Little Richard: andrógino, louco e gênio
Por Paulo Severo da Costa
Postado em 15 de maio de 2014
"A história é uma galeria de quadros onde há poucos originais e muitas cópias"- CHARLES TOCQUEVILLE
Todo curioso que se propõe a uma viagem genealógica pelo rock n´roll, estilo que mais se desmembrou e, a cada nova prenhez, desmembrava a prole em facetas tão distintas quanto o art rock e o black metal, se vê em certos momentos, frente à entroncamentos que parecem conduzir ao nada: o metal começou com o BLUE CHEER? Foram os STOOGES os primeiros punks? STEVE VAI superou seu preceptor, SATRIANI? Em uma abordagem sociológica que acabou rendendo ótimos documentários, SAM DUNN, antropólogo e fã de metal, conclui que a influência da música erudita de WAGNER e os riffs crus em escala flamenca de DICK DALE foram tão fundamentais para o proto metal quanto os acordes truculentos do MC5 ou a semente celta que fomentaria a hibridez sonora do LED ZEPPELIN.
Little Richard - Mais Novidades
Por mais angustiante que essa afirmação soe aos puristas- defensores eternos de uma eugenia utópica- as ligações entre o synth pop e o metal, por exemplo, são mais tênues do que nossos seletivos ouvidos possam captar; se sonoramente a superfície revela distância, ideologicamente muita coisa começa em uma garagem com gente que ainda não sabe afinar a guitarra direito. Intrinsicamente, o espírito incendiário já completou sessenta anos e, o registro de alguns de seus genitores soam mais explosivos e relevantes do que muitos que se seguiram.
"Estas doze músicas podem não representar o alfa e o ômega da melhor música de LITTLE RICHARD, mas cada canção é um clássico e, ao contrário de muitos de seus pares, o tempo se recusou a tornar este primeiro álbum um lugar comum" resenhou MARK DEMMING sobre o debut daquele que se declarou bissexual antes de BOWIE, subiu no piano antes de ELTON JOHN, mostrou sua face negra e, por isso, socialmente aviltante para a época, antes de JAY-Z e berrou como um insano ao microfone antes dos punks- ou melhor- talvez tenha sido o primeiro deles.
"Eu vim de uma família onde o meu povo não gostava de rythm and blues. Bing Crosby - Pennies from Heaven, Ella Fitzgerald, era tudo que eu ouvi." Em 1956, BUMPS BLACKWELL, caçador de talentos da Speciality Records foi ao sul dos Estados Unidos procurar um cantor que desse conta de peitar FATS DOMINO e CHUCK BERRY; se deparou com um lavador de pratos na rodoviária de Macon, Georgia que atendia pelo nome de RICHARD WAYNE PENNIMAN, desbundado, andrógino e, paradoxalmente, repleto de culpas religiosas que o fariam abandonar a carreira meteórica duas vezes. Distante da aura classuda de RAY CHARLES ou do charme branco inapelável de ELVIS, LITTLE RICHARD transpirava pujança rocker, marretando um piano que costurava jump blues, soul e energia elétrica, enquanto escrevia a cartilha cross dresser (em um repertório que incluiria um paletó feito de espelhos e lantejoula e perucas estilo B-52) que seria adaptada pelo glam rock duas décadas depois.
"O feito de LITTLE RICHARD foi particularmente espantoso porque ele não teve a experiência de outros em que se basear. Teve que passar por tudo pela primeira vez, estabelecer as regras e viver todos os erros que os astros de rock que vieram mais tarde puderam evitar", pontuou seu biógrafo CHARLES WHITE. RICHARD foi roubado por empresários, se envolveu com drogas, relacionamentos amorosos desastrosos e apontado como risco contra a incolumidade pública. Entretanto, nada disso é deduzível da alegria de seus riffs incisivos ou da frivolidade de suas letras; em retrospectiva, verdadeiros mantras de exorcismo de seus próprios fantasmas.
Se seu ex-guitarrista, HENDRIX afirmou:" Quero fazer com a guitarra o que ele faz com a voz; ELVIS cravou, "Sua música me inspirou, você é o maior" e JAMES BROWN abriu o jogo, "LITTLE RICHARD é meu ídolo", fica difícil afirmar que eu- e todos os fã de rock n´roll- não estamos aqui, ainda que por diferentes caminhos, por causa dele.
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