Resenha - Into the Electric Castle - Ayreon

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Por Leandro Testa
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O que você acharia de um enredo que quase virou (ou quem sabe, virará) um filme de animação? Pois é, Arjen Anthony Lucassen, o "cérebro" do Ayreon, foi procurado há algum tempo por dois sujeitos com quem assinou contrato e acordou um adiantamento imediatamente pago, a fim de se oficializar o projeto. Para a felicidade dos envolvidos, em seguida a Warner Bros. também se interessou, e o orçamento "foi lá pra cima", permitindo que a genialidade de um ‘simples’ músico holandês fosse transformada numa grande obra de alcance mundial. Mas, como sempre há um "porém", depois de tudo acertado, tais planos foram engavetados e não se ouviu falar mais nada sobre eles, o que, segundo palavras do próprio Lucassen, é algo "muito estranho e desapontador".

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Entretanto, para que nós, amantes da música, precisamos de um filme 3D, se a própria base dele contém uma musicalidade extraordinária que não poderia ser apreciada numa telinha consoante ao merecido? Certamente o longa-metragem seria um bom "complemento", desde que isso atraísse a atenção daqueles que gostam de um bom rock/metal progressivo, e nunca tiveram acesso a uma das mais belas e preciosas pérolas do estilo, devido a um certo anonimato que este projeto tem para com o grande público.

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Antes de mais nada, vale ressaltar que o tiozinho multi-instrumentista é um cara merecedor de respeito: tem mais de vinte anos de carreira, e quase o mesmo número de discos de estúdio lançados, sendo a grande maioria pela sua antiga banda, o Vengeance. Além deste, possue com o Ayreon mais quatro álbuns, e de forma incansável, incursou mais recentemente em outros dois projetos, o atmosférico Ambeon, e para contrabalançar, um voltado ao prog-metal pesado, o Star One. "Mas, moço, ele já tem cabelos brancos?" Que nada! Nasceu há somente 42 anos, e na época do lançamento de "Into the Electric Castle", em 1998, tinha mais ou menos "um motor 3.8".

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Contudo, focando-nos apenas no Ayreon e explicando um pouquinho melhor a sua trajetória, depois desse disco duplo o ambicioso Arjen resolveu fazer mais um, com ainda mais convidados especiais (ou seria "espaciais"?), só que desta vez os lançou de forma separada. O primeiro, "The Dream Sequencer", é uma pura "viajeira" retilínea, em que podemos destacar as sempre agradáveis vozes de Lana Lane e Damian Wilson, embora, até o momento, eu somente o tenha utilizado para quando estava sem sono (é um bom remédio para quem sofre de insônia e deve ser tomado em doses homeopáticas). O segundo, "Flight of the Migrator", acaba por justificar tal cisão, pois é totalmente diferente, e investe num prog/power metal generosamente abrilhantado por personalidades como Bruce Dickinson, Fabio Lione, Ralf Scheepers, Andi Deris, Timo Kotipelto, Russel Allen, ou seja, aclamados nomes da música pesada, fato que propulsionou astronomicamente a popularidade da banda, assim como fez os fãs correrem freneticamente atrás dos seus trabalhos anteriores, como este que vos resenho.

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Nem se juntássemos todos eles, resultariam no estilo que "Into The Electric Castle" traz, e talvez, por isso, o álbum tenha sido denominado "A Space Opera", uma boa dica do que ele apresenta, devido ao uso irremediável de teclados, sintetizadores e do famosíssimo Hammond nesta autêntica ópera-rock. A maior influência de Lucassen é declaradamente o Pink Floyd, mas não pense que sua função é plagiar esta maravilhosa banda, já que ele bebe da fonte de tantas outras dos anos 60 ou 70. Por isso o som é "antigo" e concomitantemente original, pelo fato de conter muitos elementos da música moderna, como o peso, fazendo a felicidade de quem esperava há anos por uma nova obra dupla, conceitual e que resgatasse os melhores momentos ‘da desordem e do progresso’. Demorei a perceber o que tinha em minhas mãos, e para falar a verdade, à primeira audição a achei estranha, deixei-a guardada em minha prateleira, até ouvir com calma, atenção e me indagar como poderia ter perdido tanto tempo sem essa maravilha em minha lista de favoritos (que não faz parte só da minha, mas também da de Uli Kusch, ex-baterista do Helloween, atual Masterplan).

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A despreocupação em se executar as músicas do Ayreon ‘ao vivo’ sempre deu a Lucassen muita liberdade de criação e por isso tantos instrumentos e vocalistas diferentes são utilizados em seus álbuns, principalmente em "Into The Electric Castle". E a propósito, gostas de Marillion? Tem Fish nos vocais representando a personagem "Highlander". Gostas de The Gathering ou Within Temptation? As garotas também estão ali, respectivamente como "egípcia" e "índia", e o próprio Arjen se arrisca a interpretar um hippie ‘paz e amor’, algo que explicarei mais adiante. Ademais, também participam dele Edwin Balogh (romano), Damian Wilson (cavaleiro) e mais dois que já haviam participado do projeto, Edward Reekers (homem do futuro) e Jay van Feggelen (bárbaro, ex-Bodine, banda da qual Arjen também fez parte). E você se pergunta: "QUEM????". Não se preocupem, os caras massacram muitas vozes famosas. "Nossa que ‘mistureba’!!! Pra que tanta gente???" Pois está aí a base da trama: tantas "culturas relacionadas" de diferentes eras no tempo, são trazidas a uma dimensão desconhecida e devem encontrar o castelo elétrico, formado pelos seus próprios sonhos e temores, onde estão os portais nucleares que os levarão de volta para seu local/tempo de origem. "Mas, por quê?" Isso eu não posso adiantar, mas aconselho que mesmo se o seu inglês for "de sobrevivência", tente ler o encarte, já que se torna muito mais gostoso ouvir ao álbum conhecendo o enredo e a construção das falas. E só para ratificar: ele não é bobinho como parece ser; aliás, tente descobrir o esquema que há por detrás de tudo e cuidado para não ser abduzido...

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A trama não chega a ser uma "Caverna do Dragão", pois ninguém ali conhecia qualquer dos seus colegas de infortúnio, cada um tem suas próprias crenças, alguns morrem (o que não acontece no desenho) e ainda faltaria o Uni e o Mestre dos Magos (he he), a despeito da existência de uma entidade (narração) que se identifica como "Forever", guiando-os constantemente desde o começo da história. Nos mais diversos diálogos o instrumental se adapta ao momento da fala da personagem, e a despeito de se tratar de um álbum "sério", não tem como não se divertir quando o romano e bárbaro disputam a liderança do grupo, ou quando o cavaleiro não entende nada do que o homem do futuro diz. Portanto, os cantores literalmente conversam, ao contrário de "Flight of the Migrator", em que, não se tratando de uma ópera-rock, cada um se restringe à sua própria música.

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As influências, como eu já disse, são muitas e para citar apenas algumas delas, basta dar uma espiada na lista de artistas que ele tentou, tentará ou sonhará ter nos seus próximos álbuns: Robert Plant, Paul McCartney, Steve Walsh (Kansas), Geddy Lee (Rush), Ronnie James Dio, Rick Wakeman, Keith Emerson (ELP - com quem chegou a entrar em negociações), David Gilmour (com quem já fez uma entrevista e pode-se considerar satisfeito, pois que fã neste mundo conseguiu uma façanha destas cara a cara?), e outros que infelizmente não pode mais chamar, como Powell, Lynott e Lennon.

De qualquer forma, eu destacaria a fase ‘psycho’ dos Beatles ("I am the Walrus") em "Inside the Mirror Maze", protagonizada pelo hippie e pelo homem do futuro, e o folk do Jethro Tull em "Flying Colours" com um excelente solo de flauta de Thijs Van Leer da banda Focus, outra parte integrante do seu caixote de inspirações. Aliás, a intenção inicial de Lucassen era incluir Ian Anderson neste posto, porém ele estava saindo de férias, e logo depois faria uma turnê, o que o fez recorrer a esta segunda (e boa) opção. O papel do hippie foi algo mais complicado: a primeira tentativa de recrutamento foi um cara chamado Donovan, que se recusou e indicou Jon Anderson (Yes). O e-mail que ele forneceu era antigo e assim, lá estava Arjen, de volta à estaca zero. Inusitadamente, ele conheceu o cantor Mouse, cujo timbre lhe chamou muita atenção e não obstante ao seu jeito assaz burocrático, gravou as partes que lhe foram confiadas. Dias depois, quando soube do crescimento do projeto, o "olho" de seu empresário aumentou proporcionalmente, sendo então convidado a se retirar. Mas foi aí que Arjen desanimou, pegou o microfone e incorporou a parte da obra que remetia ao já citado ‘gênio de Liverpool’ (mais tarde, de certa forma, ele relevou o ocorrido, tanto que o camundongo acabou participando do álbum seguinte, o "The Dream Sequencer").

Retomando o comentário a respeito de "Flying Colours", ou melhor, sobre a canção inteira, "Amazing Flight": meu amigo, que música! Seu começo é bem bluesy por conta do vocal, num show de Jay van Fegellen, com solos de guitarra memoráveis e depois fica bem atmosférica em "Stardance". Adiante o instrumental me deixa em surto: é veloz e como eu já disse tem um solo "agressivo" de flauta muito bem encaixado, depois um curtinho de piano, um de violão, e novamente o de guitarra, irrepreensível. A bateria mais uma vez arregaça com tudo, sendo incrível e duvidoso que Ed Warby a tenha gravado em somente dois (sim, dois) dias. Definitivamente, um dos grandes destaques do CD, assim como posso afirmá-la como sendo a melhor música do estilo que eu já ouvi na minha vida (e percebam que estou apostando alto). Portanto, faça um favor a si mesmo: não morra sem antes poder ouvi-la.

O segundo CD pode ser considerado tão imprevisível quanto o primeiro: tem partes de jazz em "Tower of Hope ao passo que "Cosmic Fusion" reserva aos ouvintes uma desagradável surpresa, um encontro com aquilo que mais tememos nesta vida terrena, prova da ousadia de Lucassen em incluir elementos inimagináveis na música progressista. Toda a obra é um exemplo impressionante de ecletismo, é bastante solta, flui magnificamente e por isso a considero melhor que qualquer outra já feita por ele, seja ela "Flight of the Migrator" ou o ainda assim grandioso Star One. Eu poderia ficar aqui digitando por horas, comentando a origem do nome Ayreon, citando cada um dos cinco tecladistas convidados, a produção impecável, mas de que serviria, se cada solo executado por Lucassen é dotado de um feeling encantador, e fala por si próprio contra quaisquer mil palavras escritas por este jovem brasileiro? Somente ouvindo "Into the Electric Castle" para se ter uma noção da sua grandiosidade, e afirmo que com esse trabalho o mestre holandês se eterniza no "Hall do Progressive Rock". É desta forma que faço juras de amor eterno a ele (veja bem estou falando do álbum), pois sei que, se Deus permitir que eu fique velhinho, o escutarei mesmo quando não desejar ouvir um só barulho do mundo, principalmente os feitos pelos meus netos quando eles estiverem puxando a minha longa barba branca (barba, porque cabelos eu quase não tenho mais...).

Disco 1 (47:25)
1. Welcome to the New Dimension — 3:05
2. Isis and Osiris — 11:11
a. Let the Journey Begin
b. The Hall of Isis and Osiris
c. Strange Constellations
d. Reprise
3. Amazing Flight — 10:15
a. Amazing Flight in Space
b. Stardance
c. Flying Colours
4. Time Beyond Time — 6:05
5. The Decision Tree (We're Alive) — 6:24
6. Tunnel of Light — 4:05
7. Across the Rainbow Bridge — 6:20

Disco 2 (57:12)
1. The Garden of Emotions — 9:40
a. In the Garden of Emotions
b. Voices in the Sky
c. The Aggression Factor
2. Valley of the Queens — 2:25
3. The Castle Hall — 5:49
4. Tower of Hope — 4:54
5. Cosmic Fusion — 7:27
a. I Soar on the Breeze
b. Death's Grunt
c. The Passing of an Eagle
6. The Mirror Maze — 6:34
a. Inside the Mirror Maze
b. Through the Mirror
7. Evil Devolution — 6:31
8. The Two Gates — 6:28
9. "Forever" of the Stars — 2:02
10.Another Time, Another Space — 5:20

OBS - Falar sobre os bons predicados do álbum é muito fácil, mas há um detalhe que não me agrada nele, que são algumas passagens das duas vocalistas, daquela forma bem ‘fininha’, e que acabam não se encaixando perfeitamente em seus respectivos trechos. Fora isso, não perca tempo: pode comprar.

Website oficial: http://www.ayreon.com

Lançado no Brasil via Hellion Records.

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