Resenha - Lions - Black Crowes

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Por Carlos Roberto Merigo Filho
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A alma que canta

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Quando se fala em Rock 'n Roll nos dias atuais, uma das primeiras bandas que me vem a cabeça é The Black Crowes. Desde 1990, são 5 excelentes álbuns de estúdio lançados. Entre eles, alguns dignos de discografia básica.

O último disco, "By Your Side", lançado em 1998, é um dos mais bem sucedidos da banda. Incluindo diversas músicas "radiofônicas" que serviram para que o grupo de Atlanta começasse sua entrada em território brasileiro. Não é para menos, o disco é uma aula de como se fazer o verdadeiro rock 'n roll em uma mescla perfeita com blues e muitas vezes com soul music.

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Ao invés de mais rock/blues puro como nas canções "Jealous Again", "Remedy", "Wiser Time" ou outros clássicos da banda, o disco traz algumas inovações em sua sonoridade. E apesar da psicodelia herdada do trabalho "Three Snakes And One Charm", o novíssimo "Lions" está pintando como um dos melhores discos do ano. Lançado pela V2 Records e produzido por Don Was, o trabalho vem arraigado com a eterna mistura apaixonada da banda: rock, blues, soul music e por vezes um tira gosto com o reggae. O desafio sonoro e emocional mais distinto da banda.

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O disco foi gravado em um lugar improvável: Yiddish, um velho teatro musical na baixa Nova York, que foi transformado em um estúdio de gravação com uma acústica notável. O local trouxe as sessões de estúdio a virilidade e o calor dos shows ao vivo.

Combine a poderosa crueza da primeira faixa "Midnight From Inside Out" (e sua introdução arrepiante) com as inflexões sentimentalistas de "Greasy Gass River", a simplesmente alucinante "Soul Singin", os riffs no mais puro estilo Zeppliano de "Cosmic Friend" e as torções melódicas do primeiro single "Lickin", e o que você tem? A resposta: Mais um álbum clássico dos corvos negros.

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Este é o primeiro disco após a saída do baixista Sven Pipien. Para ocupar o seu lugar, a banda recrutou Audley Freed, que já tocou com o Cry Of Love. Muitos fãs não aprovam o estilo de Audley, acusado de tocar sem emoção nos shows. Mas com essa mudança ou sem, a verdade é que o novo disco soa diferente, mas sustentando sempre o estilo Black Crowes.

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Não há nenhuma frase fácil para encapsular toda a música de "Lions". É às vezes pesado e rouco. Há riffs corpulentos e entradas ferozes. Também possui uma grandeza acústica incrível. A produção é despojada, atraentemente baixa em algumas canções e tecida de modo vívido em outras.

"As pessoas nos perguntam que tipo de música nós tocamos", conta o guitarrista Rich Robinson, "Respondemos que tocamos a música dos Black Crowes, um som para a alma."

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Rich nem precisava se dar ao trabalho de explicar, é só ouvir a oitava faixa "Soul Singin" e perceber como o som da banda é feito com paixão. Rhythm & Blues, a voz rouca de Chris Robinson e um belo coro no melhor estilo soul music, que chega a emocionar qualquer ouvinte, fazem desta a melhor música do disco.

A canções são sobre a necessidade e o desejo de sobrevivência da alma. "Lions" é chocante, estremecedor e profundo. Sem mencionar o espírito redentor e jovial que é enaltecido nas composições. Uma mistura pungente de verdades cruas e auto-realização.

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Chris Robinson admite que corvos são animais diferentes. "Essa música da moda, que toca no rádio, realmente não me inspira ou me emociona," declara ele. "Não que eu não esteja aberto as mais recentes tendências do Rock ou que eu não tenha mantido as orelhas abertas, é que realmente eu estou pouco interessado em coisas diferentes. Música é uma paixão que consumo durante toda minha vida, gosto de ouvir e de fazer."

Chris continua: "Não ouço nada nas rádios que tenha alma. A música atual é uma competição como uma copa do mundo de Futebol ou uma temporada de luta-livre, só fazem pelo dinheiro. A música virou algo somente profissional e comercial. Nosso som vem de um lugar diferente, queremos música com paixão, por isso somos mais influenciados por R&B e Heavy Metal".

"Queremos nossas músicas com alma, o verdadeiro Rock 'n Roll, e faremos isso com as únicas ferramentas que temos: nossos sentimentos. Este novo disco é uma acumulação de experiências, das coisas que acontecem em sua carreira e que acontecem em sua vida. Dentro disso, penso que Lions é o melhor disco que fizemos, é justo que o tempo, outra situações, produtores e lugares em nossas vidas soem tudo um pouco diferente."

A faixa "Come On" remete diretamente aos primórdios da banda, parece saída do primeiro disco "Shake Your Money Maker", uma pérola. As experimentações de "No Use Lyin'" diferem do resto do álbum e a bateria de Steve Gorman continua mortal.

Ao realizar a tour com Jimmy Page, os irmãos Robinson viraram uma página em suas carreiras. Muitas das músicas de Lions possuem um "q" de Led Zeppelin, o que prova o quanto a banda aprendeu tocando com um dos mais respeitados guitarristas da história do Rock.

Embora a lisérgica "Cosmic Friend" soe merecedora até de constar no track list de "Houses Of The Holy", Chris Robinson não admite isso. O vocalista declara: "Cosmic Friend é uma canção estranha com uma marca de tempo misteriosa e elementos de reggae. Todo mundo diz que parece Led Zeppelin, mas acho que não tem nada ver com Jimmy Page."

"Ozone Mama" pode soar um pouco estranha para alguns fãs mais conservadores, já que começa com uma distorção eletrônica e abusa do groove. Bastante experimentalismo, mas a marca "blueseira" de sempre. A arrepiante "Losin' My Mind" carrega uma incrível dose de emoção, tudo devido ao estilo já tradicional de Chris Robinson e as intervenções individuais das guitarras.

Apesar da linda "Miracle To Me" não ser comparável as outras baladas clássicas da banda como "She Talks To Angels" ou "Thorn In My Pride", pode ser eleita como uma das melhores do disco, destacando-se a belíssima letra. A pesada "Cypress Tree", que começa como uma balada, mostra a banda em perfeita sintonia, o que prova o amadurecimento dos irmão Robinson nesses 13 anos de carreira. O pesado blues percusivo em "Young Man, Old Man" e a épica "Lay it All On Me", mostram mais experimentações da banda que fecham o disco em grande estilo.

O resultado final é surpreendente, um excelente álbum. Apesar de ficar atrás de "Shake Your Money Maker" e "The Southern Harmony And Musical Companion", "Lions" traz um Black Crowes viril, genuíno e apaixonado. Peça indispensável em sua coleção de Cd’s. E como diria Rich Robinson: "Não é preciso vender 60 milhões de cópias para continuarmos fazendo o que gostamos."

Deixar de apreciar Black Crowes atualmente chega a ser herege para a religião Rock ‘n Roll, por isso aproveite "Lions" para conhecer esta que é, seguramente, a melhor banda de rock surgida nos últimos tempos.

Track List:
1. "Midnight from the Inside Out"
2. "Lickin'"
3. "Come On"
4. "No Use Lyin'"
5. "Losin' My Mind"
6. "Ozone Mama"
7. "Greasy Grass River"
8. "Soul Singin'"
9. "Miracle to Me"
10. "Young Man, Old Man"
11. "Cosmic Friend"
12. "Cypress Tree"
13. "Lay it All on Me"

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Sobre Carlos Roberto Merigo Filho

Louco por Rock 'n Roll de todos os tipos desde sua criação até os dias de hoje, infelizmente não toca nada. Suas bandas preferidas são Kiss, The Black Crowes, Aerosmith, The Cult, Iron Maiden, Black Sabbath, Queen, Camisa de Venus, Velhas Virgens, etc.

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