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Black Sabbath: Um dos discos mais especiais da história da banda

Resenha - Mob Rules - Black Sabbath

Por Ronaldo Celoto
Postado em 05 de dezembro de 2013

Nota: 10

Chegar ao Monte Olimpo é um privilégio para poucos. Ser aclamado como Deus de algum instrumento no universo da música, é uma tarefa árdua, que exige não apenas técnica, mas principalmente, talento. Mas existe um palácio particular na residência de ZEUS, onde somente figuram poucos, muito poucos e seletos músicos: - os vocalistas. E, entre seus súditos, uma pergunta sempre permanece: Alguma vez houve um vocalista como RONNIE JAMES DIO? Ou BRUCE DICKINSON? Ou DAVID BYRON? Ou ROBERT PLANT? Ou ROB HALFORD? Ou MICHAEL KISKE? Ou PAUL RODGERS? Ou DAVID COVERDALE? Ou FREDDIE MERCURY? Esta pergunta certamente não precisa ser respondida. Deve, sim, ser agraciada por cada fã destes gigantes guardiões dos grandes feitos na bíblia musical.

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O álbum ¨Mob Rules¨ é certamente, um capítulo à parte na magnífica trajetória do BLACK SABBATH, conduzido pela temática político-religiosa muito forte, e, com a presença de alguém que deveria receber da Rainha da Inglaterra o título de ¨Sir¨ DIO.

Antes de falar sobre o disco, é preciso entender que o BLACK SABBATH é a banda mais importante em termos de influência para a sonoridade dos dias de hoje. Todos os riffs, toda a agressividade, toda a consciência crítica, todo o ápice que migra do ocultismo à magia, passou pelas mãos deles, e, foi reinventado na época em que eles tiveram seu novo vocalista.

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A sonoridade pesada e direta, menos cadenciada e menos quebrada em várias vertentes (diferente do que acontecia na época de OZZY, com grande presença criativa principalmente de IOMMI e BUTLER), teve em DIO um ápice fantasmagórico, épico, triunfante. As letras tomaram forma e aderiram à astrologia, ao fim dos tempos, à magia negra, à ascensão das criaturas da floresta, da hora e vez das pessoas diferentes tomarem o poder e exigirem seu triunfo em meio à opressão e guerra causadas pelas religiões, enfim, uma enxurrada nova de ideias e de sonoridade.

Pois, vamos à obra. Inicialmente, repete a fórmula magistral da entrada concebida no brilhante ¨Heaven and Hell¨ (disco anterior), com a pegada rítmica da cozinha formada por VINNY APICE, BUTLER e IOMMI, de maneira mágica. Era o aclamado ¨Heavy Metal¨, como ficou conhecido este gênero, figurando de vez em plenos anos 80. Sim, a canção ¨Turn Up The Night¨, que abre o disco, tem o mesmo impacto da melodia da fantástica ¨Neon Knights¨. E isto significa dizer que ela é ótima e abre muito bem esta obra-prima. A produção do álbum ficou por conta de MARTIN BIRCH, e, ele bem sabia o que estava a fazer.

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Em seguida, ¨Voodoo¨, a música com riff hard poderosíssimo, troteada e cantada por DIO de modo a anunciar os rituais religiosos presentes em muitas nações mundiais, e, claro, fazer também, alusão às pessoas que deixam de serem elas mesmas, sendo praticamente fantoches de outras.

A linha tênue que separa a simples observação das estrelas do céu e toda a cosmogênese que se insere na astrologia, na lenda dos navegantes solitários, no sinal que viria da constelação do Cruzeiro do Sul, une-se harmoniosamente na terceira canção. E assim, ¨The Sign of The Southern Cross¨ traz um trabalho de violão inicial sublime, encaixado na voz de DIO que, aqui, tem uma de suas melhores performances, e, de repente, ganha ritmo, ganha marcha, ganha passo após passo, o peso cadenciado que a transforma numa das melhores canções da magnífica trilha sonora do BLACK SABBATH. Ouso dizer que esta música é espetacularmente épica!!!

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A música prossegue, mesclada a algumas vozes e ruídos estranhos para conjugar-se com a instrumental ¨E5150¨, espetacularmente concebida pelo baixo de GEEZER BUTLER e pela guitarra voraz de TONY IOMMI, como se em cada inserção, ambas anunciassem o desfecho de algum fenômeno atmosférico que poucos os acordados em uma noite tempestuosa poderiam presenciar. Como curiosidade, esta instrumental tocou no antigo e místico desenho intitulado ¨King Arthur¨, já exibido uma vez pelo SBT, em plena tarde.

A apoteótica ¨The Mob Rules¨ dá sequência ao disco, com um riff espetacular e um trabalho de bateria e baixo primordiais. A voz de DIO, encaixada de forma absoluta e mostrando que ele cantava qualquer estilo de música de qualquer maneira, grave, aguda, ruidosa, falseteada, entre tantas formas, mas todas elas, de forma incomparável. A letra convida todos metaforicamente (sim, metaforicamente) a fechar as cidades e presenciar o chamado, a voz que está a ser anunciada, a voz onde um povo governa, e, este povo quer vingança, este povo quer a verdade por detrás de todas as opressões que lhes são impostas por políticos e religiosos. Sim, neste exato momento: ¨The Mob Rules¨ (O Povo Governa)!!!

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¨Country Girl¨ continua a saga com um riff muito apropriado, um dos melhores da primeira época em que DIO pisou na terra sagrada do BLACK SABBATH. Sua voz nesta canção está muito bonita, e, em determinada parte, onde ele harmoniza com IOMMI, pode-se ouvir a suavidade com que ele diz: ¨In dreams I think of you/I don´t know what to do with myself/Time has left me down/She brings broken dreams, falling stars/The endless search for where you are/Sail on, sail on, sail on¨.

A antepenúltima faixa chama-se ¨Slipping Away¨, um hard bem estilo LED ZEPPELIN, com riff e bateria muito, muito similares mesmo (eu disse: similares) a algo que PLANT e seus amigos já fizeram, como por exemplo, na parte pesada de ¨Ramble On¨ (guardadas as comparações, antes que alguns fãs radicais não entendam estas anedotas que agora faço). Mas, claro, com o toque diferenciado de uma banda única, como era e ainda é o BLACK SABBATH.

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Após, chega então a melhor faixa de toda esta segunda fase da banda (sim, agora todos vão me crucificar por isto, pois muitos falarão em ¨Heaven and Hell¨, ¨Neon Knights¨, ¨Children of the Sea¨ ou ¨Mob Rules¨), chamada ¨Falling on the Edge of the World¨. Desde o início, com o harmonioso e melódico teclado de GEOFF NICHOLLS, até a introdução da voz celestial de RONNIE JAMES DIO, onde ele diz, em tom de despedida, assumindo metaforicamente a figura de um ancião, um cavaleiro da távola redonda, sentado na sala do seu castelo, e, que de repente, vê o fim do mundo chegar, o chão se abrir e milhões de pessoas caírem sobre o fogo, enquanto que, acima, as portas do céu se abrem e começam a convidar seus merecedores, tudo isto dentro de um sonho, que, na verdade, lhe revela uma única verdade: céu e inferno não existem. O que existe é a arte de viver e de permanecer, pois o inferno, segundo ele, é o que ele viu homens fazerem, e, as criaturas do inferno, são os próprios seres humanos. Sim, é com esta harmonia que TONY IOMMI adentra e faz também o melhor de todos os seus riffs na era DIO, culminado com a bateria belíssima de APPICE e o baixo cavalgado de BUTLER.

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É neste momento que qualquer pessoa, em sã consciência, tem a vontade de empunhar uma espada e dizer: ¨I´m falling on the edge of the world¨, pois tamanha é a força da canção, que é impossível não se render ao que foi o BLACK SABBATH nos dois trabalhos feitos sob a voz de ¨Sir¨ DIO.

Por último, a cadenciada e bela "Over and Over", onde DIO parece chorar ao dizer "Sometimes I feel like I´m dying at dawn/And sometimes I´m warm as fire/But lately I feel like I´m just gonna rain /And it goes over, and over, and over again", num desfecho introspectivo melancólico, como que a anunciar o fim de todas as esperanças para o mundo, com solo magistral de IOMMI.

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E enfim, fecham-se as portas do tempo e da memória, e, lá está, o maravilhoso ¨Mob Rules¨ como um dos discos mais especiais da história do BLACK SABBATH. Para muitos, um dos melhores também. Para mim, não se trata de ser o melhor, mas é o mais apaixonante, ao lado de ¨Master of Reality¨, simplesmente porque foram os discos que eu ouvi quando era criança, com 9 e 10 anos de idade, pois tive a sorte de ter um irmão mais velho que gostava de colecionar preciosidades destas bandas.

Enfim, pois quaisquer que sejam as razões, poucos álbuns hoje terão a força, a lenda, a epopéia e a musicalidade presentes em ¨Mob Rules¨. É o BLACK SABBATH dizendo ao mundo: "We came, we saw, we conquered"!!! E são os anos seguintes e toda a sonoridade pesada que se seguiu dizendo: Obrigado, BLACK SABBATH !!!

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Sobre Ronaldo Celoto

Natural do Estado de São Paulo, é escritor, professor, poeta e consultor em direito, política e gestão pública. Bacharel em Direito, com Mestrado em Ciência Política, atualmente cursa Doutorado em Direito, Justiça e Cidadania pela Universidade de Coimbra. Além destas atividades, dedica diariamente parte de seu tempo à pesquisa e produção de artigos científicos, contos, romances, matérias jornalísticas, biografias e resenhas. Seus interesses pessoais são: cinema, política, jornalismo, literatura, sociologia das resistências, ética, direitos humanos e música.
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