Resenha - Cold White Light - Sentenced

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Por Leandro Testa
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Nota: 10


Torna-se cada vez mais raro encontrar bandas que depois de longos anos de estrada se mantenham fiéis à proposta do inicio de carreira. A atitude muda, o som também, os fãs muitas vezes vem e vão, e em alguns casos, se não há renovação, o som torna-se maçante e logo é taxado de "datado". Felizmente este nunca foi o caso do Sentenced, que do denominado 'puro death metal europeu' de 1989, foi sofrendo expressivas mutações e chega a este 7º álbum com um som bastante melodioso (e conceituado), muito distante do praticado em seus primórdios, sendo até difícil de se rotular. Enquanto exegetas dos quatro cantos do mundo ainda os considerem gothic/doom, numa lembrança da terceira fase do grupo, bato o pé e uso uma porcaria de definição que há muito tempo ouvira falar, achara ridícula, mas não tendo escapatória, tive de aderir a ela (fazendo a alegria dos rotuladores de plantão). Não há outro termo que represente melhor a música contemporânea do quinteto finlandês senão "Death n' Roll" (calcado no gótico), pois as composições de "The Cold White Light" (em geral) imprimem um pouco mais de velocidade em relação aos discos mais recentes, e sofre um singelo decréscimo de peso se comparado ao seu antecessor, "Crimson" (2000), tendo um CLIMA mais rock n' roll, ou seja, menos 'mid tempo'/arrastado, o que justificaria esta possível tentativa (frustrada) de denominar a música dos "matadores do extremo-norte".

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Bem se sabe que a saída de Taneli Jarva (vocal/baixo) em 1996 deixou muitos órfãos, afinal as vendagens do último "full-length" de que participara foram muito boas em todo o globo terrestre. Mas foi com "Down" (1996) e o recrutamento de Ville Laihiala para os vocais que se concretizava um merecido reconhecimento à banda, já que esta nova empreitada recebeu diversas críticas positivas em publicações especializadas, tendo inclusive sido aclamado como "álbum do mês" nas revistas alemãs Rock Hard e Metal Hammer. No ano seguinte, o baixista convidado para as turnês, Sami Kukkohovi, foi efetivado, e assim se configurou o 'line-up' que permanece até hoje.

Daquela época, as guitarras sujas se fazem presentes, os maravilhosos solos também, porém a voz de Ville está bem diferente, menos rouca e muito melhor. "Down" foi um bom álbum, "Frozen" (1998), tentou manter o nível, mas "Crimson" definitivamente me encantou, e felizmente tamanha qualidade também se evidenciou em "The Cold White Light". As vendagens, por sua vez, estão indo muito bem: a banda ganhou disco de ouro na sua terra-natal devido às 15.000 cópias vendidas deste último trabalho (em menos de cinco meses), que entrara, assim como "Crimson", diretamente em primeiro lugar no ranking oficial dos mais vendidos (Top 40), permanecendo no topo durante duas semanas, e obtendo também posições privilegiadas nos três meses adicionais em que esteve ali presente.

Parece que a pausa de sete meses antes das gravações, sem que um integrante falasse com o outro, fez bem à banda, cessando as brigas que surgiram nas extensas turnês de "Crimson" e trazendo uma musicalidade empolgante, renovada. Aliás, "The Cold White Light" se sobrepõe aos demais já citados, pois não há sequer um 'tapa-buraco', sendo todas as músicas excelentes, num álbum para se ouvir de ponta a ponta, agitando como louco e com um sentimento de bem-estar inacreditável. Interessante isso, não? Como uma banda que injeta doses cavalares de melancolia em suas letras, sendo muitas até suicidas, pode nos deixar tão bem? Simples: resultado de uma força centrífuga de energia cativante na parte instrumental. E por falar em letras, ainda que elas estejam cada vez mais maneiras, não é de se esperar algo diferente de um conjunto oriundo da nação que possue um dos maiores índices de alcoolismo e suicídios no mundo, talvez decorrente do seu inverno rigoroso, e por ser difícil para um ser humano ver a luz do sol apenas algumas horas durante o ano (praia, então... nem pensar); assim, o jeito é apelar para o sarcasmo: o que uma música cujo título é "Excuse Me While I Kill Myself" poderia conter? Um humor negro impagável, é óbvio. Esse lado brincalhão também é transparecido nos arranjos, já que no meio de faixas como "Neverlasting" e "Blood and Tears" eles se dão ao luxo de dar uma 'zuada', prova da boa fase pela qual o Sentenced passa (nada a ver com aquele arroto cretino de "For the Love I Bear" do álbum "Frozen").

O primeiro vídeo/'single' foi "No One There", que, comercializado antes do álbum, também obteve vendas bastante satisfatórias. Segundo a banda, a tarefa de decidir qual música era a mais indicada para sê-lo, foi difícil, já que todas elas ficaram sensacionais. Concordo plenamente, e por esse motivo, digo que "The Cold White Light" é indispensável, obrigatório, sendo até o presente momento, em minha humilde opinião, o melhor CD lançado neste ano.

"Há somente uma forma de se vir a este mundo
mas tantos modos de se deixá-lo" (Loppaka)

Duração - 45:39

Faixas:
01) Konevitsan Kirkonkellot*
02) Cross My Heart And Hope To Die
03) Brief Is The Light
04) Neverlasting
05) Aika Multaa Muistot [Everything Is Nothing]**
06) Excuse Me While I Kill Myself
07) You Are The One
08) Blood & Tears
09) Guilt And Regret
10) The Luxury of a Grave
11) No One There

* "Konevitsan Kirkonkellot" significa os sinos da igreja de Konevitsan, um local histórico localizado no leste da Finlândia. Esta música é uma canção tradicional do meu país, nós só fizemos uma versão pesada e melancólica, mas resolvemos manter o título original porque achamos coerente.

** A outra música "Aika Multaa Muistot" é um ditado finlandês que significa alguma coisa como "o tempo enterra nossa memória". Quando o tempo passa, você se esquece das coisas ruins e se lembra apenas das coisas boas. Mas nessa música invertemos o ditado de modo que lembraríamos somente das coisas ruins e esquecêssemos de todas as coisas boas que acontecem com a gente". (Sami Lopakka)

Formação:
Ville Laihiala (vocal)
Miika Tenkula (guitarra-solo)
Sami Lopakka (guitarra-base)
Vesa Ranta (bateria)
Sami Kukkohovi (baixo)

Site Oficial - www.sentenced.org

Situação curiosa:

Antes mesmo do lançamento do álbum, acessei o menu de "Perguntas" do website oficial da banda e acabei encontrando a seguinte mensagem enviada por um potiguar:

"pleeeeeaaaaaasssssseeeeeeeeee!!!!!! come from Brazil is a dream for me watch a show of sentenced is possible?" Esforçando-me em traduzir para o português (com a devida pontuação), ficaria algo assim: "por favor! Venha DO Brasil. É um sonho para mim assistir a um show do Sentenced. É possível?"

Como de praxe, algum integrante da banda as responde, e Lopakka, que neste caso o fez com muito bom humor, escreveu: "Nothing's impossible, even us coming from Brazil" - "Nada é impossível, até mesmo nós VINDO do Brasil".

Uma garota a leu, não decifrou a pergunta, nem entendeu a resposta, e revoltadíssima, retrucou que "even Brazil" era um ultraje, tendo interpretado isso como um pouco caso contra o nosso país.

Lopakka deve ter pensado que nós brasileiros somos loucos ou bebemos tanto quanto eles...


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