Ulver: Quebrando os paradigmas do Black Metal norueguês
Resenha - Ulver - Bergtatt - Et Eeventyr i 5 Capitler
Por MATHEUS BERNARDES FERREIRA
Postado em 05 de novembro de 2013
Bergtatt - Et Eeventyr i 5 Capitler (Bergtatt – Um Conto em 5 Capítulos) é o primeiro ato da banda de black metal norueguesa Ulver, que em sua língua nativa significa Lobo. Trata-se de um álbum fortemente influenciado pela cultura folclórica escandinava e que relata a assustadora estória de trolls da montanha sequestradores de garotinhas indefesas, narrada na língua norueguesa arcaica pelos vocais guturais e limpos de Kristoffer Rygg, mais conhecido como Garm. A influência folk também se estende ao instrumental, portanto não espere o black metal norueguês ortodoxo, pois temos muito mais que simples blast-beats e vociferações.
Logo na primeira faixa Capitel I a banda mostra que veio para quebrar os paradigmas do gênero. Os riffs de guitarra são simples, suaves e repetidos exaustivamente, sempre acompanhados por linhas de guitarra harmônica que dão um aspecto ultra melódico à composição. A voz de Garm está incrivelmente suave e melancólica e não sai do mesmo tom, como se estivesse recitando algum conhecimento proibido em estado decadente ou hipnótico. Assombroso. O contrabaixo não apenas é audível como acompanha impetuosamente as variações rítmicas das guitarras. O único aspecto do metal extremo que temos nesta faixa é pegada da bateria, que, mesmo assim, ainda soa super abafada, o que é uma característica não só desta faixa, mas presente no álbum todo. A música é longa e se arrasta de modo sufocante, parando apenas para um breve interlúdio de dedilhados de violão, para então fechar com um excelente riff Maidista.
Capitel II abre acústica com dueto de violão e flauta. Os blast-beats invadem a música não para estraçalhar nossos tímpanos, mas abafados o suficiente para não incomodarem demais, adicionando, junto as guitarras, um clima intenso de tensão e histeria. Garm rasga a voz e interpreta ao ouvinte toda bestialidade e obscurantismo presentes em sua estória. Ao contrário do que ouvimos na abertura, esta música é plural e alterna diversos ritmos, riffs e formas de cantos diferentes. Ela possui sutilezas magníficas como o constante gemidos sussurrados ao fundo e a incansável pegada do contrabaixo.
O Capitlel III também começa acústica e suave, mas por pouco tempo. Segue a mais intensa sequência de riffs e blast-beats do álbum, que tomam a risca a fórmula de criação de clima de hostilidade e tensão. AiwarikiaR está particularmente endiabrado nesta faixa, mas o maior destaque, por incrível que pareça, é do contrabaixista Skoll. A morbidíssima linha de contrabaixo que surge durante a seção rítimica, pouco antes do tiro de arcabuz ou imitação barata de trovão, é medonhamente destoante do restante da composição. Sinistro. A música muda radicalmente para um dedilhado de violão e então se silencia completamente, deixando apenas a ambientação de uma apavorante corrida ou perseguição na mata, que parece nunca ter fim. O piano ao fundo só agrava a anormalidade da cena. De súbito, sem presságio qualquer, o blast-beat volta como o carrilhão do inferno voltaria para condenar nossa a alma à danação eterna. A inescrutável agressividade assume as formas mais bestiais enquanto a música caminha para seu desfecho final.
O ritmo esfria em Capitel IV, mas desta vez não é só a introdução que é calma e acústica, e sim a música toda. Dedilhados de violão e arrepiantes vozes sussurrantes, masculinas e femininas, são tudo o que temos aqui. Trata-se de um interlúdio de melancólica beleza e tranquilidade. Talvez seja um tanto longa demais, mas pertinente à proposta do álbum.
A última e mais longa faixa do álbum, Capitel V, abre com a fenomenal fórmula de blast-beats abafados, guitarras harmônicas e a desgraceira cantada por Garm. Novamente destaque para a excelente pegada do contrabaixo. Segue um breve interlúdio acústico que nos prepara para a segunda rodada de assalto metálico. Temos então uma das mais impressionantes sequências rítmicas já compostas no black metal, onde melodia épica, batida hipnótica e selvageria bestial atingem alturas infernais de puro êxtase metálico. O desfecho em "fade out" paralelo ao surgimento do sombrio acorde de violão ficou espetacular. O dedilhado final é a cereja do bolo desta obra prima do metal extremo.
À primeira ouvida, tive a impressão de Bergtatt ter se tornado cansativo por causa dos excessivos interlúdios acústicos espalhados por todas as músicas. Mas compreendendo o conceito do álbum, entendo que essas passagens são necessárias não apenas para dar cadência à impetuosa avalanche metálica, mas também para explorar diversos ambientes de contextualização da narrativa. Agressividade e suavidade se combinam nessa orgia de belas e odiosas melodias, dando origem a um álbum plural e perturbador. Bergtatt é uma resposta ao vandalismo musical gratuito promovido inescrupulosamente por bandas de metal extremo ao redor do mundo. Um ótimo exemplo de como as barreiras do black metal podem ser exploradas sem que haja a desfiguração de suas características mais intrínsecas. Para quem é fã do gênero, um álbum obrigatório. Para os demais, uma ótima oportunidade de entrar no contagiante mundo do metal extremo.
Ulver
Bergtatt - Et Eeventyr i 5 Capitler, 1994
Black Folk Metal (Noruega)
Lista de músicas:
Capitel I : I Troldskog Faren Vild (07:51)
Capitel II : Soelen Gaaer Bag Aase Need (06:34)
Capitel III : Graablick Blev Hun Vaer (07:45)
Capitel IV : Een Stemme Locker (04:01)
Capitel V : Bergtatt - Ind I Fjeldkamrene (08:06)
Tempo total: 34:17
Músicos:
Kristoffer Rygg (Garm) / Vocal
Håvard Jørgensen / Guitarra
Torbjørn Pedersen (Aismal) / Guitarra
Skoll / Contrabaixo
Erik Olivier Lancelot (AiwarikiaR) / Bateria
Músicos complementares:
Sverd - Piano
Lill Kathrine Stensrud/ Vocal feminino, flauta
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