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Alice Cooper: Se apresentando ao mundo num álbum clássico

Resenha - Love It To Death - Alice Cooper

Por Neimar Secco
Em 05/01/14

Eis um terceiro álbum que, na verdade, equivale à estreia de uma grande banda. Depois de dois álbuns com muitas colagens de ideias, desde capas bem sacadas a músicas (e uma autoimagem) que flertavam com ficção científica, ambiguidade sexual, entre tantos outros temas, a banda mais célebre do Arizona e dos Estados Unidos na transição da década de 1960 para a de 70, mostra a sua verdadeira cara. Caberia ao público opinar sobre o quão atrativa era essa nova cara do rock americano.

Alguns dizem que terceiros álbuns são determinantes para o futuro de uma banda ou cantor. Ou nas duas primeiras tentativas ainda se está "frio" e nem sempre se atinge o sucesso imediato, ou, por vezes, o terceiro álbum mostra uma estagnação ou declínio criativo em relação aos dois primeiros que já saíram "prontos" para o sucesso. Claro que essas possibilidades não são regras. No caso do Alice Cooper Group, podemos dizer que esse é o LP que, na verdade, apresenta de forma completa ao mundo o que a banda e Alice Cooper solo viriam a ser e a oferecer ao rock.

E para isso, eles contaram com a participação essencial do "sexto componente" da banda, o mago produtor Bob Ezrin.

O canadense Bob Ezrin era contratado da produtora Nimbus 9 e, quem diria, costumava produzir não bandas de rock, mas sim, jingles publicitários, por exemplo, para a Coca-Cola.

Ezrin: "Os Coopers foram meu primeiríssimo projeto. Eu era contratado da Nimbus 9 (uma produtora formada no Canadá) basicamente como consultor administrativo, não como produtor – eu fazia coisas como jingles para a Coca-Cola. Seja como for, um dia fui ao escritório e todos estavam histéricos. A capa de Easy Action estava colocada ali.

E nós éramos todos caras muito caretas, sabe – quer dizer, eu nunca tinha tido grande interesse em rock’n’roll. Eu tinha chegado (ao rock) mais ou menos por meio de coisas como Simon And Garfunkel. " (!!!) "De qualquer forma, colocamos o álbum para tocar e rimos muito. Não sabíamos se Alice Cooper era um cara ou uma garota e isso acabou se tornando uma piada pelo escritório de que se alguém bagunçasse naquela semana, seríamos forçados a trabalhar com Alice Cooper."

Resumindo esse foi o início de parceria entre Alice Cooper e Bob Ezrin, depois de muita insistência por parte de um assistente de Shep Gordon (primeiro e único empresário de carreira de Alice Cooper. Ezrin topou ir ver a banda tocar em Toronto. Depois de ver o show deles, foi ao hotel onde estavam hospedados e lhes disse: "acho que vocês podem fazer discos de sucesso". E eles disseram: "isso é bom, porque achamos que você também pode". "Foi um bom começo, embora eu ainda estivesse com medo porque achava que eram todos homossexuais", disse Ezrin.

O primeiro trabalho unindo as forças do Alice Cooper Group e Ezrin foi I’m Eighteen. A música já existia e era parte integrante do setlist deles, mas Ezrin a achou longa e com muita "encheção de linguiça" (a gravação original tinha oito minutos). Ezrin transformou a música de oito minutos em um hit de três minutos e se tornou o primeiro (e inesquecível) hit da banda, chegando à posição 21 nos Estados Unidos.

Love It To Death abre com uma música composta por Michael Bruce (um – se não "o" – grande hit maker da banda) um rock de garagem básico com excelente riff e letra entre rebelde e bem-humorada que contém versos do tipo:

You know I need a houseboat and I need a plane
I need a butler and a trip to Spain
I need everything
the world owes me
I tell that to myself
and I agree
I'm caught in a dream
So What!
You don't know what I'm goin' through
I'm right in between
So I'll I'll just play along with you


Sabe, preciso de uma casa flutuante e de um avião
Preciso de um mordomo e de uma viagem para a Espanha
Preciso de tudo
Que o mundo deve a mim
Digo isso a mim mesmo e concordo
Estou preso em um sonho
E daí!
Você não sabe pelo que estou passando
Estou bem no meio
Então irei
Irei apenas brincar junto com você

Dinheiro, conforto, bens materiais, eis alguns itens dos quais Alice Cooper e sua banda, seja através das letras, seja em entrevistas aqui e ali nunca fizeram questão de mostrar o quanto eram coisas bem-vindas a eles todos.

E se a banda não teria tanta longevidade quanto se desejaria e sugeria a terceira faixa do álbum, outro rock básico – "Long Way To Go" --, pelo menos tinham consciência do momento que estavam vivendo e fizeram grandes shows e um belo álbum recheado de bons momentos em 9 faixas memoráveis.


"Black Juju", a única composição escrita apenas pelo baixista Dennis Dunaway, registrada pelo grupo, é uma espécie de clássico "integral" da banda, já que envolve todas as suas características mais marcantes: a sonoridade soturna, a letra enigmática, beirando o terror (fazendo referências à magia negra e, com isso, criando mais polêmica sobre as ideias da banda. Seriam satanistas ou adeptos da magia negra, como viria a supor a imprensa brasileira três anos depois quando vieram para uma memorável turnê, quebrando barreiras, em terras sul-americanas?

O lado B do álbum abre com "Is It My Body", uma brincadeira com o fato de rock stars serem vistos como símbolos sexuais. Nas palavras de Alice: "Enquanto as outras bandas se preocupavam em ser vistas como objetos sexuais, nós queríamos desesperadamente ser rock stars e queríamos ser objetos sexuais. Essa era a música em que a cobra era usada nos shows"

"Hallowed By My Name" soa como uma ironia à não divulgada ou apregoada religiosidade de Alice, filho de pastor evangélico e, que talvez por isso, sempre se viu meio envolto por questões religiosas em suas músicas. "Second Coming" seria uma mostra mais explícita dos questionamentos religiosos de Alice. Diz a letra:

Second Coming (Segunda Vinda)

I couldn't tell if the bells are getting louder (Não sabia dizer se os sinos estavam soando mais alto)
The songs they ring I finally recognize (As músicas que eles ressoam, eu finalmente reconheço)
I only know Hell is getting hotter (Só sei que o inferno está ficando mais quente)
The Devil's getting smarter all the time (O Demônio ficando mais inteligente o tempo todo)
And it would be nice to walk upon the water (E seria bom andar sobre a água)
To talk again to angels on my side (Para conversar novamente com anjos ao meu lado)

No álbum ocorre uma bela passagem com o piano de Toronto Bob (Bob Ezrin) entre Second Coming e "Ballad Of Dwight Fry". (A voz de criança que se ouve na passagem entre ‘Second Coming’ e Ballad of Dwight Fry’, no álbum, é de uma garota chamada Monica Lauer, então com 20 e poucos anos e que era amiga da banda.

Dwight Frye no papel de Renfield em 'Dracula'
Dwight Frye no papel de Renfield em 'Dracula'

Se "Under My Wheels", "I’m Eighteen", "School’s Out" e "No More Mr. Nice Guy". "Elected" são hits poderosos da carreira de Alice Cooper, "Ballad Of Dwight Fry" é sua mais completa personificação tanto vocal como de palco. Dwight Frye (com esse "e" no final do nome, que não consta no nome da música-homenagem, foi uma pessoa real, um ator de filmes de terror da década de 1930, que, entre outros filmes, participou de ‘Frankenstein’ e da versão original de ‘Dracula’, na qual fez o papel de ‘Renfield’, o empregado do Conde, comedor de besouros, interpretado décadas depois por Tom Waits em ‘Drácula de Bram Stocker’. Dwight Frye morreu de ataque cardíaco enquanto embarcava em um ônibus.

Diz a letra desse clássico absoluto de Alice Cooper:
[Garotinha]
Mommy where's daddy? (Mamãe, cadê o papai?)
He's been gone for so long. (Ele está ausente há tanto tempo!)
Do you think he'll ever come home? (Você acha que algum dia ele volta pra casa?)
I was gone for fourteen days (Eu me ausentei por 14 dias)
I coulda been gone for more (Poderia ter ficado ausente mais tempo)
Held up in the intensive care ward ("Preso" emu ma UTI)
Lyin' on the floor (Deitado no chão)
I was gone for all those days (Fiquei ausente todos aqueles dias)
But I, was not all alone (Mas eu, não estava totalmente só)
I made friends with a lot of people (Fiz amizade com muita gente)
In the danger zone (Na zona do perigo)
See my lonely life unfold (Vejo minha vida solitária se desdobrar)
I see it every day (Vejo isso todos os dias)
See my lonely mind explode (Vejo minha mente solitária exploder)
Since I've gone away (Desde que eu parti)
I think I lost some weight there (Acho que perdi um pouco de peso lá)
And I, I'm sure I need some rest (E eu, eu tenho certeza que preciso de um pouco de descanso)
Sleepin don't come very easy (O sono não vem muito fácil)
In a straight white vest (Em uma camisa de força branca)
Should like to see that little children (Gostaria de ver aquela criancinha)
She's only four years old.. old (Ela só tem quatro anos, quatro)
I'd give her back all of her play things (Devolveria a ela todos seus brinquedos)
even, even the ones I stole (Até mesmo, até mesmo os que eu roubei)
See my lonely life unfold (Vejo minha vida solitária se desdobrar)
I see it every day (Vejo isso todos os dias)
See my lonely mind explode (Vejo minha mente solitária explodeir)
When I've gone insane (Quando enlouqueço)
I wanna get out of here (Quero sair daqui)
I wanna get out of here (Quero sair daqui)
I, I've gotta, I've gotta get out of here (Eu, eu tenho que, tenho que sair daqui)
I, I gotta get out of here (Eu, eu tenho que sair daqui)
I, I gotta get out of here (Eu, eu tenho que sair daqui)
IgottagetoutahereIgottagetoutahereIgottagetoutahere
Ya gotta let me out of here (Você tem qiue me tirar daqui)
Let me outta her (Deixem-me sair daqui)
etc
See my lonely life unfold
I see it every day
See my lonely mind explode
(vejo minha mente solitária explodir)
Blown up in my face (Estourada na minha cara)
I grabbed my hat and I got my coat (Peguei meu chapéu e peguei meu casaco)
and I, I ran into the street (E fui correndo para a rua)
I saw a man that was choking there (Vi um homem se asfixiando ali)
I guess he couldn't breathe (Acho que ele não conseguia respirar)
Said to myself this is very strange (Disse pra mim mesmo, isso é muito estranho)
I'm glad it wasn't me (Ainda bem que não era eu)
But now I hear those sirens callin' (Mas agora ouço aquelas sirens tocando)
and so I am not free (e então, não estou livre)
I didn`t wanna be (eu não queria estar)
I didn`t wanna be (eu não queria estar)
I didn`t wanna be (eu não queria estar)
See my lonely life unfold (vejo minha vida solitária se desdobrar)
(I didn`t wanna be) (não queria estar)
I see it every day (vejo isso todos os dias)
(Leave me alone) (me deixe sozinho)
I didn`t wanna be (eu não queria estar)
Don't touch me! (Não toque em mim!)
See my lonely mind explode (Vejo minha mente solitária exploder)
When I've gone Insane (quabdo enlouqueço)

Uma curiosidade a mais sobre essa música "símbolo" de Alice Cooper é que na gravação para o álbum, Bob Ezrin teve a ideia de cercar Alice com cadeiras por todos os lados para que ele tivesse essa sensação de confinamento passada pelo personagem ao cantar I WANNA GET OUT OF HERE...

O álbum da "verdadeira estreia" de Alice Cooper fecha com ‘Sun Arise’, originalmente gravada pro Rolf Harris, um artista australiano, que já apresentou programas de animais de estimação na tv.

NOTAS:

Lançamento: Fevereiro de 1971

Músicos
Alice Cooper - Vocais e Harmônica
Neal Smith - Bateria e Vocais
Dennis Dunaway - Baixo e Vocais
Glen Buxton – Guitarra Solo
Michael Bruce – Guitarra Base, Vocais, Piano e Órgão
Toronto Bob (Bob Ezrin) – Teclados em 'Caught In A Dream', 'Long Way To Go', 'Hallowed Be My Name', 'Second Coming' e 'Ballad Of Dwight Fry'
Monica Lauer – Voz de criança em: 'Dwight Fry'

--‘I’m eighteen, originalmente se chamava ‘I wish I was eighteen again’.

-- A capa original do álbum causou problemas à banda, já que Alice aparecia com seu polegar saindo de sua capa em uma ‘posição sugestiva’.

-- A capa alternativa com as faixas brancas na parte de cima e de baixo foi feita para impedir a censura e o recolhimento do álbum das lojas.

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Sobre Neimar Secco

Welcome to my nightmare. Sou professor de inglês e de português e também tradutor eventual. Rock sempre foi e continua sendo a minha trilha sonora de todas as horas. Minhas preferências são hard rock, progressivo e classic rock em geral (anos 60, 70 e 80). Bandas favoritas: Alice Cooper, Led Zeppelin, Black Sabbath, Ozzy Osbourne, Pink Floyd, Beatles, Creedence, The Doors, Dire Straits, entre muitas outras.

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