Resenha - Omni - Angra

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Por Marcio Machado
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Nota: 10

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

O Angra passou por maus bocados em determinado período de sua carreira. Houve o lançamento morno de um disco em 2010, alguns embates dentro da formação respectiva e pra decretar o que poderia ser de fato o fim da banda, um show embaraçoso no Rock in Rio. Nesse momento realmente a banda passou a se questionar se ainda deveria se manter em atividades, mas com a perseverança de Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt, as coisas começaram a ter um respiro e assim recrutaram Fabio Lione para o posto de vocalista, que até então seria contratado temporário por ali e saíram em alguns shows pelos Brasil. Vendo que dali podia sair algo, um novo álbum surgiu, chegava em 2014 "Secret Garden", que era um recomeço para a banda, um novo respiro, agora além do vocalista, tínhamos também um novato na bateria, era a chegada de Bruno Valverde ao banco que havia sido (de novo) de Ricardo Confessori até então.

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A formação se consolidou até certo ponto, quando Kiko Loureiro recebeu um convite impossível de se recusar, do próprio Dave Mustaine para integrar o Megadeth. Com isso Rafael via novamente o então último parceiro da formação original ir embora, mas não se abalando com isso, recrutou Marcelo Barbosa (ex-Almah e Khallice) para o posto e daí tivemos o que de novo afirmou o Angra como a grande banda que é, tivemos em 2018 o nascimento de "Ømni", uma das obras mais completas da banda e que aliado a técnica imbatível que foi acumulada nesses anos de estrada, nos traz um pouco daquilo que tinha de melhor em tempos áureos, a sua identidade brasileira que antes havia sido deixada um pouco de lado em troca de uma sonoridade mais comum do gênero.

Abrindo o trabalho, está "Light of Transcendence" que é um belo power metal executado nos seus mais ricos detalhes e de forma mágica. É rápida, cheia de força e agora mostra um Lione mais a vontade em frente a banda, mostrando o que sabe fazer e que sua escolha foi bastante certeira ali sendo um substituto que já deveria ter aparecido em outro momento (inclusive já sendo sondado por Bittencourt na primeira mudança de formação da banda). O prodígio Valverde empenha seu papel muito bem nas baquetas, criando trabalhos muito bem marcados em pratos e conduções e sem cansar as pernas nos bumbos duplos que permeiam a música em todos os momentos. Há um grande refrão na melhor forma do estilo e que contagia à todos os ouvintes. É um belo começo que desde "Nothing to Say" não me empolgava dessa forma.

Já seguindo pra um ritmo mais "abrasileirado", "Travelers of Time" começa cheia de quebradas, algumas percussões em seu caminho e logo cai em um heavy tradicional e outro refrão muito bem conduzido. Aqui o baixo de Felipe Andreolli aparece com bastante presença, e sua segunda metade é bastante agressiva cheia de riffs com fúria e velocidade, aliada aos toque de corais clássicos que sempre estiveram presentes nas obras do Angra. Destaque para a ponte cantada por Rafael, que vem desempenhando essa função há algum tempo já e o faz muito bem. E claro que há de se falar da potência vocal de Fabio que abusa de agudos que soam tão naturais quanto respirar.

A faixa seguinte trouxe uma leve polêmica antes de seu lançamento, pois a convidada da vez para um participação era ninguém menos que a cantora Sandy, da dupla Sandy & Junior. Muitos torceram a cara para o convite antes mesmo de saber do que se tratava, porém, há de se falar que a moça é dona de uma belíssima voz independente de qualquer coisa e sua passagem aqui não é menos que um belo resultado. A cantora entoa os primeiros versos de "Black Window's Web", que nos remete à algo do Cradle of Filth em seu primeiro momento, mas logo um ritmo quebrado surge aliada à voz de Lione que abre as portas para a segunda convidada, Alissa White-Gluz do Arch Enemy é quem surge com sua potente voz gutural e torna ainda maior a faixa. O ritmo aqui é mesclado com muito peso, velocidade e esbanja melodia com as trocas dos vocais cada um na sua linha, flertando entre heavy, o gótico, algo do doom e uma pitada do sinfônico. É um grande destaque do disco e difere bastante do que o Angra já fez por aí e mostra que ainda tem cartas na manga para surpreender os fãs. Vale ainda ressaltar aqui o grande destaque da bateria de Bruno e o belo solo da canção.

"Insania" é daquelas músicas cheia de efeitos que o Angra sempre cria. Já começa dramática, e cai num momento mais calmo para um ponte mais agitada e um grande refrão que é entoado à plenos pulmões por Fabio. E destaque para a levada do baixo de Andreoli que pulsa notas a todo momento. Destaque para seu solo todo quebrado trazendo a veia prog que acompanha a banda há bons anos já. Faixa que pega bem fácil e de fato é maravilhosa, seu final é apoteótico.

Ah as baladas do Angra!Claro que elas não podiam ficar de fora, e a primeira que dá as caras neste trabalho é "The Bottom of My Soul" que em seus primeiros momentos nos faz recordar de "Make Believe" e que coisa maravilhosa isso. Quem dá voz a canção é Bittencourt e nesses momentos o cara brilha, pois sua voz tem o timbre necessário para entoar essas canções. Que refrão maravilhoso é esse, e a ponte é carregada e cheia de sentimentos, vontade de cantar junto a todo momento. Faixa divina e muito rica em todos os sentidos.

Claro que Kikinho daria as caras não é?! E ele chega com os dois pés na porta e destrói tudo com "War Horns" que parece uma debandada de cavalos à milhão. A faixa tem cara de Megadeth e mostra o Angra flertando de novo com outros estilos e criando um belo momento. O solo é magnifico e o menino Valverde brilha novamente, suas quebradas nos tiram de órbita e quanto peso aparece nessa parte. O bate cabeça aqui é certeiro.

"Caveman" é intricada em seu começo e traz algo mais tribal como o nome sugere, com vozes entoando um canto de selva bastante estranho mas que casa perfeito com a proposta ali e a banda se aproximando com o seu lado mais brasileiro de novo. Apesar de uma primeira metade repetitiva, em sua segunda metade ela se mostra uma faixa bem construída e cheia de detalhes e com andamento muito bem executado cheio de dinâmica. Tem um bom refrão, faz papel do momento experimental do disco.

Mesclando melodia e peso, "Magic Mirror" é uma semi balada agora entoada por Lione que mostra controle total de sua voz em passagens mais brandas e outras realmente agressivas como no refrão. Que bela ponte quebrada temos ali, a melodia é espetacular e enche os ouvidos do apreciador até explodir no ponto chave. A passagem de piano é muito bem encaixada para abrir porta para o momento prog novamente e nos lembrando algo do Symphony X. Muito bom o resultado final.

"Always More" é outra balada mas diferente da outra deste trabalho, não alcança de fato os seus resultados esperados. Longe de ser ruim, é muito bonita em seus momentos e tem um bom refrão, porém acaba por ficar no meio do caminho e meio apagada. É o momento mais fraco do disco todo.

Próximo a seu final, "Silence Inside" é uma síntese de tudo que o Angra é, ali há a música brasileira, o heavy metal, o prog e toda a melodia característica que a bada tem em seu currículo aparecem em sua melhor forma. O melhor está pro final, pois é uma longa faixa de quase 9 minutos que passeia por vários momentos sem nunca deixar o ânimo cair e cheio de muita qualidade. Quem canta os primeiros versos é Rafael e o faz muito bem, a voz do rapaz se encaixa perfeitamente nos versos e explode num refrão pesado e cheio de harmonia que Fabio entoa e o faz com graça. É impossível ouvir só um momento da música e a cada ouvida se nota um detalhe que a torna ainda melhor e maior. Ali todos os músicos esbanjam seu melhor e tudo se junta de forma maravilhosa num gran finale magnífico.

Encerrando o disco, há o momento instrumental com "Infinite Nothing" que parece ter saído direta de um final de jogo de RPG da Square.

Em seu resumo, o trabalho é o que Angra precisava há muitos e muitos anos desde suas truculentas trocas de formação e momentos de incerteza. Este álbum coloca a banda de volta aos holofotes seja com a crítica ou seu público e de forma correta e merecida dessa vez, e nos mostra que o nome é maior do que um ou outro integrante e que ele ressurgirá quantas vezes for necessário, se renovando e surpreendendo, saindo da zona de conforto de um gênero e nos brindando com obras únicas e de extrema qualidade como "Holy Land" em outro momento e agora Ømni, que nos mostra o porque de ser uma das, se não a maior banda do Metal Nacional. Ansioso com o que pode vir pela frente.


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Sobre Marcio Machado

Estudante de história, apaixonado por cinema e o bom rock, fã de Korn, Dream Theater e Alice in Chains. Metido a escritor e crítico.

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