Resenha - Supermercados da Vida - Barão Vermelho
Por Rodrigo Rocha
Postado em 03 de julho de 2003
Dez anos é uma barreira mítica no mundo do rock and roll. Bandas como Sabbath e Led Zep chegaram a essa marca em meio a pesadas crises, os Beatles acabaram antes, os Stones lançaram um clássico absoluto do rock (Exile on Main Street), o Purple havia acabado em meio a um mar de drogas (tá, tá: voltariam alguns anos mais tarde), e por aí vamos.
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Atingindo essa marca (em 91) o Barão Vermelho lança, após uma exitosa tour comemorativa dos dez anos de carreira, o disco "Supermercados da Vida". Como não poderia deixar de ser, mais uma mudança de formação: sai Dadi, apesar de plenamente adaptado, que aceita convite para tocar na banda que excursionaria junto com Caetano Veloso na tour comemorativa (outra?) dos 50 anos de idade do cantor baiano, e entra Rodrigo Santos (ex-Lobão), que logo conquistaria os fãs da banda com seu jeito extrovertido e simpático.
Depois do sucesso do Na Calada da Noite, a banda planejava vôos mais altos, mesclando então seu rock calcado no r & b com outras influências, do Jazz ao Folk, passando até pela Valsa – tudo com a "cara" do Barão. Outro sucesso, outra tour gigante, Frejat e companhia atingiam então seu objetivo: levar o Barão ao seu devido lugar: uma das maiores bandas do rock brasileiro.
Agora, o disco, faixa a faixa:
FÚRIA E FOLIA: Rock and roll clássico temperado com uma percussão criativa. Mas as guitarras falam mais alto, e Frejat está cantando muito. Um dos pontos altos do disco.
ODEIO-TE MEU AMOR: Homenagem bem sacada ao rock paulistano dos anos 70 (Tutti Frutti, Made in Brazil) calcada, sobretudo, no senso de humor já visível no título. Bateria na cara, guitarras bem colocadas, e um piano bem tocado por Guilherme Arantes dão a tônica.
PEDRA, FLOR E ESPINHO: A música de trabalho do disco. A letra bem sacada (sobre sexo) de Dulce Quental e a guitarra grave de Fernando Magalhães acompanhando a harmonia da voz dão um aspecto "noturno" a esse som, casando bem com a letra.
FLORES DO MAL: Balada acústica, acompanhada pela bela sanfona do mestre Sivuca. A boa letra de Guto Goffi evoca a poesia de Baudellaire, o que por si só já fala muito.
AZUL AZULÃO: Blues "shuffle", com peso das guitarras em cima. A letra meio estranha procura dar um clima "tropical" à música, o que causa estranheza no início, mas depois terá vontade de sair cantando "Azul muito azul azulããããão...".
FOGO DE PALHA: Outra balada, desta vez com um violão de aço e um slide muito bacana. Outra boa letra.
FIOS ELÉTRICOS: Parceria entre Clemente (Inocentes) e Frejat, da época em que Frejat produziu a banda punk paulistana. Um funk, com uma letra bem urbana e um grande solo de guitarra, totalmente no estilo "Frejat".
SUPERMERCADOS DA VIDA: Essa segue a linha de "Fúria e Folia", mas a letra aqui não colabora.
SOMBRAS NO ESCURO: Um dos pontos mais surpreendentes e positivos do disco, essa música apresenta um compasso de valsa, dentro de um arranjo muito criativo e de uma letra que não perde o pique. Um dos grandes êxitos artísticos do Barão Vermelho e (por que não?) do rock brasileiro.
CIDADE FRIA: Um rock soturno e triste, onde as guitarras são o ponto forte, especialmente o slide executado por Frejat. Outra boa letra.
A NOITE NÃO ACABOU: Contribuição de Peninha, a música remete a Pense e Dance, e a letra é bem no estilo de Peninha: vida noturna, goró e sexo.
COMENDO VIDRO: Outra ousadia, aqui em forma de um arranjo jazzy – outra letra que não ajuda muito, tornando um arranjo interesante numa música repetitiva.
PORTOS LIVRES: Linda música, outro ponto alto do disco. Outra bela contribuição de Dulce Quental, um arranjo primoroso, onde a interação entre os instrumentos se destaca. Se for pra citar um destaque individual, fica para o belo solo de Frejat.
MARCAS NO PESCOÇO: Música um tanto cinematográfica, noturna e misteriosa. Remete a algum thriller policial dos anos 90.
Um disco que, realmente, remete à maturidade da banda. Ousando e ao mesmo tempo obtendo sucesso comercial, o Barão Vermelho prova aqui que é possível fazer parte do chamado mainstream fazendo música de qualidade.
Ano: 1992
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