Shadow Gallery: Entrevista exclusiva com Gary Wehrkamp

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Texto, Entrevista e Tradução por
Thiago Corrêa Sarkis e Pedro Fraga Bonfim.

O Shadow Gallery está sempre surpreendendo seus fãs, demonstrando alta qualidade musical em álbuns direcionados às raízes do rock progressivo e em outros completamente ligados a um intenso metal progressivo.

Gary Wehrkamp nem estava na banda quando esta fez a sua estréia com um disco auto-intitulado. Porém, logo depois ele entrou no grupo para substituir Chris Ingles, um de seus ídolos. A partir de então, sua participação no Shadow Gallery cresceu. Ele se tornou o porta-voz da banda e um membro indispensável, sendo o autor da maioria das partes instrumentais do último disco, "Legacy", o qual ele também produziu.

Nas conversas com Gary, seja em uma entrevista ou não, costumamos dizer que escrevemos um livro, pois sempre surgem revelações nunca antes publicadas, mistérios sobre algumas músicas da banda, nomes de novas canções, projetos paralelos, entre outras coisas.

Num desses papos, tivemos o prazer de realizar, depois de quatro anos, outra entrevista com uma das figuras mais receptivas da cena progressiva, um sujeito muito lúcido e sempre aberto a piadas e boas risadas.

Como sempre, temos algumas revelações feitas pelo músico e novidades sobre a banda, além de histórias fantásticas como a de John O' Connor. Confiram agora... com vocês, o senhor Gary Wehrkamp.


Whiplash! - Como estão indo as coisas com o Shadow Gallery? Como a banda recebeu as críticas ao "Legacy"?

Gary Wehrkamp / Tudo está bem na terra do Shadow Gallery. O trem parou por um longo tempo, o suficiente para a gente dar uma descida e ver as outras cores na vida. Estivemos ocupados sim, mas, quem não está? Eu me casei em outubro passado, Carl e a sua mulher tiveram seu segundo filho. Brendt e Chris estão ocupados com trabalho e namoradas, morando há uma hora ou duas de distância de mim, e Mike está fazendo várias coisas. "Legacy" foi um grande álbum para ser feito e foi ótimo perceber a resposta positiva que tivemos. Eu tento me manter sempre ativo, musicalmente falando, já que é a coisa com a qual eu sou mais apaixonado na minha vida, é o meu oxigênio - então eu estive envolvido com algumas coisas, mas eu sinto que você vai me perguntar sobre isso então não vou responder a toda a entrevista na primeira frase.

Whiplash! - Eu percebi algumas reações diferenciadas em relação ao "Legacy". Porém todas elas tinham alguma conexão com o estilo adotado pela banda. Foi mencionado que este álbum tem um forte laço progressivo, porém ainda com alguns momentos prog-metal. Você acha que este é o disco mais orientado ao rock progressivo já lançado pelo Shadow Gallery?

Gary Wehrkamp / Em cada álbum existe alguma intenção na sua direção, apesar de músicas serem escritas por pessoas diferentes em épocas diferentes, resultando numa variedade de estilos. Em "Legacy" houve uma inclinação para fazermos as coisas de maneiras específicas. A primeira foi fazer um disco mais simples - em todos os sentidos, de todas as maneiras. Quando terminamos o "Tyranny" ficamos exaustos. Com seu sucessor, não queríamos começar a cavar um buraco muito profundo antes de saber o que estávamos procurando, então decidimos que ele não teria um conceito pré-definido - poderíamos voltar a escrever músicas por elas próprias. No final, alguns temas se juntaram e a presença de uma música comparada com a próxima criou uma relação, assim como em muitos álbuns. E existem coisas em comum em diversas músicas, isso foi algo que surgiu com o tempo - e o tempo é outro ponto importante. Foi decidido junto à nossa semi-impaciente gravadora que teríamos uma data limite definida - seis meses do início ao fim do processo, tirando apenas mixagem e masterização. Foi mais idéia da Magna Carta, mas eles perguntaram quanto tempo levaria e respondi "seis meses". E assim foi, seis meses depois que assinamos, tínhamos acabado. Bem, na verdade não, mas isso é outra história.

Outro ponto foi o estilo. Eu produzi o disco dessa vez, sem muita ajuda dos outros, como nas outras vezes. Então minha presença como produtor principal foi mais forte e impactante, e eu queria fazer deste disco algo mais próximo ao primeiro do Shadow Gallery, no qual não participei, mas que eu ADORO! Alguns licks, as camadas de teclados e sons mais analógicos, etc. Portanto ele tem uma sonoridade mais prog, diferentemente do "Tyranny" que é bem mais metal. Eu escuto mais Floyd e Yes do que Metallica ou algo mais pesado... apesar de achar que ambos estão bem representados. É algo que tentamos alcançar com cada disco.

Whiplash! - Os fãs do lado mais pesado da banda não gostaram muito. Você percebeu estas reações? O que acha disso?

Gary Wehrkamp / Bem, muitas pessoas esperavam por um "Tyranny" parte 2 e não havia jeito de se fazer isso. Eu acho que "Legacy" é tão pesado quanto tudo o que já fizemos, apesar de ter seus momentos mais intimistas. Foi uma evolução normal para nós, assim como o próximo disco também será. Não somos uma banda como o Korn ou Tool, que representam um lado muito bem e deixam o resto de lado. Como compositor, fico rapidamente entediado com as minhas partes e criações, não importa quão boas ou ruins elas sejam. Além disso, gosto de misturar tudo porque no fim acaba soando novo para mim. Eu componho para mim, assim como o resto da banda. A maioria das respostas que vi foram ótimas.

Whiplash! - Você disse anos atrás que era um sonho seu trabalhar com arranjos mais clássicos / orquestrados. Sobre isso, como você compararia "Tyranny" e "Legacy"?


Gary Wehrkamp / O uso de violinos e violas reais foi um grande passo nessa direção. Eles apareceram mais em algumas faixas desta vez, apesar de ainda um pouco sutis demais. Não creio que incorporamos isso tão bem como gostaríamos. Isso não é nada novo, muitas bandas já fazem isso há muito tempo. Mas eu quero levar até um próximo nível - quem sabe na próxima tentativa. Nós tivemos alguns vocalistas convidados desta feita. Chris e eu tínhamos alguns órgãos hammond b-3 para usar, era pra termos violoncelos. Mas essas coisas não são mais importantes, digamos, que terminar um vocal, adicionar alguns backing vocals. Espero que dessa vez as coisas não fiquem tão loucas e dê tempo para fazer tudo.

Whiplash! - Algo que percebi nos discos do Shadow Gallery é que o seu envolvimento com a banda não para de crescer. De novo membro, você se tornou praticamente o compositor principal e porta-voz do grupo. Como isso aconteceu e o que você acha de ser considerado o membro mais importante da banda?

Gary Wehrkamp / Eu entrei em 1993. Deixei de ser o "cara novo" quando compusemos o "Tyranny". Tornei-me o porta-voz do grupo por duas razões: 1 - Eu amo o que faço. Sou muito ambicioso, quando não estou sendo preguiçoso. 2 - Porque todos os outros pararam de fazer. Não por preguiça, mas por estarem concentrados em outras prioridades. Então foi isso.

A maior parte do equipamento usado no estúdio era meu, junto com coisas que pertenciam à banda. Estávamos gravando mais no meu estúdio do que no local habitual (a banda é dona do "Shadow Gallery" estúdio) e como produtor, compositor, e participante ativo, acabei fazendo realmente mais. Não diria que sou o principal compositor e nem gosto que as pessoas vejam isso desta forma. Claro que posso compor um álbum sozinho ou 10 ou até mesmo 20, mas nessa banda, a força de todos é que nos faz mais fortes. Não sou um compositor melhor que o Brendt ou o Carl, ou qualquer outro dos membros. Eu os acho brilhantes. Pode não ser "legal" falar bem dos outros caras na sua banda, mas eu realmente tenho muito respeito por eles e me sinto um felizardo em estar afiliado a eles e eles provavelmente podem dizer o mesmo. Foi o trabalho duro deles que fez da banda o que ela é hoje.

Whiplash! - Quais são os planos para o futuro?

Gary Wehrkamp / Em nenhuma ordem específica: tocar minha guitarra, configurar o meu teclado, talvez comer alguma coisa, fazer um pouco de chá, compor um novo álbum. Falando sério... começamos a fazer algumas demos. Dois dias atrás Brendt e Chris vieram até o meu estúdio com uma idéia que eles começaram a desenvolver. Foi ótimo ouvir algo deles. Mike e eu já estamos desenvolvendo algumas coisas faz poucos meses. No momento, acho que temos umas 20 idéias diferentes - mas trabalhamos de maneiras diferentes - Brendt irá esperar e compor, depois vai gravar umas duas ou três músicas maravilhosas que nós provavelmente iremos usar. Eu gravarei umas 50 demos e escolheremos as nove ou dez melhores para gravar. Temos que ser objetivos quanto ao que é melhor e incluir as idéias de todos. Da última vez eu era o único compondo então todos usamos as minhas idéias. Além disso, muitas delas começam com música, mas o som é apenas metade do assunto. Carl se envolve nas letras de praticamente todas as músicas, então sempre trabalhamos para isso.

Como produtor dos novos projetos, quero que todos escrevam músicas desta vez, quero idéias de todos "voando" nesse novo disco. Claro que não posso forçar ninguém, mas não tenho nenhuma intenção de controlar todas as contribuições, desde que eu tenha a minha parte claro, o que é o suficiente.

Whiplash! - Quando te entrevistamos, você nos fez algumas revelações nunca antes publicadas. Poderia nos adiantar, então, o nome de uma música, direcionamento ou até mesmo o título do próximo álbum?

Gary Wehrkamp / Sim, claro. Existe uma música que eu e Mike escrevemos anos e anos atrás, antes do "Legacy". Não era necessariamente algo para o Shadow Gallery, mas isso não nos parou. Eu tinha feito uma música bem simples e Mike também colocou uma melodia bem simples, porém muito bela. As letras eram meio sem sentido, aquele tipo de coisa que fazemos rimando palavras comuns apenas para nos lembrarmos da melodia. De qualquer forma, foi uma das 25 músicas que trabalhamos muito brevemente antes de descartarmos em prol de uma música mais do estilo da banda.

Então, alguns anos depois essa história se desenvolveu na minha cabeça - por onde ficou - e algum tempo antes de ser colocada em papel ou gravação, era baseada no título que Mike havia colocado - "Valentine's Eve".

Acho que o primeiro rascunho que ele fez foi sobre alguém no meio do nada, esperando inerte pelo seu amor, na noite do dia dos namorados. Eu achei bem interessante e disse: "Legal, vamos desenvolver e dar um sentido maior".

Então, depois desses anos todos, creio que no último verão, a nova versão se desenvolveu nessa idéia: É a véspera do Dia dos Namorados e tudo na vida desse personagem está passando na frente dos seus olhos enquanto ele se lembra de um dia quando ele tinha 17 anos e de todo amor que ele sentia - foi a primeira vez que ele amou alguém e também a última. O amor da vida dele, a namorada, está precisando muito dele por diversos motivos devido a sua própria infelicidade. Ela tem 16 anos e é completamente apaixonada por ele e também está muito ansiosa em fugir de casa. A mãe morreu quando ela era muito nova e o pai, incapaz de lidar com a morte da mulher, abusou sexual e fisicamente da filha quando ela era pequena. Isso foi muito difícil para a garota, óbvio. Ela não somente perdeu a mãe, mas também se perdeu numa confusão sobre o que sua realidade se tratava - tudo que tinha era o seu pai e sabia que o ele fazia com ela não era certo. De qualquer forma, quando ela se torna uma adolescente e começa a amadurecer, seu pai nada mudou e ela começa a confrontar seus sentimentos e precisa fugir dele. Tímida e introvertida, tinha poucos amigos, porém se apaixona por alguém que tem o tempo para compreendê-la. Ela se abre para ele, que jura ajudá-la de todas as maneiras possíveis - ele quer confrontar o pai, mas ela tem outro plano.

Eles escolhem uma noite para fugir e apesar do pai desconfiar de algo, eles acham que o enganaram. Decidem fazer um casamento em um campo, à meia-noite, apenas eles e o padre e planejam se encontrar lá um pouco depois das onze da noite. Quando ela chega e eles estão certos que vão deixar o passado para trás, o pai aparece com uma arma, com a intenção de levá-la de volta. Ele não quer deixar sua filha de 16 anos fugir dele, já que ele transformou o amor pela mulher em uma paixão doentia pela menina.

Então ele ameaça a filha, depois o namorado que não quer abrir mão da noiva. Eles discutem e o pai mira a arma no garoto, como um ultimato, mas sua filha corre para protegê-lo enquanto seu pai atira. O disparo, que era apenas para aterrorizá-lo, atinge o peito da menina, matando-a. O tempo congela entre os dois enquanto o pai percebe que matou sua única filha.

Confuso, ele vira a arma para si próprio e como não tinha mais nada a perder (exceto sua alma) ele se mata, deixando o garoto de 17 anos sozinho nesse lugar, contemplando sua vida e tudo que ele perdeu naquele dia. Um dia de amor para o mundo, mas de dor sem fim para ele.

Sei que é um conto meio velho e que já foi contado, mas a emoção parecia se encaixar com a música, então eu fiz uma demo e Mike já tem o cd e provavelmente vamos gravar ela com ele cantando em breve, apenas para nós, ou talvez lancemos através do fã clube (outro aspecto que precisa de uma melhorada). Tirando isso, alguns dos títulos que temos por agora são: "Inevitable" e muitos outros sem sentido, como "Rugburn" ou "At Your Service". É muito cedo para falar mais do que isso.


Whiplash! - Falando sobre revelações e voltando ao "Legacy". A banda poderia parar com todos os mistérios sem fim? O que acontece em "First Light"?

Gary Wehrkamp / Hummm... mas isso acabaria com toda a graça, não? De que mistérios você está falando? As conversas? A batida na porta? Eu fico com a impressão que isso não foi tão engraçado para algumas pessoas - era mais uma piada para nós. Eu coloquei a batida em um cd demo que fiz para o Carl, junto com algumas demos. Como uma brincadeira, adicionei umas campainhas e escolhi aleatoriamente um pedaço de música new age que tinha escrito. Mas não sei por que, acabamos colocando aquilo no final do álbum. Eu achei que fosse engraçado, mas algumas pessoas reclamaram: "Vocês nos enganaram - a música não tinha 35 minutos - apenas 25... blá blá blá", o que me faz rir ainda mais. Quero dizer, poxa, acabamos de dar a vocês uma hora de música e vocês reclamam que foram enganados? Dêem um tempo, se você não gosta, não ouça. É a sua escolha. No novo cd não vamos ter batidas nem campainhas. Porém vamos ter umas dicas sobre algo bem específico e a história de uma outra música irá continuar e é importante que ela seja contada - já que se relaciona com algo que todos os fãs do Shadow Gallery já ouviram e no fim muitas coisas irão fazer sentido.

Whiplash! - As vezes eu acho que o problema com o Shadow Gallery é o longo hiato entre um disco e o outro. Quando vocês lançam algo, acontece um boom no mundo progressivo. Depois de alguns meses, a banda praticamente desaparece da mídia. Você concorda com isso? É algo que se pode melhorar com o tempo ou a banda é assim mesmo e ponto?

Gary Wehrkamp / Bem, não escolhemos que as coisas aconteçam assim, mas acaba sendo assim por uma razão ou outra. Sim, não nos ajuda, mas não lançamos um disco a cada 10 anos. São 2 ou 3 anos de intervalo apenas. E não deve mudar muito, pelo menos para o próximo. Desculpe.


Whiplash! - A última coisa que ouvimos de você foram os teclados em Star One, um dos projetos de Arjen Lucassen, com o álbum Space Metal. Quando você recebeu o convite e o que você pensou do conceito do álbum, baseado em ficção científica?

Gary Wehrkamp / Arjen me ligou e pediu para que eu escrevesse, produzisse e gravasse todo o álbum para ele. Eu disse que estava muito ocupado, então combinamos que eu gravaria um solo de guitarra, ou dois, ou cinco... Na verdade, Arjen é um cara muito talentoso e não precisa de ajuda, mas é esperto o bastante para ver as vantagens de ter performances de outras pessoas. Eu me ofereci para fazer os solos antes dele me perguntar e estarei sempre disposto a contribuir com tudo que ele faça, se ele quiser. Você disse teclados? Não, quem gravou isso foi Jens Johansson, o maior entre os maiores - eu fiz um duelo com ele tocando guitarra. Nenhum de nós ouviu ou soube o que o outro faria - recebemos as fitas com espaços em branco e tocamos o que nos veio em mente. Ele é um musico fantástico e estaria mentindo se não dissesse que ele é uma das minhas maiores influências como tecladista, quando tinha 21, 22 anos. Ah, ele sempre vai ser.

O conceito do álbum é todo do Arjen e é uma grande idéia, especialmente sabendo que ele é um grande fã de filmes de ficção cientifica. Eu gosto de filmes com viagens no tempo, mas nessa área é tudo. Não sou um grande fã de Guerras Nas Estrelas - me dêem Matrix, no lugar!

Whiplash! - Eu escutei alguns comentários ruins sobre Arjen vindos de músicos bem conhecidos. Disseram-me que ele é uma pessoa muito difícil de se relacionar. Como foi contigo?

Gary Wehrkamp / Eu não poderia imaginar algo mais distante da realidade. Ele é muito amigável e tem seus pés no chão, sendo humilde e maduro, musicalmente falando. Eu não trabalhei com ele no estúdio, estando em partes diferentes do mundo, portanto enviar as fitas pelo correio era uma opção bem mais razoável. Ele certamente tem sua visão e objetivos - é a sua performance - e eu não sei quem falou isso, mas parece que confundiu o cenário com profissionalismo. Porém, essa foi a minha experiência com ele, então não posso comentar sobre o que eu não sei. Eu jantei com ele no início do ano em Nova Iorque e foi divertido. É um cara bem legal.

Whiplash! - Voltando ao seu amigável confronto com Jens em Star One. Acho que o metal nunca teve tantas portas abertas para o teclado. Quero dizer, Vitalij Kuprij lançou um álbum de piano clássico pela SHRAPNEL. Isso é algo inédito. Você concorda que os teclados estão recebendo mais reconhecimento e espaço dentro do metal?

Gary Wehrkamp / Eu não ouvi o álbum de piano do Vitalij, mas alguém chegou a me mandar seus primeiros dois discos e eu adorei um deles. Ele é incrível - tenho de admitir, ele me colocou a praticar novamente e se um dia eu encontrá-lo, preciso agradecê-lo por isso. Ele é um tecladista muito melhor do que eu, mas um pouco de inspiração competitiva pode levar alguém longe.

Ele gravou e mixou boa parte do material em um estúdio que fica a poucas milhas de onde eu freqüentei o colegial - o primeiro estúdio profissional em que eu gravei, quando era adolescente. Estive falando sobre Vitalij recentemente com o proprietário do estúdio.

Os teclados têm seu espaço, mas não vejo como ele poderia ter mudado muito desde os primórdios do Yes e Pink Floyd. Agora, dentro do metal, eu não saberia dizer, não ouço muito. Algo como o Star One não está muito distante do Deep Purple, dentro do campo de teclado / órgão. Mas colocando de maneira simples, se você tem pessoas talentosas como Vitalij e Jens tocando, as pessoas vão sempre querer ouvir, não importa o estilo.

Whiplash! - Você tem planos para um álbum solo? Qual seria o direcionamento do mesmo?

Gary Wehrkamp / Eu cheguei a começar um disco solo, algo meio new age, como pode ser ouvido no final do "Carved In Stone" (chamado "TG 94") ou nos últimos minutos de "First Light" (chamado "Your Scenery"). Mas até aí, como de habitual, meu tempo e meu trabalho competem entre si e eu fiz escolhas em prol de trabalhar com aquilo que me era mais importante na época, coisas com as quais eu estava muito envolvido.

Uma delas foi o disco "Soul Kiss", com meu melhor amigo Jim Roberti. É o seu material, assinado como The Jim Roberti Band, que nós produzimos juntos em Atlanta e aqui no 9th Street Studio. Eu também toquei guitarra, teclados, cantei e mixei.

Nós tocamos algo em torno de 100 shows por ano, portanto estou sempre tocando e me divertindo - desejando que fosse o Shadow Gallery, porém, é bem legal e bem diferente. Não é algo planejado como um show do Shadow Gallery seria - eu toco coisas diferentes todas as noites, toda hora, em todo show.

Trabalhamos em cima do disco por um ano e já deve estar disponível na amazon.com ou lugares similares.

Durante a gravação do "Tyranny" e do "Legacy", eu tinha o meu próprio estúdio e o meu trabalho como produtor, que se extendeu para arranjador e colaborador. Em uma ocasião recebi uma carta de uma pessoa procurando colaboração para umas duas ou três músicas. Tinha uma fita acompanhando a carta e já estava acostumado a ouvir todos os tipos de demos - algumas completamente produzidas e outras mais para bandas de garagem precisando ainda ser um pouco lapidadas antes de serem gravadas. Mas nessa fita havia algo único e, para ser honesto, engraçado. Era um senhor mais velho cantando, sem acompanhamento, apenas "ooooh" e "laaaaas". Não havia instrumentos, apenas as idéias das melodias. A carta requisitava que um músico tocasse a melodia em seu instrumento enquanto outro talvez cantasse junto. Eu peguei essa fita logo após sair do estúdio com o Shadow Gallery e tinha a tarde livre.

Voltei para casa e acabei fazendo uma versão orquestrada de uma das idéias - levou uma ou duas horas - e o resultado ficou interessante. Pensei então, mas que diabos, vou ligar para esse cara. Posso encaixá-lo na minha agenda e ele concordou em me encontrar no dia seguinte.

Seu nome era John O'Connor e ele era um professor aposentado de filosofia e também um projetista de computadores já com mais de 70 anos de idade, enquanto eu, esse rocker cabeludo com um pequeno estúdio. Começamos e ele me fez tocar uma melodia ou duas que ele cantava, mas não se satisfazia. Ele queria que o meu piano soasse como as vozes dele, o vibrato e etc. Eu ficava trocando os sons entre violoncelos e outros instrumentos, mas nada era bom para ele. Eu já estava a ponto de falar - "bem, isso não está funcionando, foi bom te conhecer, mas... boa sorte". Foi quando eu comecei a falar a frase e ele sugeriu que fossemos tomar um café.

Então ele me falou que seu desejo era ter suas músicas tocadas por um músico ou dois, nada muito grande, como uma banda completa, por exemplo. Foi aí que eu falei para ele sobre o arranjo que eu tinha feito e ele ficou meio tímido, já que parecia que tinha uma orquestra de 40 pessoas tocando. Ele pouco falou e quando eu terminei, achei que não tinha gostado. Mas ele estava em choque, tinha adorado. Ele perguntou se poderíamos nos encontrar novamente para discutir isso e tentar outra música e combinamos na semana seguinte.

Nos encontramos todas as semanas após aquela. Trabalhamos em muitas, muitas idéias pelos 4 ou 5 anos seguintes. Acabamos colocando o trabalho em uma fita, chamada "Landscapes Of The Spirit" e a entregamos a um antigo conhecido dele. Estava repleta de fragmentos de idéias com uma vasta gama de opções de instrumentos.

Ele não tinha familiares exceto uma filha de outra cidade que ele via apenas algumas vezes por ano. Então eu e ele (e minha namorada Ginger) ficamos muito amigos, saíamos para compras e íamos com ele aos médicos - já que ele não dirigia - e inclusive ele freqüentava as nossas reuniões de Natal e Ação de Graças e outras festas e acabava se encaixando de uma maneira que você não acreditaria. Ele parecia ter 25 anos, falando sobre baseball, Simpsons e qualquer assunto novo e na moda.

A gente continuou gravando as músicas, gravamos outra fita chamada "Music, Beyond Words" e por fim um mini-álbum chamado "Comedy Songs". Continuamos a trabalhar com aquelas melodias que ficaram na cabeça dele desde que era um garoto, desde 1920, 1930 e 1940. Tínhamos trabalhado em algo em torno de 80 músicas quando ele ficou muito doente e faleceu em 2000, aos 77 anos de idade.

Ano passado, a filha dele entrou em contato comigo e decidimos lançar um CD com algumas das músicas que fizemos - com o nosso dinheiro, sem gravadoras - para nos lembrarmos dele e partilhar desse trabalho musical que tivemos.

Acabamos adiando muito isso, mas um mês ou dois atrás, finalmente terminamos e fabricamos um número limitado de copias. O disco se chama "Generations Of Melodies Remembered" e eu planejo fazer um lançamento exclusivo no site do SG - www.shadowgallery.com - em torno de um mês, provavelmente quando essa entrevista for publicada. O disco é composto por instrumentais e músicas de comédia. Eu toco todos os instrumentos e canto, exceto por algumas leituras que foram gravações de John que eu coloquei na música depois.

O trabalho está assinado por John O'Connor e Gary Wehrkamp, e esse é um dos motivos para que eu adiasse meu disco solo por tanto tempo - sem falar que muita coisa seria similar - portanto decidi prestar um tributo ao meu amigo John e lançar esse disco antes. Eu tenho mais a falar sobre discos solo e sobre o que estive fazendo, mas acho que fugi bastante do foco da pergunta. Ei, estamos escrevendo um livro, igual à outra vez.

Whiplash! - Só mais duas perguntas para fechar. Você talvez já sabe que Neil Peart fez alguns comentários bastante ruins sobre "Working Man", o tributo ao Rush. Ele disse que não era um tributo de verdade, que não havia bandas reais ali, apenas falta de talento e etc. Como você recebeu isso e qual a sua opinião?

Gary Wehrkamp / Neil é um grande baterista e um artista incrível - altamente analítico e obviamente orgulhoso do seu trabalho duro - Acho que ele estava protegendo algo que era sagrado para ele. O Rush não queria que esse álbum fosse lançado, já que eles achavam que tributos são coisas para bandas que já estão acabadas e eles estavam bem vivos. Eu apenas vi seus comentários sobre não poder impedir o lançamento e ele está totalmente no direito dele de ter uma opinião. Mas acho que se ele me conhecesse, ou qualquer um dos músicos envolvidos, ele não ficaria com essa impressão de sermos um bando de pessoas sem talento tentando tirar algum dinheiro do trabalho dele ou roubando sua glória. Para mim, ao menos, não foi esse caso. Fiz apenas porque eu amo Rush e a gravadora sabe que ajuda a promover bandas (e esse é o trabalho dela). Neil pode falar o que quiser - ele foi e é o meu baterista favorito e não há ninguém à frente de Geddy Lee como influência no baixo para mim. Ele poderia falar tudo para me irritar e mesmo assim, falou diversas vezes mais para me inspirar - em suas letras e músicas. Ele é extraordinário em um mundo vasto de artistas.

Whiplash! - Finalmente, quatro anos depois, você já conseguiu ouvir Heitor Villa-Lobos e música brasileira, incluindo as de metal?

Gary Wehrkamp / Desculpe, mas ainda não. Espero poder correr atrás de algo quando terminar de escrever este livro, digo, entrevista.

Whiplash! - Bem Gary, é isso. Desta vez não foi exatamente um livro, não? Agora é a sua vez. Use esse espaço para o que quiser.

Gary Wehrkamp / Bem, acho que escrevemos sim, creio ter usado todas as palavras que eu conheço. Obrigado pelo apoio e Deus abençoe a todos!


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