Motorhead: Sabe aquele disco que você precisa ter? É este!

Resenha - No Sleep 'Til Hammersmith - Motorhead

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Por Ronaldo Celoto
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Nota: 10

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.


Como definir a obra-prima de um artista? O escritor e poeta VICTOR HUGO, autor de inúmeros clássicos, entre os quais "Os Miseráveis" uma vez disse que "a obra-prima é uma variedade do milagre". Este mesmo VICTOR HUGO também um dia disse que "o futuro tem vários nomes. Para os fracos e covardes, chama-se impossível. Para os valentes, chama-se ideal". E ideal é pouco para definir a criatura concebida por LEMMY KILMISTER, EDDIE CLARKE e PHIL TAYLOR. Indispensável e único, talvez fossem as duas palavras para registrar um dos melhores discos "ao vivo" de toda história.
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Sabe aquelas bandas de rock que você ouve um pequeno acorde ou um sopro de voz de seu cantor e já sabe quem é? São raras, sim, mas existem. Por exemplo: a guitarra base de ANGUS YOUNG, a voz rara e magnificamente fanha de KLAUS MEINE, e, no caso do MOTORHEAD, temos as duas coisas: a sonoridade e o encaixe da voz de LEMMY. Uma única estrofe com estas duas características, e, já se pensa: Isto é MOTORHEAD! Agora, imaginem esta, que é uma das bandas mais fiéis e sinceras com o tipo de música que pretendem executar, e, que ano após ano sempre tocou da forma que quis e lançou discos de qualidade ímpar, sem preocupar-se com modas ou estilos, e, de repente, é capturada em um de seus shows e tem este evento transformado em disco?

E assim, o antológico "No Sleep ´Til Hammersmith" nasceu, dispensando quaisquer outras maiores apresentações. É uma avalanche sonora do início ao fim, cru, poderoso e sincero. Traz na abertura uma das melhores canções da banda, a fantástica "Ace of Spades", daquelas que você tem a sensação de querer ouvir dirigindo um veículo a 180 km/hora sobre a famosa estrada “Route 66”; ou dentro de um foguete em uma missão lunar, quando você é acometido por uma fobia de abandonar sua cápsula, e, como fonte de encorajamento, alguém a coloca para despertar em você a adrenalina máxima e necessária para aquele momento; entre tantas outras sensações e imaginações energéticas em cenários diferentes que ela nos proporciona. “Ace of Spades” é, por si só, um mundo à parte. É a canção que resume a sonoridade do MOTORHEAD e que brinda a banda para o início dos anos 80 de forma brilhante, tendo que concorrer com o glam de Los Angeles, o pop da MTV, o tecno e o new wave das rádios, e, sendo capaz de dizer a todos os estilos: nós fazemos rock! E quem deve preocupar-se conosco são vocês, e, não vice-versa!

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Ao ribombar dos quase três minutos da canção inicial, metade das pilhas alcalinas no cérebro de todos já parecia derreter, tamanha a força com que o MOTORHEAD impunha sua musicalidade. E, sem pedir licença ou intervalo, iniciam com a também épica “Stay Clean”, do grandioso álbum “Overkill” (um dos melhores da banda, ao lado de “Bomber”, “Ace Of Spades”, “Iron Fist”, “March Or Die”, “1916”, “Inferno”, e, o mais recente e surreal “Aftershock”, e, tantos outros que cada fã irá escolher de acordo com seu gosto pessoal), em cuja letra temos um LEMMY autobiográfico, ao dizer: “Can´t believe, can´t obey/Can´t agree with all the things I hear you say/Oh no, don´t ask me why/I can´t go on with all these filthy white lies/Stay clean, stay clean”.

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Heróis à parte, LEMMY é uma das mais carismáticas figuras da história. Não existe um fã de rock, punk ou metal que não o respeite e o idolatre, seja pela longevidade, pela fidelidade ao movimento musical ao qual pertence ou pela filosofia de vida (lembrando que sua paixão pela música o levou a ainda na década de 60 a seguir como roadie a banda de JIMMY HENDRIX, tendo depois participado do HAWKWIND, e, hoje, com quase 70 anos, ainda é regado a JACK DANIELS e cigarros diariamente, de forma ininterrupta, e, sempre quando é chamado a dizer algo sobre música e filosofia de vida, traz histórias divertidíssimas e ao mesmo tempo, grandes lições de lealdade, amor pela profissão e espírito andarilho), o fato é que ele comove e apaixona os fãs (e não poderia ser diferente, já que o rock possui em sua verve, esta filosofia de liberdade seguida à risca pelo líder do MOTORHEAD). Seu envolvimento com drogas pesadas talvez sirva de pano de fundo para esta canção, que mantém em uníssono a qualidade do álbum. E, estamos apenas na segunda música.

“Metropolis” chega com um início de guitarra onde CLARKE mostra um pouco da sua veia lírica (apesar de ser guitarrista do MOTORHEAD) em poucos segundos iniciais, até anunciar o petardo de letra simples, que, a meu ver, aborda a temática da ficção científica presente no filme de mesmo nome, mas de forma direta, ou seja, no estilo LEMMY de metaforizar algo em três ou quatro linhas. E a fúria continua com “The Hammer” e sua letra pungente, onde LEMMY grita: “Believe me, The Hammer´s gonna smash your dream”.

É preciso destacar, e, muito, a qualidade musical de EDDIE CLARKE e PHIL TAYLOR. É claro que, posteriormente, MIKKEY DEE assumiu as maquetas do MOTORHEAD e mostrou que era o mais talentoso de todos os que já pisaram por lá. E PHIL CAMPBELL é, indubitavelmente, um músico com a cara e a alma do MOTORHEAD. Mas CLARKE tinha um talento muito preciso para o que LEMMY se propunha a fazer, e, acabou se distanciando de sua própria imagem quando tentou recriar com o FASTWAY uma identidade sonora mais pessoal, mas que, mesmo elogiado por muitos e criticado por outros, não vingou em meio aos conturbados anos 80. E TAYLOR tinha a figura "maluca" da imagem do MOTORHEAD. Ele era uma espécie de versão humana do boneco "Animal", aquele baterista caricato dos famosos "THE MUPPET SHOW". Mas, menções à parte, hoje o MOTORHEAD está muito bem servido com os seus músicos atuais. Pessoalmente, deixando de lado o saudosismo, gosto muito desta formação atual.

Voltando ao disco... E ainda podemos ouvir os poucos fãs que conseguem ainda, aplaudir o final das canções (pois a maioria que ali esteve certamente ainda encontrava-se em transe, literalmente, pelo impacto sonoro que ouviam a cada instante), quando urge a colossal “Iron Horse” (presente no álbum de mesmo nome da banda), com letra do baterista PHIL TAYLOR e MICK BROWN, contando a saga do cavalo de aço, que muitos fãs menos esclarecidos, durante o início da década de 80, confundiram com o “Snaggletooth”, mascote mais do que presente na maioria das capas, camisas e decorações de palco nos shows da banda. Na verdade, a minha interpretação pessoal para “Iron Horse” é a paixão entre o homem e sua motocicleta, e, sua capacidade de ir além de todos os limites possíveis. A letra, como se pode perceber, é carregada de uma tonalidade metafórica, senão vejamos: “He rides a road, that don´t have no end/An open highway, without any bends/Tramp and his stallion, alone in a dream/Proud in his colours, as the chromium gleams/On Iron Horse he flies, on Iron Horse he gladly dies/ Iron Horse his wife, Iron Horse his life (...) One day one day, they´ll go for the sun/Together they´ll slide, on the eternal run”. Mas cada um terá a sua interpretação pessoal para tal.

E assim, após a épica apresentação de uma das dez canções de que mais gosto de toda a carreira da banda, surge a colossal “No Class”, que, literalmente, é um chute no coração de toda hipocrisia social, onde LEMMY faz questão de dizer, aos brados, com uma sonoridade ritmica típica de canções como “Don’t Believe a World” (THIN LIZZY) ou “Let It Roll” (UFO), mas com um peso muito particular, as seguintes boas-vindas a todos que não sãpo bem-vindos no mundo do rock: “Shut up, you talk too loud/You don´t fit in with the crowd/I can´t believe you exist/I´ve crossed you right off my list”. E aos poucos, o sarcasmo fica ainda pior, quando ele diz: “Your perfect smile, betrays your lack of style/No Class”.

Clássico! Clássico absoluto transformado em uma espécie de confissão musical, onde literalmente, o MOTORHEAD virava as costas para tudo e todos e dizia, entre aspas: “Este é o meu mundo! Eu não sou limpo! Eu toco rock! Eu bebo whisky! E você não combina com ele!”.

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E lá se vai metade do registro (sim, apenas metade), enquanto é anunciada a música “Overkill”, uma aula de peso e velocidade, testemunhada por uma avalanche complementar de baixo e guitarra - algo que viríamos, mais tarde, bandas como SLAYER (“Evil Has No Boundaries”) e METALLICA (“Motorbreath”) e seus sucessores tocar com a mesma velocidade. Sim, posso afirmar com toda certeza que o MOTORHEAD é uma das bandas que influenciou, e, muito, o legado do "Thrash Metal" ou do "Speed Metal", movimentos que surgiriam alguns anos mais tarde.

O fato é que "Overkill" é um caminhão de adrenalina, e, as primeiras palavras ditas na letra a resumem por si só: “O único modo de se sentir o barulho é quando ele está bom e alto”. Esta talvez, seja a frase que define também, a essência do MOTORHEAD, e, que os transforme, ainda hoje, numa das maiores e mais importantes bandas da história, justamente pela simplicidade e lealdade de seus músicos, e, de seus fãs.

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A seguir, em meio às entremeadas vozes uivantes do baterista PHIL TAYLOR, que vocifera sonoros gritos, chega a autobiográfica “We Are The Road Crew”, que simplesmente é a música que podia ter sido escrita para todas as bandas de rock do planeta, pois a letra conta exatamente o que todos os músicos de rock são: a chamada “turma da estrada”. LEMMY, não por acaso, canta: “Another town another place/Another girl, another face/(...) But I just love the life I lead/Another beer is what I need/Another gig my ears bleed/We Are The Road Crew”.

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Sim, LEMMY, EDDIE e PHIL amavam tudo aquilo. Era a máxima filosofia de todo artista que não se dedica a viver muito, e, sim, a viver além de todos os extremos possíveis: bebidas, lugares diferentes, fãs diferentes, tietes, cigarros, canções, palco e adrenalina. E nada mais.

“Capricorn” mantém a excelência da banda sobre o palco, e, mostra porque o disco “Overkill” ainda é um dos melhores trabalhos da banda, pois são dele a maioria das canções deste registro ao vivo. Mas a diferença é que aqui, elas estão mais aceleradas, mais poderosas, mais sensacionais e muito mais MOTORHEAD, acima de todos os limites! É por este e muitos outros detalhes especiais, que “No Sleep ‘Til Hammersmith” é um dos melhores discos da história!

E o final, como não poderia deixar de ser, resgata a preciosíssima “Bomber”, do álbum de mesmo nome, com temática sobre a guerra em forma de protesto direto e incisivo. A letra fala por si: “Um grito a milhares de milhas/Sinta a morte negra se espalhando/A tempestade de fogo chegando perto/Napalm até os ossos/Pois, você sabe nós fazemos direito/Uma missão por noite/É um bombardeiro”.

Pessoalmente, LEMMY sempre fez canções de referência crítica à guerra, embora também seja colecionador de artigos militares antigos. No álbum “1916”, que, a meu ver, é um dos melhores discos do século 20 (não apenas do MOTORHEAD), as referências prosseguem sobremaneira, em especial, na canção título, assim como em “March Or Die”, e, outros discos que já foram resenhados neste site.

E assim o avião de luzes e cores destila seu último copo de whisky, para trazer a apoteótica “Motorhead”, uma canção espetacular, que fecha com o devido estilo uma noite mais poderosa e barulhenta em sonoridade do que qualquer bombardeiro que se possa ter ouvido falar em alguma das históricas guerras percorridas pela humanidade.

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A reedição do disco no formato digipack mais recente ainda trouxe mais canções extras, entre elas, uma versão especial para “Train Kept a Rollin”, de autoria de TINY BRADSHAW, mas cuja versão mais famosa, e, justamente a tocada pela banda (assim como foi pelos YARDBIRDS, AEROSMITH, LED ZEPPELIN, METALLICA, TWISTED SISTER, SKID ROW, HANOI ROCKS, JEFF BECK, TEN YEARS AFTER, entre outros) é a de JOHNNY BURNETTE.

Eu poderia terminar esta resenha dizendo simplesmente: sabe aquele disco que você precisa ter? É este!

Sim, e, eu não estaria mentindo se dissesse apenas isto. Mas assim como comecei o texto falando em obra-prima, quero fecha-lo da mesma maneira, pois o MOTORHEAD merece todos os louros e créditos por ser um capítulo à parte no universo da música. Dizem as línguas ébrias que, se o mundo terminasse com um holocausto nuclear, dois seres sobreviveriam: LEMMY e as baratas. Piadas à parte (pela homenagem que muitos fãs fazem à impressionante longevidade do músico), o fato é que o MOTORHEAD é eterno. Ele parece não ter tido princípio e certamente, não terá fim.

Ouso dizer mais, pegando emprestadas as palavras de CHRISTOPH LICHTENBERG, que um dia disse que “o homem é uma obra-prima da criação justamente porque ele acredita agir como um ser livre”. Sobre elas, eu peço licença e emendo uma paráfrase: “O MOTORHEAD é uma obra-prima do universo musical justamente porque nunca se preocupou com estereótipos. Ele apenas tocou e cantou com plena liberdade tudo aquilo que seus músicos acreditavam ser”.

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Sobre Ronaldo Celoto

Natural do Estado de São Paulo, é escritor, professor, poeta e consultor em direito, política e gestão pública. Bacharel em Direito, com Mestrado em Ciência Política, atualmente cursa Doutorado em Direito, Justiça e Cidadania pela Universidade de Coimbra. Além destas atividades, dedica diariamente parte de seu tempo à pesquisa e produção de artigos científicos, contos, romances, matérias jornalísticas, biografias e resenhas. Seus interesses pessoais são: cinema, política, jornalismo, literatura, sociologia das resistências, ética, direitos humanos e música.

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