Tomada: a liberdade está sendo tolhida na internet

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Por Ben Ami Scopinho
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Uma década, três álbuns e uma incrível gana para tocar Rock'n'Roll tipicamente brazuca! Esse é o Tomada, que vem colhendo ótima recepção com seu mais novo trabalho, "O Inevitável". Toda a honestidade de sua trajetória chamou a atenção do Whiplash.Net, que foi conversar com o vocalista Ricardo e baixista Pepe, que deram muitos detalhes de sua atual fase. Confiram aí!

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Whiplash.Net: Olá pessoal. Os últimos anos foram bem tumultuados para o Tomada, tanto que seu terceiro álbum, "O Inevitável", demorou seis anos para ver a luz do dia... O que andou rolando neste tempo todo, afinal?

Pepe Bueno: Muitas coisas aconteceram, o Rodrigo Gomes (guitarrista que gravou os dois primeiros discos) saiu da banda, fizemos muitos shows, gravamos vários singles virtuais (todos podem ser baixados no http://tramavirtual.uol.com.br/tomada), pré produzimos "O Inevitável", fizemos alguns clipes, respondemos várias entrevistas, participamos de programas de TV, internet e rádios. O Marciano (baterista) foi pai de duas lindas meninas, gravei meu disco solo em 2007 ("Nariz de porco não é Tomada"), o Alpendre entrou num projeto do ex-baixista do Irá! (Gaspa e os Alquimistas), entramos em algumas confusões, acabei sendo preso, coisas que acontecem em bandas de rock. Porém, nesse tempo todo, estávamos compondo e tocando sempre, e isso nos deixa com muitas músicas na manga. Ou seja, nesses seis anos fizemos coisas à beça.

Ricardo Alpendre: É, e essas experiências foram todas importantes, cada uma delas: as boas e as ruins. Até que a gente soube catalisar tudo no álbum "O Inevitável"!

Whiplash.Net: Alterações na formação podem acarretar mudanças no som de qualquer banda. Como surgiu a vontade de abraçar elementos da Jovem Guarda e MPB? Algumas canções acabaram adquirindo um tom mais 'cafona', algo que muitos artistas de Rock'n'Roll evitariam, não concordam?

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FOTO:  ALE FRATA
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Ricardo: Sim, muitos evitariam, mas na maioria dos casos por medo. Claro que ninguém vai querer obrigar uma banda de rock a ficar colocando referências de que não gosta, mas no nosso caso, essas influências têm trânsito livre. Músicas como "Hoje Eu Não Tenho Muito A Dizer" e "O Calor de Abril" têm coisas que são mesmo passíveis de receber a pecha de 'cafona' (que a meu ver não é nem um pouco degenerativa). São canções que tem carga emocional como o Tomada nunca tinha atingido. Músicas sinceras, de gente madura, e tentando atingir o público de qualquer nível cultural.

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Whiplash.Net: Neste sentido, vocês já admitiram que a pré-produção do guitarrista da Pitty, Martin Mendonça, e a mixagem do André T também influenciaram em "O Inevitável". Certo, mas de que forma isso ocorreu?

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Pepe: Martin é nosso amigo desde a época em que ele tocava no Cascadura, um cara super antenado, um baita artista e guitarrista, o cara certo para o Tomada ter como base de idéias e quando pensamos em ter um produtor para o disco, ele foi com certeza o cara que gostaríamos que assumisse essa função. Foi ele que capturou todas as nossas opiniões sonoras e dizia o que podia funcionar ou não, foi ele quem organizou a base deste disco e dele também a idéia de André T. mixar o disco. Foi uma grande idéia, somos fans de T. desde quando ouvimos o disco "Vivendo em Grande Estilo" do Cascadura e depois convivendo e conversando com ele, percebemos ainda mais que ele é um cara bem acima da média, super criativo, cuidadoso com timbres e estética sonora.

Pepe: Martin e André T. são super importantes no disco, e além deles cito Funai Costa, que viabilizou ao Tomada gravar em estúdios tops aqui em Sampa e o Xando Zupo, que cuidou das gravações das guitarras deste disco. Foi um disco gravado em vários estúdios e todos que estavam envolvidos na gravação fizeram com o maior carinho e profissionalismo, e o resultado final é uma soma de tudo isso embalado na capa e encarte desenvolvida por Tiago Almeida.

Whiplash.Net: "O Inevitável" possui letras muito bem sacadas, o que fica reforçado pela presença de, por exemplo, "Catarina", "DC-3" e "O Calor de Abril". Como funciona essa parte do processo de criação dentro do Tomada?

Ricardo: São três exemplos bem representativos do trabalho de letrista. Em "Catarina", vimos o nosso amigo Fábio Cascadura mostrar uma fluência incrível conforme ele transformava a proposta de analogia com o furacão Katrina em uma letra de amor e medo, super ambígua, dando margem a leituras que talvez ele mesmo não tenha pensado, e nós contribuímos com passagens bem simples, mas que se encaixaram bem. "DC-3" levou umas horinhas pra ser feita, sobre a melodia que o Lennon vinha desenvolvendo. Foi inspirada por uma aeronave DC-3 que está aposentada há uns trinta anos, exposta em um parque aqui da região de Sampa. Sabendo que esse modelo de avião operou da década de 1930 até a de 1970, servindo inclusive no fatídico Dia D, na Segunda Guerra, criamos uma história de duas pessoas que se amam, mas em que o protagonista é o tal pássaro de prata. Cantei errado na gravação, substituindo o original "tantas panes" por "tantos planos", e alterando sem querer o sentido e a poesia.

Ricardo: Já "O Calor de Abril" veio de uma inspiração dessas que não se pode perder, quando vêm melodia e letra juntas. Ela tem uma poesia que procura maquiar um pouco sua origem de caráter emocional. Mesmo assim teve um impacto forte, surpreendente, em algumas pessoas pra quem a mostrei. Isso me deu confiança para depois trabalhar na letra de "Entro em Órbita", mais ousada, que eu considero um verdadeiro acerto, sobre a melodia que o Marcião havia feito uns meses antes. Independente de quem dê o pontapé inicial, o caminho para a letra ficar pronta é na maioria das vezes discutido por todos, mas eu sou sem dúvida o mais chato. Preciso disso. É difícil eu ficar satisfeito com uma letra de música; caso contrário, simplesmente não consigo interpretar bem, como que torcendo para o microfone não captar a dicção. Só quando estou confiante na qualidade do que escrevemos eu consigo fazer bem a minha participação no disco ou no show, e consigo passar a emoção da música para as pessoas. O senso crítico é o melhor amigo do homem.

Whiplash.Net: O vídeo para "Ela Não Tem Medo" possui um toque de humor que combina com o Tomada. Ficou bem legal! Como rolou sua concepção? Aliás, a coisa foi feita meio que em família, até a irmã do baixista Pepe participa...

Pepe: A Sara é uma baita atriz, tem uma carreira consolidada (mesmo ela sendo jovem ainda) no teatro nacional, e foi o primeiro clipe que ela fez. Além disso, a idéia surgiu de conversas que tive com ela, um lance meio "Historia sem fim" e "Alice no pais das maravilhas", fomos conversando tendo idéias e idealizando o clipe, chamando uma equipe legal e rolou. O clipe vem rolando em muitos canais de TVs pelo Brasil, além disso, em várias webtvs e no nosso canal do Youtube. Estamos pensando em fazer mais um clipe pra esse disco. Vamos ver o que rola.

Whiplash.Net: Pois bem, com "O Inevitável" vocês estão recebendo constantes elogios em sites, blogs e até mesmo em revistas conceituadas. Afinal, até onde toda essa recepção positiva está abrindo novas portas para o Tomada?

Ricardo: O reconhecimento que estamos recebendo está levando a mais reconhecimento. Sentimos recompensado o nosso esforço para fazer um disco que representasse a nossa qualidade e que fizesse jus ao movimento artístico de que fazemos parte, com artistas independentes criativos nos inspirando e reconhecendo nossa influência. A exposição positiva em uma publicação tem levado a outra, e outra, e outra... Publicações e sites estão nos colocando em suas listas de melhores de 2011 com o CD "O Inevitável". E um público maior, mais diverso e mais interessado está conhecendo nosso som. Além disso, estamos fazendo parcerias importantes com marcas que acreditam no nosso trabalho e exposição. Daremos mais informações sobre isso nos nossos perfis e páginas nas redes sociais.

Whiplash.Net: Considerando as possibilidades da internet, quais os benefícios em entrar na grade de programação das rádios convencionais? Muitos dizem que pode até ser uma 'queimação de filme' ter sua música sendo executada ao lado de alguns 'artistas' que prefiro nem citar por aqui...

Pepe: Estamos nas programações de algumas rádios convencionais espalhadas pelo Brasil, caso da Ipanema FM do RS e também rolou muito nosso som na extinta Brasil 2000 daqui de SP. Achamos o máximo isso, receber e-mail de uma galera que sabe quem é você por causa que ouviu o som do Tomada na rádio.

Pepe: A ideia do Tomada é levar a nossa música para o máximo de pessoas possíveis, não temos esse medo de nos queimar, porque podemos andar com os metaleiros dos mais pesados e também com o pop mais soft. É só para e pensar, o Sepultura quando lançou "Roots" era uma banda pop no mundo, o Michael Jackson é super pop. Cara, esses dois artistas que citei são bem diferentes, mas fazem ou fizeram músicas de primeira qualidade.

Pepe: Sei que o Heros Trench (Korzus) gosta de várias músicas românticas rsrsrs e eu gosto de várias bandas punks podreira, esse lance de tribos é legal, mas só se todos puderem transitar livremente por todas elas.

Ricardo: Não há problema algum na verdade. Estar eventualmente em uma mesma programação em que estão determinados artistas popularescos significaria uma invasão benigna, rsrs. Ou maligna, para manter nossa fama de maus.

Whiplash.Net: O Tomada, Carro Bomba, Baranga, Exxótica, etc, surgiram mais ou menos na mesma época. Passados esses anos e com o aparente e renovado interesse do público pelo Rock'n'Roll cantado em português, quais as perspectivas para sua carreira nestes tempos tão complicados para a música?

Ricardo: A perspectiva toda, na minha opinião, está em nos juntarmos e ternos consciência do movimento artístico que somos, de nos divulgarmos mutuamente. O Tomada tem feito parte de divulgações conjuntas, especialmente nos shows em que lançamos o novo álbum. Os resultados são sempre melhores. Agora, por mais incerto que seja o futuro em termos de mercado, o mais provável é que a gente esteja por aí fazendo nossa música por muito tempo ainda.

FOTO:  ALE FRATA
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Whiplash.Net: A queda do site Megaupload reavivou o tema dos direitos autorais... O que uma banda como o Tomada, que atua de forma tão mais discreta na cena musical, pensa de toda essa repercussão?

FOTO:  ALE FRATA
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Pepe: Achei bom, vou ficar só no assunto música, que é onde tenho mais propriedade para falar. Acho que o artista e gravadora (ou selo), devem decidir se devem ou não disponibilizar a música/ disco/ vídeo e qualquer conteúdo artístico de graça na internet e aonde devem colocar. Nós, do Tomada, sempre disponibilizamos nosso conteúdo, mas pensem bem, se lá atrás os discos fossem vendidos a 15 reais ou 10 reais para o consumidor, teríamos tantos discos piratas? Isso é só um exemplo raso, pois o problema é bem maior. Acreditamos que tantos os consumidores, quanto os artistas e os produtores devem valorizar o produto artístico e não sub valorizá-lo ou super valorizarem.

Ricardo: O cineasta Jean-Luc Godard disse que propriedade intelectual simplesmente não existe. Não é interessante? Um artista que teoricamente estaria muito interessado em defender seus ganhos junto à indústria do cinema, mas que compreende que a indústria ganha muito mais que ele, que tem o talento e o maior esforço. Na prática, para o Tomada, não é o Megaupload ou os outros servidores de compartilhamento que fazem a diferença, já que se pode baixar nosso trabalho diretamente de nossos canais. Mas a liberdade está sendo tolhida na internet. A indústria da cultura popular vai dando mais um passo errado por meio do sistema.

Whiplash.Net: E a agenda para 2012? Ouvi rumores de um bootleg e uma turnê por Santa Catarina... Dá mais infos aí...!

Pepe: O bootleg é o "Tomada-Overdrive Session" e saiu dia 1 de fevereiro e disponibilizamos ele para download gratuito no site www.tramavirtual.com.br/tomada. Foi gravado em 2010, por Xando Zupo (ex-Pedra) no estúdio Overdrive, pouco antes de entrarmos no estúdio para graváramos "O Inevitável". São sete músicas gravadas ao vivo em estúdio, retrato de como estávamos ensaiando e pensando o novo disco, além de ter músicas dos nossos primeiros discos também. Devemos lançar em breve também um bootleg das gravações que fizemos no estúdio da trama no final de 2011.

Pepe: Estamos chegando em maio para alguns shows em SC, Joinville e provavelmente terá mais um show, com as bandas Os Depiras e Lenzi Brothers. Devemos ainda fazer shows em MG e pelo interior de SP. Estamos negociando ainda fazer shows em BA e RS e, claro, quem quiser contratar o Tomada é só mandar um e-mail no [email protected]

Whiplash.Net: Pessoal, o whiplash.net agradece pela entrevista desejando boa sorte ao Tomada. O espaço é de vocês para os comentários finais, ok?

Pepe: Valeu galera, sempre estamos lendo o conteúdo do Whiplash.net e se quiserem saber sempre o que acontece com o Tomada, fiquem ligados no www.tomadarock.com.br. Nosso negócio é rock and roll!!

Ricardo: Prazer enorme em falar com os leitores do Whiplash.net! Convidamos todos a baixar nossas músicas e, se gostarem, comprar nossos CDs. Quando tivermos a honra de fazer shows para vocês, podem crer que faremos o melhor rock que pudermos, porque o público é tudo.




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Sobre Ben Ami Scopinho

Ben Ami é paulistano, porém reside em Florianópolis (SC) desde o início dos anos 1990, onde passou a trabalhar como técnico gráfico e ilustrador. Desde a década anterior, adolescente ainda, já vinha acompanhando o desenvolvimento do Heavy Metal e Hard Rock, e sua paixão pelos discos permitiu que passasse a colaborar com o Whiplash! a partir de 2004 com resenhas, entrevistas e na coluna "Hard Rock - Aqueles que ficaram para trás".

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