Madame Saatan: 'Nunca pensei em compor em outra língua'

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Por Breno Airan, Fonte: Rock na Velha
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A revista Rock Meeting deste mês de agosto traz, na capa da sua 35ª edição, a banda paraense MADAME SAATAN. E nada como uma frontwoman.
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Os olhares roquísticos dos homens na plateia, cabeceando o ar em diversas investidas, por vezes para apreciar a beleza de uma bela madame de um ângulo melhor.

Foi assim com as garotas do VIXEN, THE RUNAWAYS, CRUCIFIED BARBARA e com a cantora do WARLOCK, a alemã DORO.

Mas a coisa ganha sempre nova forma quando a competência e o talento vêm à tona. A voz, subestimada enquanto a boca está fechada, dá um sopro de razão, e os olhos, lugar aos ouvidos.

É basicamente o que se sente ao se escutar o quarteto paraense da Madame Saatan.

SAMMLIZ, a frontwoman, tem tudo para dar certo. É bonita, carismática e muito inteligente. Suas letras não apenas impulsionam o ouvinte a um universo diferente, como encarnam toda a regionalidade necessária no fazer musical no Brasil. E o resto da banda não é resto.

De Belém do Pará

A primeira banda de Heavy Metal do país a lançar um álbum – neste caso, um vinil - foi a STRESS, banda formada em 1974, no Pará, mas que só colocou o trabalho, digamos, à venda, em 1982, com um disco homônimo.

Desses meandros do carimbó, o grupo Madame Saatan surge em Belém. Sim, o quarteto é de Belém. Terra de Fafá de Belém, Leila Pinheiro e a da banda brega independente Calypso.

Em 2003, eles se juntaram para dar mais luz ao espetáculo de teatro “Ubi Rei – Uma Odisseia em Bundalelê”.

A trilha sonora ficou a cargo de SAMMLIZ, nos vocais, ÍCARO SUZUKI, no baixo, IVAN VANZAR, na bateria, e ED GUERREIRO, nas guitarras.

Desde esse primeiro contato, elaborando as canções para o espetáculo, a trupe não quis mais parar de tocar e criou-se a Madame Saatan. Com dois “as” mesmo no nome do capiroto...

Com claras influências do carimbó, do lundu e da guitarrada em sua musicalidade, o grupo lançou seu debut em 2007, de forma independente, muito depois de colocar na praça o primeiro EP, “O Tao do Caos”, em 2004.

O disco de estreia lhes rendeu olhares de soslaio da crítica e muitos deles avassaladores para a bela vocalista Sammliz. Logo, ela se mostrou competente; toda a banda. Sendo assim, conquistaram o Prêmio Dynamite de melhor álbum de Heavy Metal, em 2008.

Decerto, a pegada em “Messalina Blues” mostra que os quatro já estavam entrosados.

O regionalismo latente em “Gotas em Caos de Selva Avenida” e em “Vela” só deixam acesas as iluminuras da Madame.

Há também dois registros em película desse primeiro álbum. O clipe de “Devorados”, por exemplo, foi gravado numa palafita, na Vila da Barca, dessa forma, mostrando outro cenário de Belém, além daquele dos cartões postais.

O outro, de “Vela”, no Círio de Nazaré, em meio a devotos na tradicional festa da capital paraense - ambos os registros foram captados pela diretora e documentarista Priscila Brasil.

Peixe-homem

A produção do “novo” disco deles, intitulado “Peixe Homem” e lançado em agosto do ano passado, foi do premiado Paulo Anhaia, o qual já trabalhou com artistas como VELHAS VIRGENS, CPM22 e CHARLIE BROWN JR.

A masterização não ficou muito atrás. O engenheiro de áudio foi Alan Douches, que tem no currículo a presença de AEROSMITH, MASTODON e MISFITS, em seus estúdios nos Estados Unidos.

Com efeito, o resultado acabou sendo o que o headbanger brasileiro estava precisando num momento de estagnação do cenário criativo: temos em mãos uma das bandas mais coesas dos últimos tempos.

A Rock Meeting conversou com a vocalista Sammliz, que tem 35 anos e é formada em Relações Públicas, Gestão Cultural e Radialismo. Ela falou a respeito dessa nova fase – já que agora todos eles estão morando em São Paulo – e o repórter aqui (com toda a modéstia que lhe cabe) pode garantir ao leitor que as músicas “Respira”, “Fúria”, “Até o Fim”, “Sete Dias”, “Cicatriz”, “A Foice” e “Rio Vermelho” são o que há de mais forte e original no rock atual.

O trabalho da cozinha e das linhas de guitarra com um quê de thrash pontuam que beleza e competência podem, sim, andar juntas.

Os novos clipes

A direção dos clipes dos singles “Respira” e “Até o Fim” ficou a cargo de P.R. Brown, que já esteve à frente de trabalhos do SLIPKNOT, SMASHING PUMPKINS, PRINCE e AUDIOSLAVE.

Tomadas gravadas no Parque dos Igarapés, em Belém, por exemplo, contam com uma equipe de profissionais de mais de 20 pessoas. Uma delas, comparsa de P.R. Brown, o diretor de fotografia Jaron Presant, fez “retratos” realmente bem encaixados no que a música se propusera.

Entrevista

Pouca gente sabe, mas uma das primeiras bandas efetivamente de Heavy Metal é de Belém do Pará, a Stress. Como é carregar esse legado e essa bandeira hoje em dia?

Fazemos parte de uma cena que tem um bom e vasto histórico ligado ao Rock e ela vive em processo de renovação. Temos muito orgulho em fazer parte dela.

Como é, então, a cena no Pará? Certamente não há somente carimbó e Calypso.

A cena musical no Pará é rica e diversa. Carimbó, lundu, siriá, guitarrada, tecnobrega, pop, MPB e Rock dão o tom da cidade, e há uma quantidade expressiva de ótimos artistas atuando no estado, com alguns até despontando nacionalmente. A cena atual do Pará é o que há.

Falando na banda Calypso, que veio do meio independente, vocês também tiveram dificuldades no começo. Como foi essa fase?

O Calypso ainda é a maior banda independente no Brasil, e nós, para construir uma carreira, assim como qualquer banda, precisamos nos dedicar e trabalhar muito. No começo e durante todo o processo, você encontra dificuldades, e o desafio é superá-las e continuar. Tivemos, e ainda temos, muitas dificuldades. Viver somente da música que fazemos ainda não é possível.

A história de vocês começou em 2003, depois do quarteto fazer uma trilha sonora para a peça “Ubi Rei – Uma Odisseia em Bundalelê”. Como decidiram se juntar para tocar rock?

Todos nós já havíamos passado por diversas bandas. Comecei com 15 anos, e os meninos começaram muito cedo também. Éramos amigos, e quando nos reunimos para esboçar o que viria a se tornar o Madame Saatan, estávamos fartos de tocar na noite e queríamos voltar a fazer som autoral. Logo nesse início, quando a banda nem nome tinha e estávamos trabalhando em nossas primeiras composições, fomos convidados para compor a trilha desse espetáculo em que eu trabalhava na produção na época, que é baseado no clássico Ubu Rei. A banda fez sua estreia dentro do teatro, já que, além de compor a trilha, a executamos ao vivo durante toda a temporada, que durou cerca de dois meses.

Como vocês veem os rótulos direcionados à banda? O que na verdade vocês se consideram?

Somos uma banda de Rock.

Que lembrança mais marcante vocês têm dos primeiros shows? Verdade que vocês já tocaram até em boate GLS? E dos espetáculos recentes? Como é a reação do público, digamos, “não acostumado” com um som pesado e elaborado?

Nosso primeiro show como Madame Saatan foi na Praça da República, como parte de divulgação do espetáculo do qual fazíamos parte. Foi durante a tarde, em um domingo, e caiu uma chuva daquelas típicas de Belém, enquanto desmontávamos o equipamento. Curiosos, bêbados, mendigos e hippies eram a grande maioria do público nesse dia, e fizemos a festa com eles. Não lembro de ter tocado com a banda em boate GLS, mas é uma ótima ideia. Se alguém nos convidar, iremos com todo prazer, porque temos muito respeito pelo público LGBT. Gostamos de tocar para todo tipo de público, e ano passado aconteceu bastante de tocarmos com artistas de outros estilos, variando do rap ao popular, e foi excelente a aceitação. Ao final de muitas dessas apresentações, não raro vêm até nós pessoas que dizem não gostar de rock, mas que gostaram de nós. Conseguir fãs improváveis é bem gratificante (risos).

A Madame Saatan, apesar de ser da região Norte, tem algo que o conecta com o Nordeste. Refiro-me ao fato de a banda ter saído da terra natal para “tentar a sorte grande” em São Paulo. O que acabaram absorvendo nessa estadia?

Estamos há quatro anos em São Paulo, e decidimos ficar na cidade para facilitar nossa circulação. A primeira vez que viemos para SP foi para participar de um projeto no CCBB e para gravar um programa da MTV. Logo depois, voltamos para divulgar o disco anterior, e foi quando uma empresa, a Equipo, nos ofereceu contratos como endorsers de algumas marcas (ESP/Groovin/Stagg/Samson/Hartke) e ainda bancou nossa primeira tour pelo Nordeste. Achamos que era um ótimo sinal para ficar, e assim foi. Nesses quatro anos, passamos por muita coisa e nos fortalecemos através das dificuldades que surgiram. Muitas coisas boas aconteceram; conhecemos pessoas maravilhosas e cá estamos, na missão.

Essa nova moradia acaba influenciando de alguma forma no processo criativo e de composição?

Tudo pelo qual você está passando, vivendo e sentindo, assim como um lugar novo para onde você se mudou, influencia de alguma forma seu processo criativo.

Se eu fizesse um Top 5 dos melhores lançamentos nacionais de 2011, certamente o mais recente trabalho da Madame Saatan, o “Peixe Homem”, estaria no meio. Afinal, qual seria o conceito do tal peixe-homem?

Obrigada! Ele fala sobre nós e nossas mudanças internas e externas. Nossa metade peixe, fazendo referência às nossas raízes, e a outra metade urbana, caótica e passional. A água, como símbolo de “impermanência”, costura o disco todo.

A “cozinha” da banda está mais precisa. Dá para notar referência do regionalismo em canções como “Sete Dias”, “A Foice” e “Sombra em Você”. Isso é algo intrínseco, ou vocês querem soar como tal?

Deixamos as coisas rolarem e não ficamos preocupados se alguma dessas referências vai ou não aparecer. Não pensamos nisso enquanto compomos. Faz parte de nós.

Ed Guerreiro tem uma pegada bem thrash nas guitarras, e Ícaro Suzuki encaixa muito bem suas linhas de baixo em cada lacuna. Contexto ideal para se cantar em inglês. Mas vocês vão na contra-mão, provando que dá para fazer diversas nuances interessantes em português. Isso foi definido desde o começo da Madame?

Nunca pensamos em compor em outra língua que não fosse o português, e não acho que o Metal, apesar de não ter sido um estilo criado aqui, não possa ser incorporado ao nosso idioma. Acho que a língua só é um entrave quando a banda tentar emular uma banda gringa. Aí, é provável que soe estranho realmente, mas é onde justamente mora o desafio. Não tenho absolutamente nada contra bandas brasileiras que fazem seu som em inglês; adoro várias, mas explorar o potencial do nosso idioma junto ao som pesado poderia ser um bom "novo" caminho. Gostaria de ver cada vez mais bandas fazendo isso.

Para conferir a entrevista na íntegra, clique no link abaixo.

http://issuu.com/rockmeeting/docs/rm35

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Sobre Breno Airan

Acima de tudo, um forte. Ser roqueiro no Nordeste é estar cercado de olhares de soslaio. Mas ele sabe ser simpático. Começou a escutar Heavy Metal ainda na barriga da mãe. A seu pai, uma verdadeira enciclopédia do estilo, deve tudo. Aos 14 anos, pediu para uma tia R$ 12 de presente de Natal, foi a uma loja de CDs usados e catou logo o "Rust in Peace", do Megadeth - em perfeito estado, inclusive. Daí por diante, a paixão só vem aumentando. É editor do blog Rock na Velha, integrante do blog Combe do Iommi e colaborador da revista alagoana Rock Meeting. Ainda tem tempo para ser jornalista e de tocar baixo em sua banda de Hard Rock, a Azul Manteiga.

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