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Krow: tiramos o som na unha e na raça

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Por Ben Ami Scopinho
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O Krow, forte representante do chamado Triângulo Satânico Mineiro, passou dois anos tocando para divulgar seu primeiro álbum, "Before The Ashes" (09). E toda a experiência adquirida resultou no mais novo e caprichadíssimo registro, "Traces Of The Trade", cujo Death Metal é apoiado pela temática da escravidão no Brasil. O Whiplash.Net conversou com o baterista Jhöka, que contou suas aventuras pela Europa e Chile e deu uma geral na concepção do novo disco. Confiram aí:

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Whiplash.Net: Saudações, pessoal. O Krow se manteve em constante movimento desde o lançamento de seu primeiro álbum, "Before The Ashes". Que balanço vocês fazem dos últimos três anos?

Jhöka: Saudações headbangers! Primeiro a gente gostaria de agradecer a vocês, do Whiplash.Net, pelo espaço. Valeu! Cara, muita correria e muitos resultados positivos. Do lançamento do "Before The Ashes" para cá aprendemos muito pondo o pé na estrada, aliás, acho que isso é a melhor escola para alguém que pensa em ter uma banda, pois viajar com um bando de loucos por meses não é fácil pra ninguém, haha.

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Jhöka: O saldo é totalmente positivo, conseguimos mostrar nosso trabalho no mundo todo, muitas portas se abriram, tanto aqui quanto lá fora e acho que o caminho agora não será muito diferente, trabalhar pra caralho e colher resultados, dando um passo de cada vez. É o que a gente teve até agora e o que faremos nos próximos anos (risos).

Whiplash.Net: Vocês viajaram muito e conheceram culturas bem diferentes. O quanto essas experiências, aliadas às mudanças em sua formação, poderiam ter influenciado na concepção de "Traces Of The Trade"?

Jhöka: Acho que conhecer outras pessoas e outras culturas é uma experiência marcante para o nosso jeito de pensar música. No meu caso, que sempre fui fã de thrash alemão e death polonês, conhecer os caras que fazem isso hoje em dia é do caralho, você deixa de imaginar como é e de repente está fazendo parte daquilo. Tivemos a oportunidade de ir ao ensaio de uma banda de death foda da Polônia, o Demogorgon, foi genial, eu parecia criança em parque de diversões, haha.

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Jhöka: Esses momentos agregaram demais em nossa capacidade de compor e, se juntarmos isso com a entrada do Humberto no baixo, que é um cara que conhece tudo de metal e sempre foi fanático no estilo mais direto, tipo Dismember; e também do Carcaça (Lucas) na guitarra, que trouxe para o KroW novos riffs, novas melodias, muito diferentes do iríamos compor com a mesma formação, tira-se o "Traces Of The Trade", que com certeza tem uma pegada mais agressiva e direta, mas com alguns pontos bem mais trabalhados do que o álbum anterior, e apresenta uma maturidade musical bem maior.

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Whiplash.Net: O que motivou fazer de "Traces Of The Trade" um disco conceitual sobre a escravidão? Já tiveram uma resposta do público gringo diante desta temática?


Jhöka: Somos do Triângulo Satânico Mineiro e queríamos falar sobre nosso estado e nossa região, mostrar como isso é único. Ainda em Minas, por exemplo, em cidades como Paracatu, ainda há extração pesada do ouro e isso destrói com uma parte da cidade, etc. Aprofundamos-nos muito, fizemos muita pesquisa e percebemos que o assunto escravidão era tão extenso que valeria o disco todo, há músicas que não falam diretamente sobre isso, mas se apresentam como temas transversais.


Jhöka: Com isso nos dedicamos inteiramente à temática, fomos aos terreiros de candomblé e umbanda, conversamos com muita gente do meio para entender as religiões e a história, não só pelos livros, mas por descendentes diretos, o que para nós foi uma experiência muito interessante.

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Jhöka: O disco ainda não foi lançado na Europa, está programado para o segundo semestre deste ano, mas as poucas pessoas de lá que já ouviram nos responderam admirando muito o trabalho e recebemos vários elogios por abordar um tema tão brasileiro, e a expectativa do nosso selo (Axavalaha) é muito grande.


Whiplash.Net: Depois de tudo o que estudaram sobre o tema, torna-se mais fácil compreender os motivos que levam tantos fazendeiros brasileiros a manter centros de escravos em pleno século XXI?

Jhöka: Compreender sim, concordar jamais. Apesar de estar no centro das atenções do mundo atual, como o país da moda, não precisa ir muito longe para ver que o Brasil ainda tem uma fronteira agrícola e que esses ‘senhores’ aproveitam da dificuldade de alguns e da má fé de outros em determinadas regiões para lucrar imensamente com o trabalho escravo

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Jhöka: Mas essa prática é abominável e mostra, como falamos em nosso trabalho, o inferno que ainda existe no Brasil. Se olharmos para dentro de nosso país, percebe-se facilmente índices de violência e violação dos direitos humanos, tão ou mais alarmantes do que os números de países em guerra civil!!!

Whiplash.Net: Durante a gravação do debut, vocês admitiram que tiveram dificuldades pela falta de experiência. Considerando que mantiveram o mesmo time nos estúdios, o Krow estava mais confiante em "Traces Of Trades"? Houve algo que quiseram explorar para obterem resultados diferentes?

Jhöka: Na verdade o time mudou bastante, né? Humberto e Carcaça estão conosco desde o começo no "Traces Of The Trade", e com certeza estávamos mais confiantes para gravar. Além dos reforços à equipe, tínhamos uma tour de quase dois anos na bagagem, aprendemos muita coisa e, na época de composição e pré-produção, mantivemos uma bateria de ensaios fortíssima para chegar a Goiânia com a nossa parte ‘em cima’.

Jhöka: O próprio estúdio também evoluiu, nossos produtores, Gustavo Vazquez e Luis Maldonale já são ases no assunto, mas o Rocklab mudou de lugar, foi pra um ambiente muito maior, com vários equipamentos novos e melhores, que possibilitaram novas abordagens e explorar mais coisas. Desta vez queríamos que o som ficasse o mais natural possível, para que quem ouvisse o CD e fosse ao show não sentisse diferença no som, ver que a banda é exatamente aquilo. Exploramos muito a gravação analógica, não utilizamos nenhum plug-in, nenhum trigger, nada de digital, tiramos o som na unha e na raça mesmo e foi muito massa.

Whiplash.Net: Em termos de discos nacionais, o projeto gráfico de "Traces Of Trades" está entre os mais belos dos últimos anos. Com tantos detalhes, até onde vocês se envolveram em sua concepção? E porque deixar um europeu como Costin Chiorianu desenvolver essa temática, com tantas características brasileiras?

Jhöka: Muito obrigado! Realmente foi um trabalho intenso em cima disso e nos envolvemos profundamente em todo o processo. O Costin fez a arte do "Before The Ashes" lançado na Europa em 2010 e achamos o trabalho dele fantástico, ele já trabalhou inclusive para bandas como Grave e Dark Throne. Quando estávamos em turnê por lá, ele foi a um show nosso em Bucareste, na Romênia, e de cara ficamos amigos, porque o cara, além de tudo, é muito gente fina. E nesse dia mesmo já fechamos com ele a nova capa sem ter o tema ainda.

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Jhöka: Quando a ideia surgiu, fizemos um clipping de várias imagens para servir de guia, foto de navio negreiro, escravos, cores, bandeiras, lugares e roupas da África e do Brasil. Acho que, sendo brasileiro ou não, todo bom artista consegue captar a alma do projeto em que se envolve, a arte é uma linguagem universal e não tem limites preestabelecidos. Nós enviamos a ele, além do clipping, todas as músicas, mesmo que só como mix, vários textos sobre o tema e ele realmente entrou de cabeça no negócio e nos apresentou um resultado maravilhoso.

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Jhöka: Essa capa é um quadro de 1,5 x 1,5m que ele fez à mão enquanto ouvia o CD no talo, ele escaneou e mandou pra gente, ficamos impressionados! Daí pra frente, fomos acertando detalhes, mandamos as fotos e o resto das ideias para o digipack e depois de alguns ‘vai e volta’ de arquivos tivemos um resultado, para nós, realmente impactante.

Whiplash.Net: O Krow abriu para o Dimmu Borgir à convite da própria organização do Chile, e vocês aproveitaram para lançar o novo álbum. Como foi isso? Em sua peregrinação pelo underground, o que o deixou mais orgulhoso como artista atuante de nosso Brasil?

Jhöka: No "Before The Ashes" havíamos feito uma pequena turnê pelo Chile no final de 2009 e desde então mantivemos contato com o pessoal de lá. Quando o novo CD ficou pronto, mandamos alguns para a produção chilena e eles adoraram; e nas negociações para fazer novos shows por lá, recebemos o convite para fazer um mega lançamento abrindo para o Dimmu, foi sensacional!

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Jhöka: Realmente não temos do que reclamar, a viagem foi espetacular, o show no Teatro Teletón foi emocionante, lotado, só com equipamentos de primeira, fomos tratados realmente como banda grande. O show era às 20h e quando chegamos à passagem de som, as 13h30, já tinha gente na porta esperando para entrar, o que seria normal para um show do Dimmu Borgir, mas o mais legal foi ver algumas pessoas com a camisa do KroW e que foram lá tirar fotos com a gente e tudo mais, e acho que isso é que mais deixa a gente orgulhosos, saber o quanto a metal brasileiro é respeitado no mundo. Por todos os lugares que passamos sempre fomos muito bem tratados e ganhamos fãs e amigos em todo lugar, e creio que com esse disco a tendência é que isso só aumente.

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Whiplash.Net: O MOA somente evidenciou de vez o amadorismo que ocorre na cena brasileira, por parte da produção e de tantas bandas. Após toda essa confusão, quais as perspectivas para contornar ou minimizar tantas dificuldades que os grupos encontram para mostrar sua música?

Jhöka: Na verdade acho que o trabalho não vai mudar muito, o MOA tentou dar um passo muito maior do que as pernas e mostrou que no Brasil esse business realmente organizado para o metal ainda necessita de muitos ajustes para a concepção de um festival deste tamanho.

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Jhöka: De nossa parte, vamos manter o trabalho constante e forte, e acho que a internet ajuda muito nesse ponto, acabamos de abrir nossa loja oficial, entramos no iTunes e utilizamos principalmente os canais on-line para divulgar nosso trabalho e negociar shows, está funcionando muito bem e acho que é o melhor caminho.

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Whiplash.Net: Os meses seguintes após o lançamento de um novo álbum são de muito trabalho. Neste sentido, quais os planos do Krow para a divulgação de "Traces Of Trades"? Novas turnês à vista?

Jhöka: Com certeza! Já temos várias datas no Brasil, tocamos recentemente no Bananada em Goiânia (GO), em Patos de Minas (MG), vamos tocar em Uberlândia com os Raimundos no próximo dia 8, vamos fazer shows no interior de São Paulo e estamos fechando datas na capital paulista e provavelmente no sul do país. Também já temos data de embarque, no final de agosto voltamos à Europa e ficamos até novembro, por lá já confirmamos Alemanha, França, Dinamarca, Itália, Suécia, Polônia, Romênia e Bulgária.

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Whiplash.Net: Opa, parabéns, o trabalho está rendendo bons frutos! Pessoal, o Whiplash.Net agradece pela entrevista desejando boa sorte a todos. O espaço é do Krow para os comentários finais, ok?

Jhöka: Nós que agradecemos a vocês! E queremos mandar um salve a todos os headbangers insanos que vão aos nossos shows!! Vocês são do caralho!

Queremos dizer a todos que queiram conhecer o nosso som, é só acessar nossa página oficial no Facebook:

http://facebook.com/krowmetalzone


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Sobre Ben Ami Scopinho

Ben Ami é paulistano, porém reside em Florianópolis (SC) desde o início dos anos 1990, onde passou a trabalhar como técnico gráfico e ilustrador. Desde a década anterior, adolescente ainda, já vinha acompanhando o desenvolvimento do Heavy Metal e Hard Rock, e sua paixão pelos discos permitiu que passasse a colaborar com o Whiplash! a partir de 2004 com resenhas, entrevistas e na coluna "Hard Rock - Aqueles que ficaram para trás".

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