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Sepultura

Odair José: A saga da primeira ópera-rock brasileira

Por Edson Medeiros
Fonte: O Besouro Musical
Postado em 02 de novembro de 2015

"– Hei! Quem gravou a primeira ópera-rock brasileira?"

Se alguém lhe fizesse essa pergunta simples você saberia a resposta?

Se sim, parabéns! Se não, qual é o primeiro artista/banda que vem a sua cabeça?

Será que foi o Raul? Mutantes? Secos & Molhados? Titãs? O Terço? Ou será alguma banda brasiliense dos anos 80?

Não meus caros, o primeiro músico brasileiro a gravar uma ópera-rock foi o popularesco Odair José. Sim! Isso mesmo!!!

Odair José nasceu em 16 de Agosto de 1948, em Morrinhos, Goiás. Começou a escrever suas primeiras canções na adolescência influenciado principalmente pela música caipira brasileira e mais tarde por nomes do country americano como Hank Williams. Aos 17 anos trabalhou como crooner interpretando canções populares em bares, inferninhos e onde mais o deixassem entrar e cantar em troca de qualquer trocado.

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Fez parcerias e escreveu músicas para um punhado de artistas, e por meio do amigo Zé Rodrix – na época membro do grupo progressivo Som Imaginário – descolou um contrato com a WEA Records – e lançou seu disco de estreia em 1970. Daí para frente foi uma sucessão de álbuns e grandes hits como "Eu Vou Tirar Você Desse Lugar", "Cadê Você?" e "Uma Vida Só (Pare de Tomar a Pílula)".

Por ter um estilo romântico-açucarado foi apelidado de "O Terror das Empregadas" – que deliravam quando suas músicas tocavam nos velhos radinhos de pilha.

Apesar do sucesso popular, Odair nunca caiu nas graças da crítica que o classificava como um artista de baladas melosas, musicalmente inferior ao que rolava no Brasil nos anos 70.

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Também foi perseguido pelas alas mais conservadoras da sociedade por tratar abertamente de temas como sexo em suas letras – um grande tabu na época.

Apesar de seu estilo musical ser flexível podemos categoriza-lo como expoente do romântico-brega. Na mesma linha de artistas como Reginaldo Rossi e Waldick Soriano.

Agora é a hora de você fã de rock/metal começar a torcer o nariz! Mas gostemos ou não, Odair sempre foi diferenciado numa visão geral da música nacional. Suas letras apesar de românticas, trazem pitadas de ironia e bom-humor de forma muito inteligente e sua influência das músicas de raiz contrasta bem com os arranjos mais elaborados de suas canções.

Em meados da década de 70 Odair chegou a ser excomungado da igreja católica por se pronunciar a favor do sexo fora do casamento, este fato, entre outros o levou a manter-se recluso. Negando aparições em programas de TV que insistiam em associá-lo a conotações ofensivas como "O Terror das Empregadas" e "ídolo brega".

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Passou o tempo afastado ouvindo discos e lendo livros. Foi durante a leitura da obra O Profeta, do escritor líbano-americano Khalil Gibran, que teve a ideia de gravar um disco inteiro sobre a história de um profeta contemporâneo, contando como teria sido a vida de Jesus se ele tivesse nascido em tempos modernos.

Escreveu um total de 24 canções e levou a ideia para a Phillips. Os executivos da gravadora detestaram a ideia e se recusaram a lançar tal disco.

Contrariado, Odair não desistiu e foi conversar com a concorrente da Phillips, a RCA-Victor. Conseguiu assinar um contrato com a gravadora, mas teve de adaptar a obra original porque a RCA impôs a condição de que o disco deveria ser simples e não duplo como Odair planejava.

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Enxugou as canções ao máximo e foi para o estúdio com 10 temas.

Como estava ouvindo muito artistas como Peter Frampton, Joe Walsh e Jeff Beck, decidiu que gravaria um disco de rock operesco. Com guitarras, teclas e cozinha pesada.

Participarão das gravações: Jaime Alem (violão), Hyldon (guitarra), Robson Jorge (piano), José Roberto Bertrami (órgão e clarinete), José Lanforge (harmônica), Alex Malheiros (baixo) e Ivan Conti (bateria), os arranjos de cordas e metais ficou por conta de Don Charley.

Odair além de cantar, tocou violão, guitarra e ajudou o conceituado Durval Ferreira na produção do disco.

Com composições bem elaboradas O Filho de José e Maria retrata bem a vida do homem comum. O ser imperfeito, com relações familiares desgastadas, que acaba deixando-se cair nas armadilhas dos vícios e do sexo, que carrega consigo as perguntas que não poderão ser respondidas – "de onde venho?", "pra onde vou?", "qual o sentido da vida?".

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É musicalmente maravilhoso. Uma mistura interessante de gêneros, com cada músico contribuindo de forma importante para o excelente trabalho final.

Odair José consegue transitar vocalmente bem entre as emoções diferentes de cada uma das faixas. Os violões combinam perfeitamente com os sons delicados de órgão, a cozinha vai bem tanto nas baladas quanto nos temas mais pesados, o guitarrista Hyldon – que tocou muito tempo com Tim Maia – incrementou as músicas com sua pegada funk, o pianista Robson Jorge conseguiu transmitir a angustia do personagem em cada nota. Os arranjos de cordas de Don Charley ainda trazem uma sofisticação inestimável ao álbum.

Quando foi lançado em 1977 O Filho de José e Maria foi um verdadeiro desastre comercial.

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A crítica não entendeu aquele conceito de ópera-rock ainda inédito no Brasil.

Os temas pesados foram mal recebidos pelo público cristão conservador que repudiou a história de um menino-messias fruto de um relacionamento fora do casamento que sofreu com a separação dos pais e passou por dilemas como a própria condição sexual, descrença religiosa e o abuso de drogas – Odair era usuário de maconha e cocaína na época.

A igreja o classificou como um disco blasfêmico e ajudou a afastar o público cativo de Odair.

Em todos os cantos diziam que ele havia enlouquecido. Que o compositor de canções de amor tão belas não poderia ter concebido abominações como essas em suas plenas faculdades mentais.

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O efeito dessa antipropagando empurrou as vendas do disco para baixo e culminou numa queda expressiva de popularidade de Odair – sua carreira nunca mais foi a mesma.

Olhando em retrocesso chegamos à conclusão que o Brasil apesar de berço de artistas iluminados sempre esteve culturalmente atrasado.

Enquanto países discutem abertamente temas polêmicos, nós brasileiros criamos tabus hipócritas sobre o que não queremos (ou não gostamos) de falar.

A verdade é que Odair sempre foi muito mais do que a mídia queria que fosse. Não era apenas o cantor romântico, o apaixonado ufanista, era também um ser pensante e contestador, cheio de defeitos como nós e como o próprio messias sobre quem havia escrito.

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Agora que vocês já sabem a resposta sobre quem gravou a primeira ópera-rock no Brasil quero levantar outra questão:

Se de forma enxuta O Filho de José e Maria já é brilhante. Imaginem se por acaso as gravadoras não fossem tão covardes e aceitassem a proposta de um álbum duplo com 24 canções. Aonde o disco poderia ter chegado?

Talvez uma ópera-rock do mesmo nível de Tommy, The Lamb Lies Down on Broadway ou The Wall. Certamente nunca saberemos, mas mesmo assim vale a pena ouvir um pouquinho da história do nosso profeta mundano legitimamente brasileiro.

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