Belphegor: saber o que vem depois é o grande privilégio de quem já morreu

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Por Leonardo Daniel Tavares da Silva, Fonte: Detector de Metal
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O BELPHEGOR é uma das mais respeitadas bandas de Death/Black Metal do mundo. E estará no Brasil a partir de 28 de fevereiro para promover a escuridão com suas letras blasfemas e perturbadoras. O primeiro show é em São Paulo (28/02 – Manifesto Bar). De lá eles seguem para o interior de Minas Gerais , Campo do Meio (03/03 – Clube Aprigio). O Nordeste, que já recebeu o BELPHEGOR outras vezes, os dará novamente as boas vindas para shows no Recife (04/03 – Burburinho Bar) e em Fortaleza (05/03 – Teatro Da Boca Rica). Conversamos com Helmuth Lehner sobre vários assuntos. Claro que falamos sobre os shows (imperdíveis), sobre o disco novo que será gravado no segundo semestre deste ano (atenção, tem música nova no setlist), mas a conversa também enveredou por assuntos mais espinhosos como filosofia e religião. Para Helmuth, que passou alguns anos atrás por uma EQM (Experiência de Quase Morte), perguntei coisas como o que você acha acontece com a gente depois que morremos? Há intolerância religiosa por parte dos não cristãos? Isso é uma resposta à intolerância cristã? O que você acha dos muçulmanos, hindus, etc.? Existe algo de bom nas religiões (cutuquei a onça com vara curta, vocês podem dizer) e até filosóficos. 'A música, ou vamos chamar de arte em geral, deve excitar, incitar e provocar, não acalmar', disse Helmuth na entrevista, cuja primeira parte você confere agora.

Daniel Tavares: Bem, vamos começar com o mais importante. Como está a sua saúde. Você se recuperou plenamente dos problemas que teve após ser infectado por febre tifoide? O que mudou na sua vida e na sua maneira de ver o mundo após a situação que você enfrentou?

Helmuth Lehner: Sim, eu fui infectado em setembro de 2011 com um vírus do tifo na América do Sul porque eu bebi a água de lá uma manhã quando estava com muita ressaca e não pensava com clareza. Um grande erro, que eu quase paguei com a minha vida. Quando voltei para casa, na Áustria, eu já estava em uma péssima condição. Eu fui hospitalizado e acabei passando morto por 6 horas, sobrevivendo somente através de máquinas. Foi um pesadelo. Eu passei por uma operação difícil no dia 4 de outubro. Os médicos salvaram minha vida. Eu fui forçado a fazer uma pausa por mais de 8 meses, enquanto me recuperava. Pela primeira vez, meu corpo me mostrou seus limites e quão rápido pode ser que sua vida mude completamente dentro de poucos dias, ou pior, a facilidade com que ela pode acabar instantaneamente. Lembro-me de ter medo que pudesse cair no sono e nunca mais acordar novamente. Isso durou semanas. Eu poderia escrever um livro sobre todo o meu caminho de volta até ser o frontman da minha banda novamente. Minha recuperação foi difícil e eu tive que adiar o álbum algumas vezes e pegar leve. É frustrante para uma pessoa que sempre foi über-ativa. Mas 'Conjuring The Dead' foi uma espécie de reabilitação para mim, um processo de limpeza, de me mostrar, 'ei, seu fela da gaita, levante-se, você ainda tem gás.' Então, sim, tudo está bem até agora, eu definitivamente não posso reclamar. Eu ainda sou capaz de fazer o que eu adoro, tocar e criar música e viajar pelo mundo.

Daniel Tavares: Agora, vamos falar sobre a turnê e os shows no Brasil. O que os headbangers brasileiros devem esperar desses shows?

Helmuth Lehner: É ótimo finalmente retornar ao Brasil. Tantas excelentes - e caóticas - experiências vêm à mente. Eu amo a carne brasileira, eu realmente amo. De qualquer forma, quero dizer que a América Latina em geral, é sempre um desafio bem-vindo. Esta é provavelmente a nossa corrida mais longa por aí, tocando 12 cerimônias de morte!! Esteja preparado Brasil, estamos mais uma vez vindo para com conquistar com êxito o mal brutal!

Daniel Tavares: Agora, o que você pode dizer sobre o próximo álbum? O que podemos esperar do sucessor de 'Conjuring The Dead'? Ele já tem um nome? Você acha que você vai tocar alguma a faixa dele nesta turnê?

Helmuth Lehner: Somos muito melhores músicos hoje em dia e o objetivo principal é tentar desenvolver nossa habilidade. Além disso, mesmo com cada lançamento. O BELPHEGOR é uma banda baseada em riffs, e nós sempre tocamos o mais intenso Death Metal !! Se você acha que 'Conjuring the Dead' era brutal, você vai adorar o novo LP sem título, porque temos a melhor line-up até agora e estas nove composições são muito mais pesadas, mais técnicas e mais cheias de brutalidade e trituração do que os últimos ataques. Eu ainda sou perdido pelo último LP, não me interpretem mal. Apenas estou dizendo que este é o nosso trabalho mais feroz e brutal até hoje.
Este é de longe o meu trabalho mais rigoroso e mais agressivo de guitarra, com guitarras realmente com afinação baixa, o que é um novo desafio. Estamos muito ansiosos para quando finalmente pudermos liberar esse monstro sobre as massas. A música, ou vamos chamar de arte em geral, deve excitar, incitar e provocar, não acalmar e este lançamento deve atingir isso ao máximo!
Nós tocaremos a faixa 'Totenkult - Exegesis of Deterioration' no palco no Brasil também. Sim. Espere o primeiro single e vídeo em agosto. Nas próximas semanas/meses, vamos lançar um monte de filmagens do estúdio, making of e anunciar título, produtor, etc. artista da capa. Portanto, mantenha olhos abertos nos nossos canais de comunicação.

Daniel Tavares: Em 'Conjuring The Dead' você teve alguns convidados: Glen Benton do DEICIDE e Attila Csihar, do MAYHEM. Você terá alguma participação novamente para este próximo álbum?

Helmuth Lehner: Uma vez que somos conhecidos por criar uma simbiose de Death e Black Metal, eu queria ter meu vocalista favorito em cada gênero. Esta ideia estava fixa na minha cabeça por um longo tempo. Era só para agradar o meu ego, hahahrrr. Verdadeiramente, é realmente uma honra para mim. Eu aprecio os estilos vocais deles e o que os seus trabalhos trouxeram para a comunidade do metal extremo. Eu queria ter esses dois caras, não apenas os colegas de algumas outras bandas.
Eu acho que perguntei primeiro ao Attila sobre o assunto em 2007, quando gravamos o 'Bondage Goat Zombie'. Com o DEICIDE fizemos duas grandes turnês, uma nos EUA e outra em que conquistamos e devastamos a Europa. E Glen gostou da ideia, o que foi ótimo para mim. Finalmente deu certo. Ambas as bandas no início eram muito importantes e inspiradoras para o BELPHEGOR. Mais uma vez, é uma honra que eles tenham colocado sua magia nessa faixa [N.T. 'Legions of Destruction']. Creio que a Metal Rules, dos Estados Unidos, até estava nos chamando de os 'Three Tenors From Hell' [N.T - os três tenores do inferno], uma vez que eu também faço vocais nessa faixa. Uma grande observação!

Daniel Tavares: Agora, algumas perguntas difíceis. No ano passado, você e os membros do NILE foram vítimas de intolerância religiosa na Rússia. O que você diria sobre isso agora? Por favor, compartilhe algumas palavras comentando sobre esse episódio e os muitos episódios que acontecem em todos os lugares, a cada momento no mundo forçando as pessoas a fazer o que não querem fazer, torturando pessoas, matando as pessoas ou, no mínimo, censurar artistas como vocês .

Helmuth Lehner: Eu não quero fazer desse incidente uma grande parte da história do BELPHEGOR, verdade seja dita. Aquele palhaço cristão apenas tentou provocar um confronto físico enquanto seu amigo degenerado filmava tudo no aeroporto para forçar que me levassem pra cadeia. A segurança deu as costas e fez nada... surpreendente. Eu me toquei do que seria melhor não reagir da maneira que queriam que eu reagisse. Se você nunca foi para a Rússia, você não pode entender como é lá. Não há absolutamente uma única pessoa que gostaria de ter algum conflito com a polícia russa ou governo ou experimentar alguma de suas prisões. Uma briga em um aeroporto internacional teria sido muito prejudicial para o BELPHEGOR e teria interrompido a nossa programação futura de viagem. Sou grato ao Sr. Karl Sanders, da engenhosa banda NILE, que ajudou a gerenciar a situação e impedir este zumbi católico.

Daniel Tavares: Vocês são claramente anti-cristianismo e se mostrem como satanistas, embora você tenha declarado que são ateus. Você acha que existe intolerância também do lado dos satanistas e ateus, embora isto geralmente seja uma resposta à própria intolerância dos cristãos?

Helmuth Lehner: Somos ateus com tendências ao niilismo, glorificando a brutal musicalidade do Death!! Rebeldia, resistência, recusar-se é a coisa mais importante quando se trata de arte, sim. Não há nenhum deus. Eu sou meu próprio deus e fico possuído particularmente quando se trata de estar inspirado para fazer esta música. O Death deve estimular, incitar e provocar, não te acalmar...
Com o diabo do seu lado, ele sempre ajuda a criar 'arte', não importa se é musica, pinturas ... a arte em geral.
Quer dizer, há uma grande quantidade de obscuridade e de possessão no BELPHEGOR, sempre teve, sempre terá. Na minha opinião, só os excessivos, as pessoas rebeldes fizeram algo que durou e valeu a pena. Olhe para a história da arte, não importa - pintor, compositor, autor, ator, o que quer que seja-- aqueles que estavam perto de loucura, muitas vezes em delírio, em uma espécie de 'sua própria zona do crepúsculo', foram os melhores e ainda permanecem assim. Os artistas precisam estar possuídos, e sim, eu quero dizer isso .. não é apenas uma frase !!

Daniel Tavares: E quanto a outras religiões, muçulmanos, hinduísmo, religiões africanas, a religião escandinava, o que você pensa sobre elas?

Helmuth Lehner: Eu muitas vezes sou mal interpretado pela mídia, tão demasiado frequentemente, ou torcem as minhas mensagens e o significado real tão bem que eu realmente não quero mais falar sobre isso. Leia nossas letras e faça a sua própria cabeça. Nós sempre fomos contra a igreja, moralistas e instituições... os inimigos da cruz ... e isso não se alterou...

Daniel Tavares: O que você acha que acontece com a gente depois que morremos?

Helmuth Lehner: Este é o segredo, melhor dizendo, o grande privilégio das pessoas que morreram: realmente saber que acontece, ou o que não acontece... tantas especulações sobre este assunto interessante, mas, no final ninguém sabe nada.

Nós todos vamos morrer!

Essa é a única certeza!

Eu já estive morto por 6 horas, nas máquinas, então eu vi um monte de coisas/visões e trouxe algumas coisas de volta comigo, mas eu não quero falar sobre isso. Apenas com bons amigos, porque as pessoas são tão críticas hoje em dia - é tão nojento e chato.

Bem, eu ainda estou aqui e grato por isso, porque eu ainda tenho muito a fazer.

O ceifador pode esperar - por enquanto.

Veja a segunda parte da entrevista no link abaixo.
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Sobre Leonardo Daniel Tavares da Silva

Daniel Tavares nasceu quando as melhores bandas estavam sobre a Terra (os anos 70), não sabe tocar nenhum instrumento (com exceção de batucar os dedos na mesa do computador ou os pés no chão) e nem sabe que a próxima nota depois do Dó é o Ré, mas é consumidor voraz de música desde quando o cão era menino. Quando adolescente, voltava a pé da escola, economizando o dinheiro para comprar fitas e gravar nelas os seus discos favoritos de metal. Aprendeu a falar inglês pra saber o que o Axl Rose dizia quando sua banda era boa. Gosta de falar dos discos que escuta e procura em seus textos apoiar a cena musical de Fortaleza, cidade onde mora. É apaixonado pela Sílvia Amora (com quem casou após levar fora dela por 13 anos) e pai do João Daniel, de 1 ano (que gosta de dormir ouvindo Iron Maiden).

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