George Harrison: Um belo tributo ao "All Things Must Pass"

Resenha - Tudo Passa - Tributo a George Harrison

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Por Paulo Finatto Jr.
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Nota: 10

O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.


No ano em que “All Things Must Pass” completa quarenta anos, a gravadora Discobertas prestou uma bonita homenagem a esse que é um dos discos mais conceituados de GEORGE HARRISON e de qualquer outro ex-BEATLES em carreira independente. O repertório do álbum, traduzido por artistas nacionais conhecidos e do nosso underground, é complementado por um conceito gráfico excepcional. O tributo, intitulado “Tudo Passa”, é um item obrigatório para os verdadeiros fãs do guitarrista e compositor inglês.
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As dificuldades de reunir um time grande de músicos e atingir uma uniformidade sonora – mesmo utilizando estúdios e produtores diferentes – parecem superadas em "Tudo Passa". O cuidado que a Discobertas teve em construir uma obra refinada é evidente do início ao fim do tributo. De um lado, a capa e o encarte – que remetem à arte de "All Things Must Pass" – são belíssimos. De outro, não há exatamente nada fora do lugar nas vinte versões assinadas pelos artistas nacionais. O disco, que pode ser acompanhado da abertura ao seu encerramento sem pausas, não soa incômodo até mesmo para quem não vê com bons olhos releituras de ícones – praticamente heróis do rock n’ roll – como GEORGE HARRISON.

Por mais que os fãs possam estranhar, a versão de "I’d Have You Anytime" assinada por MILTON NASCIMENTO & LEO FERNANDES abre o disco de modo interessantíssimo. Embora as composições de GEORGE HARRISON possuam uma áurea do rock n’ roll dos anos setenta e típica da época que passou com os outros três ex-BEATLES, as características claramente próximas à MPB soam bem quando aproveitadas, sobretudo em "My Sweet Lord", de FAFÁ DE BELÉM & RAUL MASCARENHAS. Entretanto, é o rock básico de "Wah-Wah", executado pelo trio TORTÚ com o guitarrista Sérgio Dias (MUTANTES), que proporcionará os primeiros sorrisos dos fãs mais fanáticos pela carreira do compositor inglês.

O disco "All Things Must Pass" foi gravado entre maio e setembro de 1970 e contou com uma série de músicas que GEORGE HARRISON compôs e não foram aproveitadas nos discos dos BEATLES. A bonita "Isn’t It a Pitty" aparece com uma nova versão, devidamente à sua altura, assinada por ninguém menos que ZÉ RAMALHO. A voz do cantor paraibano caiu perfeitamente à sonoridade mais cadenciada da faixa, coisa que não se repete em "What Is Life", executada por LIA SABUGOSA & MÁRCIO BIASO. De qualquer modo, a roupagem atual deu à música uma cara muito interessante. Por outro lado, a simples "If Not For You" não se encaixou tão bem à voz da cantora LUEN.

Entretanto, nada deve ser mais curioso do que a presença do sertanejo SÉRGIO REIS no tributo. A sua versão, para a quase southern "Behind that Locked Door", se aproxima muito à original gravada por GEORGE HARRISON. De modo um pouco diferente, MARIA GADÚ deu uma carga dramática a "Let It Down", que abandonou as guitarras e suas influências rock n’ roll para se tornar uma faixa acústica nesse tributo. Não há dúvidas de que a cantora não precisa provar mais nada quanto a sua performance, vencedora de prêmios no Brasil e exterior. Os destaques se estendem por todo o CD e é inegável que CARMEM MANFREDINI & TANTRA recauchutaram muitíssimo bem "Run of the Mill", ao mesmo tempo que ZÉ RAMALHO fez outra bonita releitura de "Beware of Darkness".

Embora tenha perdido as suas características folk, "Apple Scruffs" se tornou outra bonita balada pelas mãos de RODRIGO SANTOS. Não seria nenhuma pretensão apontar essa como um dos resultados mais positivos (e diferenciados) de "Tudo Passa". Entretanto, as músicas que passam em branco em "All Things Must Pass" são as mesmas que não chamam a atenção nesse tributo. O impacto positivo do disco não se repete em "Ballad of Sir Frankie Crisp (Let It Roll)", mesmo que ARETHA & TINTA PRETA tenham cumprido o seu papel. Por outro lado, "Awaiting on You All", que não se sobressaia na voz de GEORGE HARRISON, se tornou mais uma faixa de bom-gosto nas mãos de LEO VON. As roupagens mais atuais representam a maior virtude de "Tudo Passa". "All Things Must Pass" – com certos toques de regionalidade de MU CARVALHO – e "I Dig Love" – que passou a soar rock n’ roll com o TINTA PRETA – comprovam isso.

Os elogios a "Tudo Passa" podem parecer uma repetição sem fim, mas é impressionante como soam bem as versões apresentadas nesse tributo. Para muitos, "Art of Dying" representa uma ousadia criativa pouco vista na carreira de GEORGE HARRISON. No entanto, TWIGGY & TINTA PRETA deram uma recauchutada na música, que se tornou um rock mais encorpado, apesar dos vocais apenas medianos da cantora. Por outro lado, HEVELYN COSTA mostra uma versão alternativa para "Isn’t It a Pity", que se tornou oura bela balada através da voz potente da cantora e do novo instrumental, mais moderno e bem enquadrado. Do mesmo modo, "Hear Me Lord" é atualizada pelas mãos de MANFRED & CARMEM MANFREDINI. Por fim, "I Live for You" mantém as mesmas características originais na execução do TANTRA e "Deep Blue", assinada pela cantora CAROLINA LIMA, ressuscita um dos b-sides de "All Things Must Pass" com uma roupagem atualizada.

Não há dúvidas de que GEORGE HARRISON foi devidamente homenageado em "Tudo Passa". O músico, que faleceu exatamente dez anos atrás, é a figura mais enigmática dos BEATLES e um dos compositores mais eficientes da história do rock n’ roll. O tributo idealizado pela gravadora Discobertas é de muito bom gosto e merece todos os elogios possíveis e imagináveis. Certamente, esse álbum é muito mais do que apenas um presente para todos os fãs – mas uma recordação para guardar eternamente.

Track-list:

01. I’d Have You Anytime (Milton Nascimento & Leo Fernandes)
02. My Sweet Lord (Fafá de Belém & Raul Mascarenhas)
03. Wah-Wah (Tortú & Sérgio Dias)
04. Isn’t It a Pitty (Zé Ramalho)
05. What Is Life (Lia Sabugosa & Márcio Biaso)
06. If Not For You (Luen)
07. Behind that Locked Door (Sérgio Reis)
08. Let It Down (Maria Gadú)
09. Run of the Mill (Carmem Manfredini & Tantra)
10. Beware of Darkness (Zé Ramalho)
11. Apple Scruffs (Rodrigo Santos)
12. Ballad of Sir Frankie Crisp (Let It Roll) (Aretha & Tinta Preta)
13. Awaiting on You All (Leo Von)
14. All Things Must Pass (Mu Carvalho)
15. I Dig Love (Tinta Preta)
16. Art of Dying (Twiggy & Tinta Preta)
17. Isn’t It a Pitty (Hevelyn Costa)
18. Hear Me Lord (Manfred & Carmem Manfredini)
19. I Live for You (Tantra)
20. Deep Blue (Carolina Lima)

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Sobre Paulo Finatto Jr.

Reside em Porto Alegre (RS). Nascido em 1985. Depois de três anos cursando Engenharia Química, seguiu a sua verdadeira vocação, e atualmente é aluno do curso de Jornalismo. Colorado de coração, curte heavy metal desde seus onze anos e colabora com o Whiplash! desde 2000, quando tinha apenas quinze anos. Fanático por bandas como Iron Maiden, Helloween e Nightwish, hoje tem uma visão mais eclética do mundo do rock. Foi o responsável pelo extinto site de metal brasileiro, o Brazil Metal Law, e já colaborou algumas vezes com a revista Rock Brigade.

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