Como nasceram "Eu Me Amo", "Inútil" e "Ciúme", segundo Roger, do Ultraje a Rigor
Por Gustavo Maiato
Postado em 04 de setembro de 2026
Roger Moreira detalhou a origem de três das músicas mais conhecidas do Ultraje a Rigor e revelou que nenhuma delas partiu de uma ideia musical. "Inútil" saiu das manchetes de jornal, "Eu Me Amo" nasceu de um adesivo de carro cruzado com um livro de psicologia e "Ciúme" veio de um incômodo adolescente. As explicações foram dadas ao podcast Papagaio Falante.
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O caso de "Inútil" é o mais direto. O vocalista diz que compilou na letra o noticiário econômico e social do começo dos anos 1980, do endividamento junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI) aos números sobre a saúde bucal da população brasileira. "Tudo isso era tirado das notícias que rolavam na época. O povo tinha aquela constatação: 100 milhões de gente sem dente no Brasil, sei lá, umas coisas assim", contou.
A música impressionou de imediato André Midani, então diretor da gravadora. Roger lembra que o executivo insistiu no lançamento, mas o compacto vendeu pouco. A explicação que a banda recebeu na época foi comercial, não artística: o formato tinha boa saída na zona leste de São Paulo, e o Ultraje era um grupo identificado com a zona sul. A canção só viraria fenômeno mais tarde.
"Eu Me Amo" veio de duas fontes que Roger juntou por acaso. Ele lia um livro de análise psicológica que apontava o quanto as canções românticas eram autodepreciativas, do tipo que jura não conseguir viver sem a outra pessoa, quando esbarrou num daqueles adesivos de para-choque em voga na época. "Eu vi num carro e falei: seria legal um 'I love myself'. Daí juntou com o livro, e eu falei: vou fazer tudo ao contrário", disse.
Já "Ciúme", faixa que empurrou o disco de estreia, tem raiz mais antiga que a data da composição. O vocalista situa a escrita em 1982 ou 1983, mas diz que a ideia vinha de quando tinha 16 anos, no momento em que o feminismo entrava na conversa da juventude brasileira e o comportamento das namoradas mudava mais rápido que o dos namorados.
"As meninas usavam roupa transparente. Minha namorada cortava a meia-calça, enfiava, e ficava com os peitos de fora. E você não podia falar nada, não podia dizer para esconder. Então tinha que ficar levando uma vida moderninha", relatou. Para ele, o acerto da música foi dizer em rock and roll, e de forma simples, algo que uma geração inteira estava sentindo ao mesmo tempo.
Roger reconhece que uma letra como essa soaria diferente hoje, e não porque tenha mudado de ideia. O problema, segundo ele, é de posição: aos 68 anos na época da entrevista, tirar sarro da juventude seria falar de cima para baixo, algo que ele não fazia nos anos 1980, quando descrevia a si mesmo e aos próprios amigos.
Confira o vídeo completo abaixo:
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