Resenha - A Quick One - Who
Por Rodrigo de Andrade (GARRAS)
Postado em 12 de abril de 2003
Em 3 dezembro de 1966, a banda mod The Who lançou seu segundo LP. "A Quick One" saiu mais melódico e lírico do que o álbum de estréia, que era cheio de adrenalina. Não deixou de ser um álbum convulsivo. Foi melhor executado e composto, mas isso não o impediu de ser um disco agitado.
Who - Mais Novidades
A diferença em relação ao trabalho anterior se deve ao fato de que o co-empresário do grupo, Chris Stamp, conseguiu um adiantamento significativo com a Essex Music sob o pretexto de que os quatro membros da banda iriam compor para o álbum. Assim, aquela unidade presente em "My Generation", todo composto por Pete Townshend, dá lugar a uma diversidade de autores e estilos criativos. Ainda, eles haviam trocado o produtor americano Shel Talmy por Kit Lambert. Por tudo isso, quando "A Quick One" foi lançado, a mídia disse que não se tratava de um trabalho tão impressivo quanto o anterior. Porém, se o disco perdeu em energia (característica de Pete e seus power chords) ganhou ao apresentar visões diferentes sobre um período tão marcante, de grande agitação cultural. Isso tudo era representado na própria capa, desenhada por Alan Aldridge (um grande expoente da pop art).
Dessa forma, Townshend dava o ar de sua graça em quatro das dez canções do disco. Já John Entwhistle mostrava toda sua erudição musical em duas músicas de letras irônicas e bizarras, e Keith Moon revelou que seu comportamento bizarro e caótico se refletia na sua criatividade, ao apresentar dois temas explosivos. E, por fim, Roger Daltrey impressionou com a sua "See My Way", uma das melhores faixas do álbum. Graças ao adiantamento por essa canção, o vocalista pode comprar seu desejado carro, um Volvo ‘Saint’. Entre as outras músicas que merecem comentários se tem "Run Run Run", composta por Pete para a banda The Cat; "Heatwave", cover de Martha and the Vandellas; "Cobwebs and Strange", em que Keith fez seus colegas marcharem pelo estúdio para produzir o efeito de estéreo, além do fato de que são eles mesmos tocando trombone, trompete e pistão (herança da época em que a banda tocava skiffle e se chamava Detours).
A faixa título merece maiores atenções. "A Quick One, While He’s Away" foi a primeira ópera-rock da banda (segundo Townshend, "I’m a Boy" teria sido seu primeiro projeto de uma ópera-rock). Com seus nove minutos, era composta por seis canções: "Her Man’s Gone", "Crying Town", "We Have A Remedy", "Ivor The Engine Driver", "Soon Be Home" e "You Are Forgiven". A imprensa da época afirmava que tudo não passava de uma estratégia de Pete para ganhar mais com direitos autorais. Essa peça original e incrível ficou debilitada por ter sido gravada em três estúdios diferentes, com equipamentos variados e sob condições diversas. Assim, o que se escuta no disco é uma música com muitas mudanças de andamento e qualidade. John chegou a comentar que, em determinada parte da música, eles queriam gravar violoncelos. Como Kit Lambert não deixou, passaram a cantar "cello, cello, cello..." naquele trecho. Porém, se "A Quick One" saiu prejudicada no álbum, ao vivo ela revelava ser uma canção coerente e de fôlego, provando que a peça realmente funcionava. O mais importante sobre essa canção é que ela lançou as bases de álbuns memoráveis da banda, as óperas-rock "Tommy" (1969) e "Quadrophenia" (1973).
"Boris The Spider" é outra faixa marcante, nesse disco, por diversos motivos. Em primeiro lugar, é a música mais exigida pelo público nas turnês, segundo Pete. Outro ponto em seu favor é que ela era a preferida de Jimi Hendrix. Sem dúvida seria um sucesso. John Entwhistle havia gravado a música em casa e chamou o grupo para mostrar o resultado. Quando se reuniram no seu quarto, ouviram incrédulos aquele som estranho e a letra que falava da morte horrenda de uma aranha. A canção era tão encantadora que Townshend tratou de correr para casa, com a intenção de compor algo superior. Incapaz de superá-la, Pete revelou anos mais tarde que, por puro ciúme, fez de tudo para que ela não fosse lançada como compacto.
A reedição de "A Quick One" em CD (1995) trouxe 10 faixas bônus. Quatro delas vinham do EP "Ready Steady Who". São as covers "Bucket T" (de Jan & Dean), "Barbara Ann" (dos Beach Boys), o tema de "Batman" e "Desguises", uma canção psicodélica composta por Pete. Outras três eram lados-B: "Doctor, Doctor" (de "Pictures of Lily"), "I’ve Been Away" (de "Happy Jack") e "In The City" (de "I’m A Boy"). Essa última fora gravada apenas por Keith e John, que esqueceram de informar a Pete e Roger da sessão marcada em estúdio. Assim, com exceção da guitarra adicionada por Townshend através de um overdub posterior, essa música foi feita por apenas dois membros do The Who. Para encerrar a versão digital do álbum, se tem três músicas que nunca haviam sido lançadas: uma versão acústica de "Happy Jack", "Man With The Money" (cover de um lado-B dos Everly Brothers) e uma versão que mesclava "My Generation" com "Land of Hope and Glory" onde Keith espanca a bateria de forma como nunca fizera antes.
Após o lançamento do disco, a banda viajou logo no início de 1967 para realizar a sua primeira turnê nos Estados Unidos. Como eram pouco conhecidos na América, fizeram inúmeras apresentações para promover o álbum, que lá foi lançado sob o título de "Happy Jack" em maio, trazendo essa música ao invés da cover "Heatwave". A excursão, feita de ônibus, revelou-se muito cansativa, uma vez que eles atravessaram o país de costa a costa. Em determinadas cidades, como Nova Iorque, Keith comentou posteriormente que chegavam a fazer 5 shows promocionais por dia, com apenas 10 minutos de duração. Todo o equipamento era montado, desmontado e carregado para dentro do ônibus incontáveis vezes num único dia. Em compensação, no mês de Junho já haviam sido vistos por tanta gente que seu show foi um dos mais aguardados no festival de Monterey (California). Na noite em que deveriam se apresentar, seu show seria o último, encerrando os três dias do evento. Porém, numa disputa de "cara ou coroa" (feita por Paul McCartney) acabaram perdendo o posto para a Jimi Hendrix Experience. Indignados por serem a penúltima atração, estraçalharam o equipamento e o palco com tanta gana como nunca o tinham feito antes. Porém, após a incendiária apresentação do guitarrista negro eles se renderam. Keith dizia que ela havia sido a maior experiência psicodélica de toda sua vida. Já Pete, demonstrando certo ciúme, dizia que Hendrix poderia queimar a guitarra, mas não quebrá-la, pois aquela era a "sua" marca. Vale lembrar que foi após esse show que o nome de Jimi foi apresentado ao mundo, iniciando sua lendária trajetória.
Dessa forma se encerra a história por trás do segundo álbum do The Who. "A Quick One" não é o disco mais conhecido da banda. Porém, é um incrível registro da agitação cultural daquela swinging London, marcada pela pop art, que se tornou lendária. Em suas 10 músicas vemos a consolidação de cada membro do grupo como compositor. Isso faz desse álbum um dos mais significativos na vida desses heróis do rock.
Lista das músicas presentes na reedição em CD:
Run Run Run (P. Townshend)
IBC Studios, outubro 1966, LP inglês, 66
Boris The Spider (John Entwistle)
Pye Studios, outubro 1966, LP inglês, 66
I Need You (Keith Moon)
Pye Studios, outubro 1966, LP inglês, 66
Whiskey Man (John Entwistle)
IBC Studios, novembro 1966, LP inglês, 66
Heatwave (Holland, Dozier)
IBC Studios, outubro 1966, LP inglês, 66
Cobwebs and Strange (Keith Moon)
Pye Studios, outubro 1966, LP inglês, 66
Don’t Look Away (P. Townshend)
IBC Studios, novembro 1966, LP inglês, 66
See My Way (Roger Daltrey)
IBC Studios, novembro 1966, LP inglês, 66
So Sad About Us (P. Townshend)
IBC Studios, novembro 1966, LP inglês, 66
A Quick One, While He’s Away (P. Townshend)
IBC, Pye, e Regent Sound Studios, outono de 1966, LP inglês, 66
Batman (Neal Hefti)
IBC Studios, agosto 1966, EP inglês, 66
Bucket T (Artfield e outros)
IBC Studios, agosto 1966, EP inglês, 66
Barbara Ann (Freddy Fassert)
IBC Studios, agosto 1966, EP inglês, 66
Disguises (P. Townshend)
Pye e IBC, junho/julho 1966, EP inglês, 66
Doctor, Doctor (John Entwistle)
Ryemuse Sound, abril 1967, Lado-B, 67
I’ve Been Away (John Entwistle)
Regent, novembro 1966, Lado-B, 66
In The City (Entwistle/Moon)
IBC Studios, dezembro 1965, Lado-B, 66
Happy Jack (acústica) (P. Townshend)
IBC Studios, novembro 1966, CD, 95
Man With the Money (D. & P. Everly)
IBC Studios, agosto 1966, CD, 95
My Generation / Land of Hope and Glory (P. Townshend / Edward Elgar)
IBC Studios, agosto 1966 (provavelmente), CD, 95
Fontes consultadas:
A Quick One (encarte do CD – MCA).
The Monterey International Pop Festival (encarte Boxed Set – Rhino).
www.allmusicguide.com (resenha de Richie Unterberger).
www.senhorf.com.br (texto de Pete Townshend).
www.whiplash.net (texto de Lucas Bleicher).
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



A banda que Max Cavalera considerava a "versão brasileira do Iron Maiden"
Dez guitarristas que David Gilmour, do Pink Floyd, elogiou ao longo dos anos
Jairo Guedz sobre as regravações dos Cavalera: "A magia, para mim, está no original"
Fabio Lione publica desabafo irônico que supostamente mira sua ex-banda, o Angra
O membro do Iron Maiden que "não aguenta mais e quer sair", segundo Regis Tadeu
A melhor cantora brasileira de metal na atualidade, segundo Ricardo Confessori
Biohazard se apresentará no Brasil em fevereiro de 2027
A reação dos filhos de James Hetfield quando o Metallica retomou suas masters
A tarefa que Edu Falaschi evitava no sítio de Ricardo Confessori na fase Angra
Bruce Dickinson quer novo disco do Iron Maiden, Steve Harris não sabe, diz Nicko McBrain
Jairo Guedz conta o que ouviu de Andreas Kisser sobre sua saída do Sepultura
Chuck Billy, do Testament, corta os cabelos compridos e mostra novo visual
As músicas de "Mob Rules" que Geezer Butler coloca entre as melhores do Black Sabbath
Scott Ian considera AC/DC com Bon Scott "a melhor banda de todos os tempos"
As músicas que Steve Harris, do Iron Maiden, se recusava a ouvir no carro
A canção do Led Zeppelin que é "uma piada" mas ensina os jovens a gostar de Rock
O hit de Cazuza contra o capitalismo com letra considerada "boba e equivocada"
O que significa a frase "Tira essa bermuda que eu quero ver você sério" de "Como Eu Quero"?

Os 50 melhores discos ao vivo dos anos 70 segundo a Spin; Led Zeppelin ficou longe do topo
A banda que Pete Townshend e Patti Smith desprezaram e mudou a vida de Scott Ian
Pete Townshend (The Who) admite que só foi gostar de Led Zeppelin recentemente
A música favorita de Pete Townshend, do The Who; "É tudo o que eu gostaria de fazer"
Festival Best of Blues and Rock anuncia shows de Simon Townshend
O conselho que Pete Townshend deu a Jimi Hendrix e depois se arrependeu amargamente
O cantor que Axl Rose, Roger Daltrey e Chris Cornell colocam acima de todos
Os dois clássicos do rock que Ian Anderson do Jethro Tull acha genéricos demais
O disco que "furou a bolha" do heavy metal e vendeu dezenas de milhões de cópias



