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Resenha - Back In The USA - MC5

Por Denio Alves
Em 25/02/01

Eles foram uma das mais anárquicas e barulhentas bandas de seu tempo. Precursores absolutos do som que viria a se tornar conhecido como punk rock, os rapazes do MC5, de Detroit, formaram, com outra banda também célebre e punk da cidade, os Stooges (de Iggy Pop), uma gangue do som sanguinário e de vanguarda que assolou o final dos anos 60. Eram apenas os mesmos três acordes básicos do rock ‘n' roll, amplificados à exaustão e tocados com uma fúria e uma velocidade extremas, desde que os "cinco da cidade do motor" (Motor City Five, o que deu nome à banda) eram apenas mais uma bandinha de garagem que conseguira contratos vagabundos para gravar singles por pequenos selos locais.

O grupo, quando lançou esta obra-prima comentada aqui, já tinha uma história atribulada, vindo de um contrato mal-sucedido com a Elektra Records (a mesma de The Doors e The Stooges, entre outras lendas dos anos 60), que terminou graças a uma confusão remanescente ainda do primeiro LP da banda, o também clássico Kick Out The Jams (1969), gravado ao vivo durante um de seus famosos "concertos-celebrações". É necessário dizer, antes de tudo, que o MC5 foi um dos mais politizados grupos de rock de sua época, até então - participavam ativamente do grupo anarquista de John Sinclair, líder universitário e guru do mote "sexo nas ruas". Eles chegaram a organizar casas comunitárias onde era vivido um novo estilo de vida, altamente liberal, com muita pregação sobre as mentes aprisionadas pelo "sistema" e tentativas de libertação, regadas a muita trepada, guitarras e marijuana. Ou seja: caras como eles nunca seriam os queridinhos da mídia e do establishment musical. A coisa piorou quando uma célebre rede de lojas de Detroit, a Hudson's (algo como as Lojas Americanas, para nós) se recusou a distribuir cópias do citado primeiro disco da banda. Adivinha por quê? Em um pequeno texto na contracapa, podia-se ler a arrepiante frasezinha que era o grito de guerra do MC5 nos shows: "Kick out the jams, MOTHERFUCKER!" (algo como: "Chutem tudo pra fora, seus FILHOS DA PUTA!").

Assim, evidentemente, rebeldes como eram, os garotos do MC5 (Rob Tyner - vocais, Wayne Kramer e Fred Smith - guitarras, Michael Davis - baixo, e Dennis Thompson - bateria) logo armaram uma revanche contra tal boicote. E ela veio na forma de garrafais "Fuck Hudson's" (Foda-se a Hudson's) estampados nas capas dos principais jornais underground e fanzines da cidade. Alguns cartazes com esta bela frase também foram colocados em postes próximos às lojas, e daí então a cara dos executivos da gravadora nunca mais foi a mesma para o MC5. Sem contrato para gravar e sem empresário nem nada (John Sinclair fora preso por porte pesado de droga, meses antes), os desamparados MC5 foram encontrar guarida em Jon Landau, um fantástico produtor de rock com idéias bacanas e que tinha em mente enxugar o grupo de todo seu lance de protesto e voltar ao básico: realizar um registro primal dos caras em estúdio, deixando tudo de lado para simplesmente se concentrar na música e tocar um bom e velho rock ‘n' roll. Portanto, se em Kick Out The Jams podíamos ouvir, a cada compasso ou intervalo entre as músicas, gritos de ordem e brados de guerra, o clima criado por este Back In The USA é bem diferente... O MC5 estava de volta ao seu melhor habitat, a garagem. O bicho começa a pegar já com uma obra-prima do rock, bem no comecinho do lado A, "Tutti-Frutti", de Little Richard, coverizada de maneira supersônica pela força desesperada da cozinha e com direito a um belo boogie das guitarras empesteadas de Kramer e Smith. Depois vem "Tonight", uma bela canção de rock, cheia de viradas avassaladoras de ritmo, alçada a hit do disco. "Teenage Lust" é a própria declaração do MC5 de volta às letras engajadas e elevando o tema do amor livre à condição de lei. Em "Let Me Try", o mais belo momento do disco, nos deixamos levar por uma balada de amor envolvente, e cujo embalo soul enternecedor nos leva a crer que o MC5 era uma grande banda por trás da sua ingênua imagem punk de arruaceiros! A voz de Rob Tyner cria uma pungente nuance de tonalidade inesquecível... Mas, na faixa seguinte, estamos de volta à pauleira, e a correria desenfreada de "Looking At You" culmina com Wayne Kramer nos entregando um dos seus mais dementes solos de guitarra nesta canção, simplesmente cortante! "High School" e "The American Ruse" são mais duas barulhentas incursões pelo sonho americano virado de cabeça para baixo pela geração hippie, ao passo que "Call Me Animal" é um elogio à selvageria pesadíssimo e com um refrão grudento. No final do disco, estão alguns de seus melhores momentos: "Shakin' Street" é a comprovação de que o guitar man Fred Smith (o '’Sonic") deveria ter sido o Keith Richards do punk rock. Este blues viscoso e malandro, momento supremo para o guitarrista desfilar sua voz venenosa numa canção que fala sobre a realidade das ruas de Detroit, é um marco para o rock. E logo após, "The Human Being Lawnmower" chega com a maior cara de The Who (grande influência do MC5), num estilo que muitos chamariam posteriormente de "semi-opereta rock", tal a mudança de ritmos e variações, enquanto guitarras ensandecidas rasgam a pulsação vibrante do baixo-bateria ao meio para Tyner cantar sobre a maldição do pesadelo militarista que descambou em guerras como a do Vietnã. De repente, tudo termina com "Back In The USA", a faixa que dá título ao disco, ironicamente, um simples rock ‘n' roll bem sabor anos 50, e verdadeira homenagem do MC5 a um dos pais do gênero, o negão Chuck Berry, autor da canção.

Para terminar, basta dizermos que este imprescindível registro de uma era em que a criatividade imperava no rock forma, junto com Raw Power (1973), dos Stooges, um par de discos com o som muito agudo, rápido e zoado (rata dos engenheiros de som ou manha proposital?), que acabaria moldando o estilo de se mixar discos de punk rock anos mais tarde. Jon Landau, o produtor, afirmou posteriormente que a verdadeira intenção era gravar um disco de rock o mais alto possível, e para isso acabaram tirando um pouco o peso dos graves e levando o agudo ao talo, o que deixou as guitarras com um som endiabrado! Na época da edição em vinil, muitos alegaram que o baixo de Michael Davis havia sumido na gravação, o que não deixa de ser verdade, mas agora, restaurado em CD pela Rhino Records, selo especializado em raridades, este disco mostra toda a sua potencialidade instrumental, e é um item básico para todo bom roqueiro que quer ir fundo nas raízes do som que já fez a glória de bandas como Sex Pistols, Dead Kennedys, e até o recente Green Day.

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Sobre Denio Alves

Denio Alves, natural de Valença-RJ, é crítico, escritor, ensaísta, diletante de poesia, ouvinte e praticante, nas horas vagas, de rock e todas as demais formas de música popular ou de vanguarda que do gênero advenham. Além de técnico em computação, professor de inglês e estudante de Direito, é também pesquisador cultural e artístico das demais mídias de expressão e comunicação, já havendo atuado como colaborador de diversos fanzines na década de 90 do século passado e fundador do célebre veículo alternativo Eram os Deuses Zineastas?. Participou ativamente, em Ituiutaba-MG, onde reside, do processo de formação e criação das bandas de garagem Bloody Garden e Essence, ao lado de Edgar Franco, Gazy Andraus e demais personalidades do underground do Triângulo Mineiro, como guitarrista, vocalista e compositor. Atualmente, participa da concepção de um novo projeto de expressão do RPB - Rock Popular Brasileiro, o Mondo Cane, além de colaborar periodicamente com artigos no site WHIPLASH.

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