Marillion: Novo álbum tem um tantinho de controvérsia

Resenha - F.E.A.R. (Fuck Everyone And Run) - Marillion

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no WhatsAppSeguir Whiplash.Net

Por Ricardo Pagliaro Thomaz
Enviar correções  |  Ver Acessos

Nota: 8

E mais uma vez o Marillion chega com um novo álbum, através de sua ideia do crowdfunding, ideia que faz com que a banda receba dinheiro dos próprios fãs e o use para gravar o disco. Uma ideia que havia começado lá atrás, quando o Marillion estava procurando uma forma de se libertar da frustração de estarem atrelados a gravadoras e terem suas obras mexidas por alguma razão. Enfim, o novo álbum mantém a veia hogarthiana do grupo e segue, dessa vez com um tantinho de controvérsia, que já começa no próprio título da obra.

Woodstock: som ruim, gente demais e cheiro de fezes e urinaHard Rock: as 25 melhores músicas acústicas do gênero

Anunciar bandas e shows de Rock e Heavy Metal

O nome do 18º álbum da banda é F.E.A.R., lançado agora em 23 de Setembro. A princípio, o nome do disco parece uma inofensiva alusão ao medo (em inglês, "fear") que a Inglaterra está vivendo agora. A sigla que o grupo inventou, no entanto, sugere algo mais profundo: "fuck everyone and run". A expressão em inglês, que significa "foda-se todo mundo e corra", acaba ampliando esse medo.

Sim, você não leu errado! O Marillion acaba de tacar uma "bomba F" no título de seu disco, sem contar que em uma das peças do disco, Hogarth repete a palavrinha várias vezes no refrão. Isso não é nada novo, o próprio Spock's Beard, em seu disco de estreia, The Light, tem um trecho do épico "The Water", chamado "FU / I'm Sorry", o FU do título sendo exatamente a expressão que manda alguém para aquele lugar. Mas até hoje eu nunca vi uma banda de progressivo deixar a bomba F tão explícita, sendo inclusive o próprio título do disco. É até engraçado ver uma entrevista com Hogarth dizendo que ele não diz a palavra no disco com raiva ou coisa parecida, mas sim com uma certa doçura.

Enfim, já vamos entender essa história. Hogarth diz que na Inglaterra, está rolando um clima de medo e tensão do que vai acontecer no futuro, e isso não tem só a ver com o Brexit, mas também com a frieza e descaso com a qual as pessoas, segundo Hogarth, estão se tratando por lá. Ele diz que nas terras britânicas, se instalou uma cultura do cada um por si. Ele ainda diz que esse medo não reflete qualquer tipo de premonição ou coisa parecida, e espera que, em um futuro próximo, ele seja apenas isso mesmo, um medo.

E nas letras do disco esse medo é impresso de forma bem clara. No épico "El Dorado", por exemplo, composto das faixas 1 a 5, a letra fica o tempo todo alertando para os perigos do ouro que tomou vidas, numa clara intenção de culpar a febre do dinheiro pelas mazelas que o país enfrenta, ou mesmo qualquer outro lugar do mundo. Eu não moro na Inglaterra, mas creio que o medo de Hogarth em relação ao enriquecimento não tem a ver com o enriquecer sadio, ou ter uma situação financeira estável em seu país, mas com o fator corruptor da alma do homem. Ou pelo menos quero acreditar nisso. De qualquer forma é uma preocupação legítima de Hogarth, e eu respeito. As melodias que o grupo sempre escreveu desde quando Hogarth passou a integrar a banda estão todas aqui, em toda sua melancolia e beleza sonoras. Se você é fã do Marillion a partir do álbum Seasons End, então vai adorar este novo trabalho também.

A sexta faixa, "Living In FEAR" também continua essa mesma conversa, dessa vez tocando no assunto das armas. Nada de muito novo, então já que o Marillion já acabou de abordar o seu conteúdo mais político, vamos para ares diferentes, destacar o segundo épico do disco, o ótimo "The Leavers", composto das faixas 7 a 11.

Deste épico, eu destaco especialmente a primeira parte, que é a faixa 7 do disco, "Wake Up In Music", uma das faixas mais vibrantes que o Marillion fez recentemente; eu não resisti em voltar ela diversas e diversas vezes, até memorizar cada trecho dela, seja em casa ou no meu carro. O restante do épico é aquela tradicional viagem marilliana, e a letra desta vez é bem simples de sentido. Há dois tipos de pessoas no mundo, os que vão ("leavers") e os que ficam ("remainers"). Sendo a própria banda os leavers da letra, eles narram a vida movimentada do grupo, andando de cidade em cidade, fazendo shows e conhecendo novas pessoas e lugares, ou seja, aquela vida na estrada, de quem nunca se adequa à rotina das outras pessoas. Nada de muito profundo, mas até aqui, este épico, musicalmente, marca o melhor momento deste novo álbum.

A 12ª faixa, "White Paper" é uma canção simples de amor, melacólica e doce. Seguimos então para o próximo grande épico, "The New Kings", composto das faixas 13 a 16.

Sem ser muito político em sua letra, o Marillion trata de mais um medo, que tem suas raízes quando percebemos que demos muito poder a alguém, e este acaba se tornando um "novo rei", que explora pessoas, nações e sugam nao só suas riquezas, mas também o orgulho que as pessoas tem de pertencer a uma dada realidade. Aqui eu destaco a parte dois deste épico, a ótima "Russia's Locked Doors", que tem um arranjo atmosférico bem bacana e forte de execução.

Por fim, a curtíssima "Tomorrow's New Country", que retoma "The Leavers" e faz um encerramento bem discreto.

Em termos de musicalidade, o Marillion sempre faz um excelente trabalho, com grandes arranjos, trechos bastante climáticos em seus épicos, aquela quietude perturbadora e melancólica que sempre tem em seu som desde que Hogarth entrou no grupo, e um trabalho de produção sempre muito bom. Para mim, não se trata de um novo disco clássico do grupo, nem de uma obra de cair o queixo, pois o Marillion claramente decidiu, mais uma vez, ficar em sua zona sonora de conforto. Mas é um ótimo e recomendado disco para qualquer pessoa, e lógico, especialmente para os fãs.

F.E.A.R. (Fuck Everyone And Run) (2012)
(Marillion)

Tracklist:
El Dorado
1. I. Long-Shadowed Sun
2. II. The Gold
3. III. Demolished Lives
4. IV. F.E.A.R.
5. V. The Grandchildren of Apes

6. Living in F.E.A.R.

The Leavers
7. I. Wake Up in Music
8. II. The Remainers
9. III. Vapour Trails in the Sky
10. IV. The Jumble of Days
11. V. One Tonight

12. White Paper

The New Kings
13. I. Fuck Everyone and Run
14. II. Russia's Locked Doors
15. III. A Scary Sky
16. IV. Why Is Nothing Ever True?

17. Tomorrow's New Country

Selo: earMUSIC

Marillion é:
Steve Hogart - voz, teclados
Steve Rothery - guitarra, back vocais
Pete Trewavas - baixo, violão, back vocais
Mark Kelly - teclados, back vocais
Ian Mosley - bateria, back vocais

Discografia anterior:
- Sounds That Can't Be Made (2012)
- Less Is More (2009)
- Happiness Is the Road (2008)
- Somewhere Else (2007)
- Popular Music (2005) - ao vivo
- Marbles on the Road (2004) - DVD
- Marbles (2004)
- Brave Live 2002 (2002) - ao vivo
- Anorak in the UK (2002) - ao vivo
- Anoraknophobia (2001)
- marillion.com (1999)
- Radiation (1998)
- This Strange Engine (1997)
- Made Again (1996) - ao vivo
- Afraid of Sunlight (1995)
- Brave (1994)
- Holidays in Eden (1991)
- Seasons End (1989)
- The Thieving Magpie (La Gazza Ladra) (1988) - ao vivo
- Clutching at Straws (1987)
- Misplaced Childhood (1985)
- Fugazi (1984)
- Script for a Jester's Tear (1983)

Site:
http://www.marillion.com

Para mais informações sobre música, filmes, HQs, livros, games e um monte de tralhas, acesse também meu blog:
http://acienciadaopiniao.blogspot.com.br




GosteiNão gostei

Compartilhar no FacebookCompartilhar no TwitterCompartilhar no WhatsAppSeguir Whiplash.Net


Todas as matérias da seção Resenhas de CDs e DVDsTodas as matérias sobre "Marillion"


Mike Portnoy: os dez melhores discos de rock progressivoMike Portnoy
Os dez melhores discos de rock progressivo

Brasil: Bandas que gravaram discos ao vivo em nosso paísBrasil
Bandas que gravaram discos ao vivo em nosso país


Woodstock: som ruim, gente demais e cheiro de fezes e urinaWoodstock
Som ruim, gente demais e cheiro de fezes e urina

Hard Rock: as 25 melhores músicas acústicas do gêneroHard Rock
As 25 melhores músicas acústicas do gênero


Sobre Ricardo Pagliaro Thomaz

Roqueiro e apreciador da boa música desde os 9 anos de idade, quando mamãe me dizia para "parar de miar que nem gato" quando tentava cantarolar "Sweet Child O'Mine" ou "Paradise City". Primeiro disco de rock que ganhei: RPM - Rádio Pirata ao Vivo, e por mais que isso possa soar galhofa hoje em dia, escolhi o disco justamente por causa da caveira da capa e sim, hoje me envergonho disso! Sou também grande apreciador do hardão dos anos 70 e de rock progressivo, com algumas incursões na música pop de qualidade. Também aprecio o bom metal, embora minhas raízes roqueiras sejam mais calcadas no blues. Considero Freddie Mercury o cantor supremo que habita o cosmos do universo e não acredito que há a mínima possibilidade de alguém superá-lo um dia, pelo menos até o dia em que o Planeta Terra derreter e virar uma massa cinzenta sem vida.

Mais matérias de Ricardo Pagliaro Thomaz no Whiplash.Net.

adGoo336