos voltaram para "I Want Out", clássico do "Keeper of the Seven Keys pt. II" que foi deslocado para o meio do repertório, deixando de encerrar os shows, como costumava acontecer há alguns anos.

Na sequência, bancos foram posicionados na pequena passarela em frente ao palco para receber apenas Kiske e Andi. "Agora a calma após a tempestade", disse Andi, com um sorriso no rosto. Aos gritos de "Andi, Andi, Andi" e "Kiske, Kiske, Kiske" vindos da pista, Kiske tocou "Let it Be", dos Beatles, enquanto Andi o acompanhava nos vocais. Daquelas cenas surreais: quem diria que Kiske tocaria violão para Andi cantar "In the Middle of a Heartbeat" algum dia? Nem mesmo o fã mais maluco do Helloween ousaria imaginar algo dessa magnitude. E aconteceu. Mesmo em uma versão reduzida, apenas com voz e violão, a música foi capaz de emocionar todos os presentes. Lançada em "Master of the Rings" (1994), a canção foi apresentada nos moldes da versão registrada no álbum ao vivo "High Live" (1996).

O violão então trocou de mãos. Andi pediu para todos na plateia ligarem as lanternas dos celulares antes do início de "A Tale That Wasn't Right", balada do "Keeper of the Seven Keys pt. I". Kiske assumiu os vocais e, quando chegou o momento do solo, apresentou o dono da composição, Michael Weikath, que entrou em cena para executá-lo, acompanhado pelos demais integrantes da banda.

"Agora, senhoras e senhores, essa será a última música", provocou Andi, recebendo vaias do público. Aos risos, ele interrompeu a manifestação e complementou: "essa será a última música do novo álbum no repertório cabrón". Visivelmente satisfeito, o frontman concluiu: "isso sempre funciona". Em um clima muito alegre, o Helloween então apresentou o single "A Little is a Little Too Much".

Um pequeno problema na bateria gerou alguns momentos de silêncio, mas logo Kai Hansen assumiu os microfones, desejou "bom dia" ao público, sim... "bom dia", e cantou um pouco com os fãs enquanto o problema era resolvido. De volta ao passado, Dani introduziu "Heavy Metal (Is the Law)", novamente com Kai nos vocais. Com o Guardião das 7 Chaves mais uma vez no telão, a mensagem foi clara: ele não deixaria os fãs insatisfeitos, pois ainda faltavam alguns clássicos a serem apresentados. O início do fim veio com "Halloween", mostrando um entrosamento pleno entre todos os músicos antes de deixarem o palco para o bis.

O bis foi direto, criativo e envolvente, com músicas muito especiais. "Eagle Fly Free" trouxe Kiske novamente nos vocais, acompanhada por uma animação de uma águia que interagia com as nuances da música. Em seguida, "Power", o hino do Helloween nos anos 90, teve Andi comandando o coro do solo junto com a plateia. Para fechar, "Dr. Stein" colocou todos os músicos no palco em uma bagunça organizada, enquanto os balões comemorativos dos 40 anos da banda voavam pela casa de shows.

O último refrão de "Keeper of the Seven Keys" encerrou mais uma atuação histórica do Helloween em Porto Alegre. Na despedida, os músicos se aproximaram dos fãs e distribuíram palhetas, baquetas e folhas com o setlist.

Com certeza, todos os presentes voltaram para casa totalmente satisfeitos. Foi um espetáculo sem defeitos, com 2 horas e 20 minutos de duração que pareceram passar em poucos instantes. A tecnologia de áudio e vídeo esteve à altura de uma produção desse porte, contribuindo para um espetáculo compatível com a dimensão que o Helloween alcançou ao longo de quatro décadas de carreira. Atualmente, a banda ocupa seu espaço entre os grandes nomes do heavy metal mundial e, apesar da longa turnê pedir um descanso digno, o grupo já tem compromissos marcados para 2027, quando voltará aos palcos nos festivais do verão europeu.
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