OTR: John Lawton e Jan Dumée fugindo do óbvio
Resenha - Mamonama - OTR
Por Rodrigo Werneck
Postado em 15 de outubro de 2008
Nota: 9 ![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
Alguns caminhos tortuosos podem levar a destinos inusitados, inimaginados, mas de resultados bastante satisfatórios. A união do vocalista inglês John Lawton, ex-Uriah Heep e Lucifer’s Friend, entre outros grupos menos cotados, com o guitarrista holandês Jan Dumée, ex-Focus, não parecia a princípio algo óbvio, mas foi a partir disso que surgiu o grupo OTR, cujo disco de estréia está saindo agora, com o curioso título de "Mamonama".

A formação da banda inclui, além de Lawton e Dumée respectivamente no vocal principal e guitarra, nada menos do que três brasileiros: o tecladista Marvio Ciribelli, o baixista Ney Conceição e o baterista Xande Figueiredo. Todos os três com background não muito próximo ao do classic/blues rock característico de Lawton, ou mesmo do rock progressivo e jazz pelos quais Dumée é mais conhecido. Oriundos da cena jazz/MPB/bossa nova carioca, eles contribuem com um ecletismo que para os mais radicais poderia implicar logo de cara numa rejeição ao produto. Mas, quem ouvir esse disco irá se surpreender bastante.
"Ghetto" abre de forma arrebatadora o disco. A opção por uma faixa longa, contendo grandes vocais de Lawton e excelentes e longas seções instrumentais lideradas por Dumée, já mostra logo de cara todo o potencial da banda. O riff inicial de guitarra e violão juntos, de Dumée, com a "cama" de órgão Hammond e uns gritos ao fundo, criam o clima perfeito para imaginar-nos num "gueto" propriamente dito. Logo em seguida, guitarra e baixo iniciam o riff central, abrindo campo para a entrada de Lawton. É realmente impressionante como o tempo passa e a voz de Lawton permanece, senão intacta, ao menos em ótima forma. Dumée não se faz de rogado, e enriquece todas as passagens, seja com bem colocados riffs e "fills" (tanto de guitarra quanto de violão), seja com solos certeiros. Há até mesmo espaço para um pequeno solo de Hammond de Ciribelli. Lá pelos 5 minutos de música, quando parece que o final está se aproximando, uma reviravolta abre espaço para mais um furioso solo de guitarra.
"Taking You Down" é uma das melhores músicas do disco, um hard rock "funkeado", que lembra bastante o Deep Purple atual, da era Steve Morse. Imagina-se facilmente Ian Gillan cantando seus versos e refrão, mas a verdade é que aqui o trabalho é feito mais uma vez de forma magistral por Lawton. E, também mais uma vez, Dumée mostra ser um mestre em enriquecer as passagens com violões muito bem colocados. Um toque de classe, quando bem utilizado, em músicas mais pesadas como essa. O final, com um grande som de Hammond e bateria variada de Xande Figueiredo, preenchendo todos os espaços disponíveis e acelerando ainda mais, lembra muito o estilo de Ian Paice. Certamente será um dos pontos altos das apresentações ao vivo.
"Hello" vem a seguir e é uma balada cheia de feeling, prato cheio para os vocais de Lawton desfilarem de forma soberana. Em cima da composição inspirada de Dumée, lembrando as belas baladas instrumentais do Focus, Lawton escreveu uma tocante letra sobre sua própria mãe, e seu sofrimento com o Mal de Alzheimer. O belíssimo coral adicionado pela cantora convidada Sonia Genu agrega altas doses de emoção. Ela gravou cerca de 20 vozes separadas, para criar o efeito de um coral, e ele combina perfeitamente com a magnífica voz de Lawton, não injustamente chamado de "Velvet Voice" ("voz aveludada"). A título de curiosidade, o subtítulo em latim "Dona Nobis Pacem" (as palavras que Sonia canta no coral) significa "Deus, traga-nos paz".
"The Corner Club" é uma música que mescla influências européias com leves toques brasileiros. Um pouco de música folk, um pouco da típica sonoridade do "Clube da Esquina" mineiro, e sua rica base harmônica (reparem que "corner club" significa exatamente "clube da esquina" em inglês). Fruto das ecléticas influências de Dumée. Um solo de Fender Rhodes de Ciribelli abrilhanta o segmento final da música, que termina com o baixo roncado de Ney Conceição em primeiro plano.
A contagiante faixa-título vem a seguir. "Mamonama" é um lugar fictício, para onde iriam aqueles em busca de inspiração. Um lugar aonde somente se chega de trem, a letra nos induz a entender. O riff e o vocal nos induzem verdadeiramente a uma viagem de trem. Xande se sobressai preenchendo os espaços com sutileza, e na parte central da peça, Dumée cria um clima diferente, com um belo solo de guitarra.
"Steal The Night" é a mais progressiva, com seus mais de 7 minutos de duração. Ecos do Lucifer’s Friend podem ser ouvidos aqui, nessa composição que originalmente foi feita para o Focus. Os mais atentos irão perceber que se trata de uma regravação, com vocais e arranjo totalmente novo, de um música instrumental de Dumée ("Tamara’s Move") que foi incluída no disco "Focus 8", da época em que ele ainda era membro do grupo holandês progressivo. Terreno mais que próprio para John Lawton demonstrar todo o seu potencial como vocalista, em interpretação tremendamente inspirada, cheia de feeling e dinâmica, alternando momento calmos com outros onde pode demonstrar todo o seu alcance vocal. Há, no meio da música, uma "bridge" com constantes mudanças de tempo, toques jazzísticos, e ainda um momento totalmente "Focus", onde a pungente guitarra de Jan Dumée reina soberana.
"Face To Face" é outra mais na linha do hard rock, e mais uma originalmente composta por Dumée para o Focus. Aqui, claro, recebeu vocais e se transformou num rockão que cairá como uma luva nos shows do conjunto. Há espaço para um solo de baixo de Ney, com aquela sonoridade bem anos 70. "Shine" vem em seguida, e é uma balada onde a voz de Lawton mais uma vez se sobressai, sobre a base criada pelos violões dobrados de Dumée. Um potencial hit, se conseguir chegar às rádios rock. O solo de guitarra de Dumée é belíssimo, e inclui a sua característica assinatura. Trata-se de um guitarrista com um estilo próprio, que trafega muito bem entre diversos gêneros, sabendo usar tanto de distorção e agressividade quanto de sutileza e son limpos, dependendo do que o momento exija.
"Woman" é mais uma música com uma mescla de influências, alternando entre momentos mais pesados e outros mais calmos, e incluindo ao seu final o som de berimbaus ao fundo, tocados pelo músico convidado Julio Pimentel. O disco é fechado com "Ride On", um rock básico no melhor estilo do Uriah Heep do final dos anos 70, quando o próprio Lawton era responsável pelo vocal principal da banda. Uma música contagiante e perfeita para a conclusão do disco.
Como comentário final, é bom salientar a qualidade de produção deste disco. Gravado parcialmente no Brasil, e totalmente mixado e masterizado por aqui, a qualidade é soberba, com todos os instrumentos perfeitamente audíveis, mesmo quando são acrescentados detalhes sutis. Parabéns a Jan Dumée, que co-produziu o CD e foi ainda responsável pelas composições e arranjos. O resto da banda também tem muito destaque, em especial, é claro, o vocalista John Lawton, ótimo como sempre, mas também os três músicos brasileiros que completam a formação. Xande Figueiredo é não apenas um baterista cheio de recursos, que sabe se revezar entre peso e sutileza, mas acima de tudo um músico de extremo bom gosto, que usa a bateria para ditar o ritmo e também para preencher os espaços, incluindo aí um brilhante trabalho com os pratos. Ney Conceição, a despeito de seu background mais jazzístico e de MPB, desfila aqui uma sonoridade totalmente rock, com um baixão Fender roncado totalmente dentro do contexto. O mesmo se pode dizer de Marvio Ciribelli, que alterna entre órgão Hammond, piano acústico e Fender Rhodes, sempre com sonoridades típicas das grandes bandas de rock dos anos 70.
Uma estréia em grande estilo, que claramente mostra que essa banda ainda irá dar muito o que falar...
Tracklist:
1. Ghetto
2. Taking You Down
3. Hello (Dona Nobis Pacem)
4. The Corner Club
5. Mamonama
6. Steal The Night
7. Face To Face
8. Shine
9. Woman
10. Ride On
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



O artista que é "a essência do rock", segundo James Hetfield do Metallica
58 shows internacionais de rock e metal para ver no Brasil em julho
A única banda em que Geddy Lee entraria "sem pensar duas vezes"
A canção do Iron Maiden que arrepia Bruce Dickinson; "genial"
O melhor disco dos anos 80, segundo a Classic Rock
Savatage gravará show com orquestra no Anfiteatro da Pompeia
O clássico do Black Sabbath que foi lançado há mais de 50 anos, mas continua atual
O conselho inesperado que Mick Jagger do Rolling Stones deu para Joe Satriani
Nergal anuncia que o Behemoth suspenderá atividades em 2027
A banda clássica dos anos 70 que Noel Gallagher chamou de "uma merda"
A única banda de rock nacional que não virou peça de museu, segundo Regis Tadeu
A infância cubana que transformou Dave Lombardo em baterista
A música que Ronnie James Dio fez para deixar o Black Sabbath para trás
O disco do Led Zeppelin gravado em clima estressante que se tornou o preferido de Dave Mustaine
Qual seria a melhor música de cada álbum do Iron Maiden?
A canção que Renato Russo queria que fosse um baião, mas foi comparada a música sertaneja
Led Zeppelin: A inspiração por trás do clássico "Kashmir"
A opinião de Paul Stanley, do Kiss, sobre o Metallica e Slayer


Black Swan - Quando a experiência se transforma em poder de fogo
Hellacopters acerta (de novo) com seu rock n' roll visceral em "Cream Of The Crap! - Volume 3"
Yes - Seguindo firme e forte em "Aurora"
"Break The Silence" prova que o mainstream precisa do Beyond The Black
"MI'RAJ" - quando Edu Falaschi troca a velocidade pela emoção e encerra trilogia com maturidade
A Lapidação da alma: O triunfo conceitual do Big Big Train em "Woodcut"
HellLight - Reafirmando seu espaço entre os melhores da safra do gênero.
"Betrayed By Obedience", do Infected Cells, é death metal bruto, técnico e direto
Há 40 anos o Queen lançava "A Kind of Magic", álbum que marcou a despedida de Freddie dos palcos
Metallica: um DVD com título mais do que adequado



