Kamelot: Um disco que impressiona até hoje

Resenha - Black Halo - Kamelot

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Por Ricardo Pagliaro Thomaz
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Nota: 10

Houve um tempo que as bandas de power metal estavam bombando no meio underground, e era comum vermos nomes emergentes em trabalhos bons, outros não tão bons assim. Entre as bandas emergentes, o Kamelot estava vivendo o seu melhor momento em 2005. Isso é o que a banda transparecia, dado o imenso marketing que se viu por exemplo, no site Whiplash.net naqueles dias, de seu aclamadíssimo sétimo disco de estúdio, The Black Halo. Estava em praticamente todos os lugares! O povo fã do bom Heavy Metal só falava deste disco! Era a primeira vez que eu ouvia falar da banda. Antes tarde do que nunca! A questão é que todas as vezes que eu acessava o Whiplash.net, eu era tragado por aquela ilustração maravilhosa da mulher com a metade da face para fora da água, e ao seu redor, o que parecia ser uma coroa de espinhos.

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O espanto veio depois, quando eu escutei as maravilhas musicais que se escondiam no disco! Eu pensava o tempo todo "meu, por mais saturado que possa estar o mercado de Heavy Metal, este disco aqui deve ser realmente muito bom para as pessoas ficarem falando dele o tempo todo."

Na época era muito comum o compartilhamento de mp3 pela internet, e em programas como o Kazaa, eMule, etc, então a gente... he he he... trocava arquivos pela net! Foi assim que eu conheci o som da banda, que simplesmente me encantou do começo ao fim. Mais tarde, eu viria a adquirir o disco pelo site da Hellion Records, e tenho o CD deles aqui até hoje, sempre escuto quando tenho vontade. Ainda existe esse site, e aqui vai minha dica para todos que curtem bons discos de Metal como eu, lá na Hellion às vezes tem coisas que você jamais vai achar em lojas convencionais. Se você for um colecionador como eu, vai achar a dica útil, senão, o Spotify deve suprir a necessidade de muita gente hoje em dia. Eu não consigo me segurar, sou o velho romântico, tenho que apalpar o disco com os dedos, segurá-lo, cheirá-lo, senti-lo; música digital pra mim ajuda a conhecer e tal, mas é como ar, se dissipa e desaparece fácil. Mas isso é uma história que fica para depois.

Enfim, The Black Halo viria a me encantar musicalmente, e depois de algum tempo, me encantaria tematicamente. Qual não foi minha surpresa em descobrir que o disco é uma reinterpretação da história de Fausto? Eu gosto muito desta lenda alemã, porque ela demonstra o caráter corrosivo e facilmente corrupto do homem que se deixa encantar com tanto poder, mas ao mesmo tempo demonstra que o homem que possui caráter desde sua criação acabará fazendo a escolha certa, mesmo diante de tantos erros cometidos.

Eu geralmente acompanhava a letra das músicas quando ouvi a coisa pela primeira vez sem me dar conta desses sinais, e mais a frente eu comecei a fazer as associações: você tem o personagem Ariel na história, que representa o Fausto (Ariel na peça é um anjo), você tem Mephisto, que é o Mephistopheles da lenda alemã, ou seja, o anjo caído que se rebelou contra Deus, e veio para quebrar o espírito humano, e você tem também as duas mulheres de Ariel, a Helena, que é baseada na Gretchen de Goethe, e Marguerite, que não é diretamente baseada em alguma personagem do conto de Goethe, mas sim na citação de Helena de Tróia da estória.

A narrativa trata da segunda parte da peça do Fausto.

Onde está o começo da história? Está no disco anterior, Epica. Curioso que o Kamelot decidiu fazer como Goethe, que dividiu sua obra em duas partes.

Quem já leu a peça, sabe que neste ponto da história, Gretchen foi morta, então aparece o anjo infernal para tentar Fausto mais uma vez. A insatisfação de Fausto cedeu lugar à dúvida. Questionamentos envolvendo beleza e poder também tomam parte, enquanto cresce a influência do jovem Fausto perante o Rei.

Aqui em The Black Halo, a ideia é parecida em relação ao personagem Ariel, mas bem resumida. Claro, não espere exatidão na narrativa, até mesmo o prodigioso filme de F.W. Murnau, de 1926, não se ocupou de tantos detalhes do Fausto do Goethe, e resumiu bastante a narrativa, se focando mais nas ideias principais.

Eis um parágrafo com um pequeno overview da história:
Pegando do ponto em que Helena morre no final de Epica (segundo minha pesquisa, porque no momento em que falo deste disco, eu ainda não escutei o Epica), Ariel, se lamentando pela morte da garota, confronta Mephisto que conversa com ele, lhe apresentando a moça Marguerite, e ela se envolve amorosamente com Ariel. Mas o moço ainda tenta entender por qual razão coisas ruins aconteceram se suas intenções foram boas, e conclui que esta resposta não está aqui na Terra, então ele começa a pedir perdão a Deus, mas não consegue ir para o céu por causa de seus pecados. Atordoado, com medo de nunca mais se encontrar com Helena, e com raiva, ele confronta Mephisto, se desassociando de sua presença, e resolvendo viver uma vida fazendo o bem. Ele então se dá conta de que o amor era a única possível resposta às suas indagações, e começa a sentir prazer e satisfação com sua condição de poder, dada a ele por Mephisto, fato que faz com que Mephisto queira clamar a alma de Ariel. Helena, lá do céu, intercede por ele, e não deixa o anjo caído tirar proveito da alma alheia, e como Ariel rejeitou todos os seus pecados, Deus julga que ele se redimiu, trazendo-o junto de Helena no céu, e jogando Mephisto eternamente no inferno. Nas duas últimas faixas, nos é revelado que toda essa história era na verdade uma peça em celebração ao Ano Novo. A nível pessoal, penso que não deixa de ser simbólico, uma vez que Ano Novo significa recomeço, vida nova.

A história requer que a gente sente e reflita bastante sobre a poética da letra, é bem complicado de compreender certas passagens se isso não for feito. O Dream Theater é uma banda cujas narrativas em discos conceituais são bem mais fáceis de assimilar, muito em decorrência do caráter mais prosaico delas, a exemplo de obras como Metropolis Pt. 2: Scenes From a Memory e o recente The Astonishing. Já o Kamelot é mais poético, cabendo a você ouvinte extrair a narrativa dos versos, ou então procurar por referências por aí. Mas eu posso dizer que eu gostei muito de fazer isso, e achei esta uma renderização digna da clássica história de Fausto, ou pelo menos desta segunda parte da narrativa.

Em algumas versões, há uma faixa interessante, comumente chamada de "The Second Act", também conhecida como "track 0". Ela ocorre antes de começar "March of Mephisto", e simplesmente mostra as pessoas se preparando para assistirem o segundo ato da peça e os violinos afinando, como se estivéssemos em um grande teatro. O meu CD que é a versão Limited Edition não tem esse easter egg, mas achei a ideia bacana e quem quiser arriscar, pode encontrar lá esse extra.

Vamos falar dos destaques. O disco abre com a rompante "March of Mephisto", forte e marchante, um dos melhores temas do disco, e que conta com a participação de Shagrath, vocalista dos noruegueses do Dimmu Borgir. Segue com a acelerada "When the Lights are Down", uma das rápidas mais legais do grupo. "Soul Society" com seu ritmo e arranjos dinâmicos também se tornou uma de minhas favoritas.

"Abandoned" é uma balada simplesmente linda, cheia de sentimento e drama. É um momento em que Ariel se dá conta de sua própria fraqueza e sente-se abandonado e perdido, então ela tem aquele toque agridoce de tristeza misturado com a beleza melódica. "The Black Halo" também se destaca entre os temas pesados e com viés progressivo, gostei muito dela, e o coral de fundo realmente fez a coisa ficar épica! A próxima rápida, "Nothing Ever Dies", também é um bom destaque, e a cozinha da banda está muito bem sintonizada. Por fim, eu destaco aqui a excelente longa "Memento Mori", que tem diversas viradas progressivas, momentos de tirar o fôlego, enfim, é um excelente clímax para um excelente disco. E se você estiver com a versão japonesa do disco, ainda curte uma belíssima balada chamada "Epilogue", para fechar o disco de forma mais intimista.

Eu tenho que confessar que muito embora o disco tenha me impressionado em 2005, ele me impressionou muito mais após um tempo, quando o escutei novamente, e hoje ainda não parou de me impressionar. Eu gosto imensamente dele, acho que é um dos discos do gênero Metal Progressivo Melódico mais importantes de todos os tempos, e recomendo altamente que você ouça. Ainda vou checar o restante da discografia do Kamelot, isso incluso a primeira parte deste Fausto, o disco Epica, mas não me surpreenderia se alguém chegasse e me dissesse que esta pode ter sido a obra mais importante da banda. Ela de fato soa como se fosse mesmo. Independente disso, eu a recomendo com toda força, e espero que você se divirta e se encante tanto quando eu me encantei.

The Black Halo (2005)
(Kamelot)

Tracklist:
00. The Second Act (em algumas versões)
01. March of Mephisto (feat. Shagrath)
02. When the Lights Are Down
03. The Haunting (Somewhere in Time) (feat. Simone Simons)
04. Soul Society
05. Interlude I: Dei Gratia
06. Abandoned (feat. Mari Youngblood)
07. This Pain
08. Moonlight
09. Interlude II: Un Assassinio Molto Silenzioso
10. The Black Halo
11. Nothing Ever Dies
12. Memento Mori (feat. Shagrath & Mari Youngblood)
13. Interlude III: Midnight - Twelve Tolls for a New Day
14. Serenade
Limited Edition bonus tracks:
15. The Haunting (Somewhere in Time) (feat. Simone Simons - radio edit)
16. March of Mephisto (feat. Shagrath - radio edit)
Japanese bonus tracks:
15. Epilogue
16. Soul Society (radio edit)

Selos: SPV/Steamhammer

Banda:
Roy Khan: voz
Thomas Youngblood: guitarra
Glenn Barry: baixo
Casey Grillo: bateria

Músicos convidados:
Miro: teclados
Sascha Paeth: guitarras adicionais
Jens Johansson: teclado solo nas faixas 1 e 2
Shagrath: vocal gutural nas faixas 1 e 12
Cinzia Rizzo: voz na faixa 9
Simone Simons: vocal na faixa 3
Mari Youngblood: vocal nas faixas 6 e 12
Annelise Youngblood: voz na faixa 4
Andre Neygenfind: d-bass na faixa 6
Wolfgang Dietrich: oboé na faixa 12
Rodenberg Symphony Orchestra
The Kamelot Choir

Discografia anterior:
- Epica (2003)
- Karma (2001)
- The Fourth Legacy (1999)
- Siége Perilous (1998)
- Dominion (1997)
- Eternity (1995)

Site oficial:
http://www.kamelot.com

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http://acienciadaopiniao.blogspot.com.br


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Sobre Ricardo Pagliaro Thomaz

Roqueiro e apreciador da boa música desde os 9 anos de idade, quando mamãe me dizia para "parar de miar que nem gato" quando tentava cantarolar "Sweet Child O'Mine" ou "Paradise City". Primeiro disco de rock que ganhei: RPM - Rádio Pirata ao Vivo, e por mais que isso possa soar galhofa hoje em dia, escolhi o disco justamente por causa da caveira da capa e sim, hoje me envergonho disso! Sou também grande apreciador do hardão dos anos 70 e de rock progressivo, com algumas incursões na música pop de qualidade. Também aprecio o bom metal, embora minhas raízes roqueiras sejam mais calcadas no blues. Considero Freddie Mercury o cantor supremo que habita o cosmos do universo e não acredito que há a mínima possibilidade de alguém superá-lo um dia, pelo menos até o dia em que o Planeta Terra derreter e virar uma massa cinzenta sem vida.

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