O Rappa: Lindo esteticamente, mas falta alma
Resenha - Nunca Tem Fim - O Rappa
Por Thiago El Cid Cardim
Postado em 03 de setembro de 2013
Quando a canção "O Horizonte é Logo Ali" abre o novo disco d'O Rappa, "Nunca Tem Fim", com uma levada venenosa de guitarras e a voz de Falcão distorcida por uma série de efeitos eletrônicos, já fica claro: este é, talvez, o disco da banda com a produção mais esmerada e ambiciosa, nas mãos do conceituado Tom Saboia. A tradicional mistura de rock e reggae do grupo ganha tons eletrizados aqui, um belo naipe de metais ali. É realmente tudo muito bonito, esteticamente. Mas…
…por algum motivo, o resultado final parece soar plástico demais, um tanto sem espírito. Nem estou me referindo aqui à falta de Marcelo Yuka, seu principal letrista, cuja saída de fato deixou um rombo na carreira dos caras. Mas acho que ainda é mais do que isso. A produção parece ter lhes tirado uma boa dose da autenticidade que fica explícita em "Rappa Mundi" (1996), uma vivacidade, uma originalidade que soa natural, experimentações que soam verdadeiras. "Nunca Tem Fim", seu primeiro de inéditas em cinco anos, parece robótico, uma belíssima estátua paralisada e sem vida.
O exemplo mais claro é "Cruz de Tecido", talvez a mais comentada canção do disco. A música tem letra esforçada e um tema inusitado, mas que faz sentido para o histórico de letras sociais do grupo: a impunidade no caso da queda do avião da TAM no aeroporto de Congonhas, em 2007. Mas o resultado final é tão óbvio que chega a ser cansativo, e poderia estar em qualquer um dos discos anteriores da banda. Acaba se parecendo, em estrutura e sonoridade, com uma espécie de irmã-gêmea de "Minha Alma", justamente um de seus maiores sucessos.
O mesmo pode ser dito dos dois primeiros singles, "Anjos" (sobre a fé, com direito até a citações à Bíblia) e "Auto-Reverse" (com uma típica mensagem de superação para o brasileiro mediano, que rala um bocado), que parecem sair do repertório-padrão dos caras, como que feitas à base de um template único, de uma linha de fabricação. É muito pouco para um coletivo de músicos que sempre provou não ter medo de ousar, de tocar com parceiros do axé, heavy metal, forró e punk rock, sem exceções, sem preconceitos, tudo em nome da boa música.
Justiça seja feita, no entanto, já que o disco tem lá alguns momentos que merecem destaque – como o empolgante refrão de "Doutor, Sim Senhor", que mescla uma pegada pesada de guitarra com uma interessante camada de metais, gerando um resultado bastante convidativo. Numa linha mais sutil, enquanto o vocalista Marcelo Falcão canta as mazelas típicas do povo brasileiro em uma ótima interpretação, os metais criam um clima poético na igualmente intensa "Sequência Terminal". E a faixa final, "Um Dia Lindo", além dos versos incidentais de "Praia e Sol", samba-rock do veterano Bebeto, traz a participação especial dos vocais incisivos de Edi Rock, dos Racionais Mcs. A mistura gera uma canção quase que de auto-ajuda, mas que funciona bem – o suficiente para se ficar imaginando como ela seria impactante ao vivo.
Talvez Marcelo Falcão e seus parceiros devessem, numa próxima bolacha, experimentar mais desta simplicidade. Reunidos, cada um com seu instrumento, nos quatro cantos de um estúdio caseiro de gravação, cantando juntos, livres e desimpedidos. Depois de cinco anos sem lançar nada, eles demoraram apenas nove meses para forjar "Nunca Tem Fim". Talvez um pouco mais de tempo tivesse ajudado a amadurecer um pouco mais a obra. Talvez um pouco mais de sujeira ajudasse a tornar a mensagem mais limpa. Mereceria.
Line-up:
Marcelo Falcão - Vocal
Alexandre Menezes (Xandão) - Guitarra
Lauro Farias - Baixo
Marcelo Lobato - Teclados
Tracklist:
O Horizonte é Logo Ali
Auto-Reverse
Boa Noite Xangô
Cruz de Tecido
Fronteira (D.U.C.A)
Anjos (Pra Quem Tem Fé)
Doutor, Sim Senhor!
Sequência Terminal
Vida Rasteja
Um Dia Lindo (Participação Especial Edi Rock)
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



As 11 melhores bandas de rock progressivo dos EUA, segundo a Loudwire
Como Paulo Ricardo faz para evitar que suas músicas soem muito metal ou hard rock
A música do Queen que Freddie Mercury considerava melhor que "Bohemian Rhapsody"
O guitarrista mais rápido que Slash viu tocar; "literalmente explodiu minha cabeça"
O projeto que é os "quatro tenores do rock", segundo Eric Martin
Rush toca "A Farewell to Kings" pela primeira vez desde 1979
As 25 melhores bandas de todos os tempos, segundo a Classic Rock
O cantor que viu o Metallica ao vivo e achou que a banda não iria a lugar nenhum
O melhor álbum dos Rolling Stones de todos os tempos, segundo Keith Richards
Edu Falaschi lamenta vazamento: "Qualidade horrível, o cara captou do jeito que pôde"
Max Cavalera explica o que fez o Sepultura mudar o som em "Chaos A.D."
Os 25 melhores discos de gothic metal de todos tempos, segundo a Louder
Como Mark Knopfler adaptou um defeito para escapar de tocar guitarra "do jeito errado"
O melhor disco do Bad Religion, de acordo com o Louder
Hellripper anuncia 4 shows no Brasil em turnê inédita para 2027


7 clássicos do rock nacional dos anos 1990 que estão na memória afetiva do brasileiro
Baixista do Rappa conta bastidor intenso sobre Marcelo Yuka: "Era para eu estar no carro"
Em 1977 o Pink Floyd convenceu-se de que poderia voltar a ousar


