Alcest: os franceses renovam seu estilo
Resenha - Shelter - Alcest
Por Daniel Both
Fonte: Moshpot
Postado em 23 de fevereiro de 2014
Com Shelter, a banda ALCEST completou uma tarefa complexa com perfeição: deixar de lado parte de seu estilo sem perder a personalidade montada em sua discografia. É um álbum bem produzido, cuidadosamente composto e de uma sensibilidade comovente; mesmo para o fã que não costuma se desviar dos caminhos do metal, é uma experiência fantástica.
Em seu álbum anterior, Les voyages de l'âme (Prophecy Productions, 2012), a dupla francesa dava continuidade ao seu tom tão particular: uma mistura cuidadosa de post-metal, shoegaze e música ambiente com elementos de black metal clássicos - baterias frenéticas no espírito Immortal, riffs cadenciados, etc. Parece muita coisa, mas o resultado era um bonito. No entanto, ao fim de sua primeira turnê, anunciaram algo que deixou muitos fãs apreensivos: em seu próximo álbum deixariam grande parte da influência metálica de lado, favorecendo uma roupagem alternativa.
E quem diria, esta decisão foi um raio de Sol em meio a escuridão.
Uma das maiores sacadas da banda sempre foi a melancolia de suas faixas, desenhadas com linhas delicadas, porém sombreadas pelo metal extremo. Músicas soturnas evocando o anoitecer permeavam todo o álbum Écailles de Lune (Prophecy Productions, 2010), e mesmo Le Voyages de l'âme tendo como tema principal imagens quase místicas de um verão, o faziam com gravidade.
Shelter, no entanto, ao descartar a roupagem Black Metal, opta por uma estética diferente. Sombras dão lugar à luzes de uma memória antiga, onde rostos são ofuscados pelo Sol e sentimentos flutuam em tardes mornas, espectros prismáticos de um cristal. É como lembrar de um verão perdido, de tempos melhores, andando com calma pelo mundo: em alguns momentos, a alegria transborda; em outros, a melancolia de saber que estes momentos não voltarão abre um abismo silencioso na alma. Talvez por evocar emoções tão familiares é que possamos dizer que a banda obteve sucesso em sua empreitada - poucos discos tocam o coração de forma tão familiar.
Wings, faixa instrumental, calmamente abre as portas do disco; delas sai Opale, canção de uma alegria pálida, que deu origem a um clipe bem produzido, capaz de traduzir o espírito da obra de forma cálida, na falta de adjetivo melhor, 'confortável'. La Nuit Marche Avec Moi é uma canção de temas noturnos, mas de certa forma se refere antes ao anoitecer que se instala dentro de nós - "A noite caminha ao meu lado", diz o título, e evoca o silêncio das estrelas, assim como contrastes tristes da memória; com riffs simples, é talvez uma das faixas mais "alternativas" do álbum.
Voix Serenes é o calmo acordar para um céu azul; progride lentamente, sem deixar de lado a calma digna de um amanhecer cristalino, e transita tranquilamente para L'éveil des Muses, "Despertar das Musas", canção de ritmo marcado, que parece trazer um tom místico como pano-de-fundo - tom este que não é transferido a Shelter, faixa título do disco. Embora tenha uma construção mais "popular", sua base cadenciada e a presença do piano acompanhado por diversas linhas de guitarra variadas dá à música um acabamento belo e completo - não deixa furo acústicos, convém tranquilidade, é calmaria em um mar vasto.
Away é uma fuga - de tudo, de todos. Única canção em inglês do álbum (não contando sua faixa bônus), dá ênfase a vocais alternativos e base acústica. Um som interessante, mas que se perde em contraste com o fechamento magistral de Delivrance. Esta última não é simples canção: é um épico de dez minutos, carregado de todo tipo de emoções. Síntese perfeita do álbum, não deixa vazio canto algum da alma - busca sentimentos, lembranças, pessoas, e apresenta tudo como um filme antigo; as ranhuras da película, imperfeições de som, tudo faz parte da memória - e ressurgem de forma natural. É uma canção poderosa, por mais calma que se apresente, e convém o seu nome, "Libertação", antes de mais nada como catharse.
Into The Waves é a faixa bônus das versões LP e 'Complete Pack'; dá espaço a vocais femininos delicados porém instigantes - dá um tom diferente ao som da banda, sem quebrar o ritmo do release.
Talvez boa parte das descrições feitas aqui soem piegas e demasiadamente sentimentais; embora nem sempre admitam, headbangers tem coração - e se é virtude da música evocar emoções de forma tão competente, seria uma injustiça não creditar o quanto somos tocados por ela. Os caras da ALCEST acertaram em cheio, com uma obra brilhante, mostrando que os sons também iluminam - até mesmo aquilo que é imaterial e efêmero.
Nota: 9 de 10 entardeceres melancólicos.
Tracklist:
1. Wings - 01:32
2. Opale - 04:56
3. La nuit marche avec moi - 04:58
4. Voix sereines - 06:44
5. L'éveil des muses - 06:49
6. Shelter - 05:29
7. Away - 05:02
8. Délivrance - 10:06
Bônus: Into The Waves (LP, Complete Pack)
Veja mais em MOSHPIT
http://moshpit.in/content/1392924176/alcest-shelter -
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



Luis Mariutti se pronuncia sobre pedidos por participação em shows do Angra
Black Sabbath "atrapalhou" gravação de um dos maiores clássicos da história do rock
Jessica Falchi critica sexualização da mulher na guitarra: "Não me verão tocando de biquíni"
O álbum que melhor sintetiza a proposta sonora do AC/DC, segundo Angus Young
O melhor álbum da banda Death, segundo o Loudwire
A música tocante do Dream Theater inspirada por drama familiar vivido por James LaBrie
Fãs de Angra reagem ao anúncio de fim da pausa; "Foi um sabor hiato"
O guitarrista que supera Eric Clapton, segundo Eddie Van Halen: "Mais suave e refinado"
G1 coloca banda de rock entre piores do Lollapalooza 2026: "Engatou a segunda e ficou"
Aquiles Priester quebra silêncio e revela por que aceitou reunião com Angra
Paul Di'Anno diz que Iron Maiden ficou pretensioso demais na fase de "Killers"
Em documentário, Rodolfo Abrantes afirma que "o Raimundos era o Canisso"
A banda responsável por metade do que você escuta hoje e que a nova geração ignora
O guitarrista que é um "gênio da matemática", segundo Bob Dylan
Como a nova era dos festivais está sufocando os shows menores


Alcest - Discografia comentada
Iron Maiden: "The Book Of Souls" é uma obra sem precedentes


