Carach Angren - O preço de brincar com a morte em "Franckensteina Strataemontanus"
Resenha - Franckensteina Strataemontanus - Carach Angren
Por Michel Sales
Postado em 30 de setembro de 2026
Nota: 8 ![]()
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O sexto petardo do Carach Angren, Franckensteina Strataemontanus (2020), é um álbum que reconta Frankenstein, de Mary Shelley, mas partindo do "Frankenstein real", o alemão Johann Konrad Dippel, transformando sua história numa narrativa de horror, alquimia, necromancia, ciência proibida e pacto demoníaco.

O ponto de partida é Johann Konrad Dippel (1673–1734), que foi um teólogo, médico, alquimista e estudioso alemão associado ao Castelo Frankenstein, perto de Darmstadt. Existe uma teoria - não comprovada historicamente - de que Dippel teria sido uma das inspirações para Victor Frankenstein. A própria banda pesquisou essa possibilidade e a incorporou à sua narrativa.
Antes de pesquisar Dippel, Ardek teve um pesadelo no qual aparecia um homem velho, de aparência sinistra, dentro de uma espécie de casa/castelo antigo. Depois, ao encontrar uma imagem de Dippel durante sua pesquisa, percebeu que o rosto era muito semelhante ao homem que havia visto no sonho.
Assim, a narrativa do Carach Angren imagina Dippel como um homem obcecado pela possibilidade de vencer a morte e criar ou restaurar a vida. A ciência, a alquimia e o conhecimento não são suficientes. Então ele atravessa uma fronteira cada vez mais perigosa: ciência, alquimia, ocultismo, necromancia, pacto demoníaco.
Em entrevista, Seregor explicou que, na versão criada pela banda, Dippel abandona sua fé e, depois de não conseguir alcançar seus objetivos por meio da ciência e de Deus, recorre ao Diabo em busca da imortalidade. Ou seja, o verdadeiro "monstro" não é simplesmente uma criatura ressuscitada. É o homem que acredita que pode ultrapassar todos os limites da natureza.
Segundo o próprio Carach Angren, "Franckensteina Strataemontanus" era uma designação utilizada por Dippel em seus trabalhos universitários. A banda brinca justamente com a ideia de que esse nome estaria na origem da palavra Frankenstein. Por isso o álbum funciona quase como uma espécie de "Frankenstein antes de Frankenstein". A banda pega a figura histórica que teria alimentado a lenda e constrói sua própria versão da história.
O grupo não quis fazer uma biografia histórica de Dippel. Eles mesmos explicaram que precisaram misturar fatos, lendas e ficção para construir uma narrativa que tivesse a cara do Carach Angren. Além de Dippel, aparecem elementos de outras histórias e figuras do imaginário alemão, como o Vampiro de Nuremberg. Isso é importante porque explica a atmosfera do disco.
Existe uma camada interessante no conceito: quem é o monstro? O próprio Seregor disse que eles enxergavam o álbum como um "monstro" criado pela própria banda. Isso cria um jogo de espelhos: Dippel cria/quer criar um monstro. O Carach Angren cria um álbum-monstro sobre Dippel. E, no fundo, ambos estão falando sobre criação, morte e a tentativa humana de ultrapassar seus próprios limites.
O conceito também influenciou diretamente a sonoridade. A banda incorporou elementos mais industriais, mecânicos e eletrônicos, além da habitual orquestração, justamente para representar esse encontro entre ciência, máquinas, alquimia e horror. Por isso Franckensteina Strataemontanus soa, em vários momentos, como uma espécie de laboratório amaldiçoado em funcionamento: teclados, orquestrações, ruídos mecânicos, atmosferas cinematográficas e o black metal teatral do grupo. A própria faixa-título resume perfeitamente a transformação: galvanismo, alquimia, ciência, feitiçaria, carne, ossos, necromancia e Mephistopheles aparecem misturados na narrativa.
No mais, Franckensteina Strataemontanus é a história de um homem que quer vencer a morte através do conhecimento. Quando ciência, religião e razão não o conseguem entregar aquilo que deseja, ele mergulha no ocultismo e na necromancia, chegando ao pacto demoníaco. O "Frankenstein" do Carach Angren é sobre a obsessão humana de se tornar semelhante a Deus - e o preço de tentar fazê-lo.
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