Mastodon #6: The Hunter
Por Ricardo Cunha
Fonte: Esteriltipo
Postado em 08 de abril de 2019
"Uma síntese de tudo o que a banda fez até aquele momento"
Ao se lançar num projeto conceitual de 4 álbuns que durou uma média de 10 anos, entre composição, gravação e turnês, o Mastodon deu prova indiscutível da sua genialidade que, inclusive, culminou com o atingimento da sua maturidade musical.
Então, os caras provavelmente estava ansiosos para experimentar e fazer tudo aquilo que desse na cuca. E, assim, eles fizeram!
A primeira delas foi trabalhar na composição, em 2010, da trilha sonora do filme Jonah Hex, um western cujo enredo é sambado, mas que as paisagens, cenários e acontecimentos parecem de alguma forma se relacionar com a música do Mastodon.pela capacidade que a banda tem de conectar elementos desconexos. Enfim, pareceu natural que a banda embarcasse nesse tipo de aventura até para expelir as toxinas acumuladas pela mecanicidade de qualquer processo humano.
Agora, livre das amarras auto impostas, – condição para a realização da empreitada dos quatro discos, – apenas dois anos depois do lançamento do seu último álbum, a banda já estava pronta para o próximo.
Depois de explorar os próprios limites com arranjos complexos, melodias elaboradas e de cantar de uma forma mais harmônica, o Mastodon parece haver atingido o equilíbrio necessário para elevar sua música. Desde então a banda decidiu seguir um estilo musical que está mais para um "não-estilo", ou seja, um som naturalmente "seu" com capacidade de agradar variadas gerações de amantes da música pesada.
The Hunter marca um passo importante na evolução da banda. A opção da banda em trabalhar com o produtor Mike Elizondo, cujo currículo registra experiências com artistas não-roqueiros como Dr Dre, Eminem e 50 Cent, pode causa desconfiança nos fãs mais fervorosos, entretanto, o que se ouve é um som claro e impregnado de Mastodon. Embora este que vos escreve prefira a produção mais dinâmica do trabalho anterior, Elizondo definitivamente empurrou os caras na direção daquilo que eles idealizaram e, assim, as músicas ficaram mais curtas e menos complexas, com ênfase na busca pela simplicidade.
Todavia, as mudanças estilística e sonora não podem ser inteiramente atribuídas ao novo produtor. Eles também convidaram um novo artista para a arte da capa. Além disso, mudaram seu método de escrita. Enquanto álbuns como Blood Mountain e Crack the Skye foram meticulosamente compostos e levaram muito tempo para serem produzidos, The Hunter foi gravado em apenas algumas semanas. Segundo os caras, as músicas foram escritas em grande parte na estrada, durantes a turnê com o Alice In Chains.
Aqui, vemos o grupo se libertando de muitos bloqueios conceituais. Ao invés de explorar um tema central e desenvolver os desdobramentos, eles escreveram músicas independentes umas das outras, músicas que são muito mais acessíveis para a maioria do metaleiros.
Há referências quase que explícitas aos artistas que os influenciaram como em Octopus Has No Friends, que evoca Rush; Stargasm, Pink Floyd; Curl of the Burl, Queens of the Stone Age (com quem os caras mantinham certa amizade) e outras que até hoje tento identificar onde, diabos, possa ter ouvido em algum momento da minha vida de "anti" especialista musical para assuntos de rock e metal.
Há momentos em que a banda parece haver se influenciado por sua própria obra, pois é possível perceber semelhanças com o trabalho anterior. A banda continua a escrever letras pessoais como fizeram em "Crack the Skye". A faixa-título, por exemplo, é sobre a morte inesperada do irmão do guitarrista Brent Hinds enquanto "caçava" (na verdade, o título provisório deste álbum era "Brother", mas a banda teve um insight de última hora e optou por "The Hunter".
Da mesma forma, a faixa final, The Sparrow, comemora a perda de um amigo da banda. Esta, para mim, é a melhor faixa de encerramento de um disco que o Mastodon já produziu, pois me emociona. Os vocais soam (talvez, intencionalmente) apáticos, cantados como se ele preferisse não estar lá, mas a instrumentação é impregnada de emoção. Isso torna o sentimento de perda mais real.
Este, certamente é um dos discos mais inovadores do Mastodon, mais despojado, mais acessível e menos "vejam como somos fodões"!, E uma das coisas mais legais de se dizer sobre The Hunter é que os fãs de seu material antigo, que sem dúvida priorizam mais os apectos "slugde", "vocais agressivos", "riffs com excesso de ganchos" e "composições mais quebradas" podem ou não aceitá-lo de bom grau, mas o fato é que o Mastodon é uma banda precosse e que numa comparação rasa, se assimilam muito ao Metallíca pelo fato de conseguirem se adaptar no presente às tendências mercadológicas e, assim, inovar num cenário altamente volátil como é o universo da música (num plano mais geral) e engessado como o universo do rock/metal (num plano mais particular). The Hunter se apresenta para este que vos escreve como uma síntese de tudo o que a banda fez anteriormente.
Referências: The BNR Metal Pages, Sea Of Tranquility, Buteco do Rock Podcast, Roger Ebert, @Mastodon.
Mastodon - A história e a discografia da banda
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