As novas faces do progressivo: Godspeed You! Black Emperor

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Por Roberto Lopes
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Se a cena post-rock ainda recebe certa resistência dentro do meio progressivo para sua inclusão, por motivos diversos, alguns grupos desse cenário não sofrem desse problema, tendo considerável aceitação dentro do progressivo. Entre essas bandas, o Godspeed You! Black Emperor (ou GYBE) pode tranqüilamente ser considerado como uma dessas "exceções".

O grupo canadense merece ter sua obra e carreira analisada por pelo menos três razões. Em primeiro lugar, foi o grupo que mais se apropriou de elementos progressivos (na verdade se apropriando dos mais variados e diferentes estilos) em sua música, fazendo com que sua sonoridade fosse de difícil classificação, sendo chamada de post-rock, space rock, avant-garde, entre outros. Em segundo lugar, o grupo foi uma espécie de "órgão central" do cenário post-rock canadense, tendo seus membros participado de outras importantes bandas dessa cena como, por exemplo, A Silver Mt. Zion, Valley of the Giants, Fly Pan Am, entre outros. E por último, foi a banda, pelo menos no eixo Canadá-Estados Unidos, que mais investiu em longas suítes, improvisações e experimentações, seja em seus trabalhos de estúdio, seja em suas apresentações ao vivo.

O GYBE (nome tirado de um documentário japonês da década de 70) foi formado em 1994, quando um trio desconhecido de músicos, com o futuro "líder" do grupo Efrim Menuck, decidiu abrir alguns shows para bandas locais e lançar uma fita demo em dezembro desse ano ("All lights fucked on the hairy amp drooling") que passou despercebida, mas que plantou as sementes para a consolidação do grupo, que ocorreu anos depois.

O primeiro disco oficial da banda, F#A#∞ (1997, relançado no ano seguinte) mostra um grupo em transição, se afastando de uma sonoridade meio punk e alternativa apresentada no cassete, e que nitidamente mostrava quais eram suas principais intenções sonoras. Baseando-se na edição lançada em 1998, três suítes (dividas em várias partes) mostravam um grupo arriscando diferentes propostas musicais, timidamente em alguns momentos, mas de forma eficiente em vários outros, como, por exemplo, em algumas partes da suíte "Providence", com quase meia hora de duração.

O EP "Slow riot for new zerø Kanada" (1999), que possuía duas boas, e longas, faixas, indicava que o grupo mantinha o bom nível do primeiro trabalho. Foi também nesse período que o grupo consolidaria sua formação, que se manteve mais ou menos como um noneto e a participação de bons músicos como a violinista Sophie Trudeau, o guitarrista Roger Tellier Craig, o baterista e percussionista Aidan Girt e o já citado Efrim Merzuck.

Mas a consolidação artística do grupo veio com o lançamento do ambicioso álbum duplo "Lift your skinny fists like antennas to heaven", em outubro de 2000. Formado por quatro longas suítes, o trabalho apresentava um grupo ousado, abusando de improvisações, efeitos sonoros e de extremos movimentos musicais, indo de um momento de melancolia ou de completa calma para outro de muito peso e distorção. Todas as quatro faixas apresentavam também uma rica mistura de influências sonoras, seja do heavy metal, rock alternativo, música ambiente, rock progressivo, eletrônica e avant-garde. O trabalho foi muito bem recebido pela crítica norte-americana e canadense e obteve um relativo sucesso comercial que permitiu ao grupo excursionar por quase dois anos pela Europa e América do Norte.

O trabalho seguinte, "Yanqui U.X.O." (2002), com três suítes e duas faixas um pouco menores, mantinha o mesmo nível do trabalho anterior, com longas faixas, misturas de estilos musicais e interessantes utilizações de samplers e gravações.

Outra característica interessante acerca do grupo era sua postura política, em que os membros admitiam claramente possuir tendências de esquerda, caindo até para algumas idéias ligadas ao anarquismo, que podiam ser percebidas em algumas partes de sua obra, seja em alguns títulos de musica, seja em efeitos sonoros utilizados em algumas faixas. Na edição em vinil de "Yanqui U.X.O.", por exemplo, percebem-se, no final do disco, gravações que fazem críticas indiretas ao presidente estadunidense George W. Bush. O grupo também manteve uma relação cordial, porém fria e afastada, da mídia especializada e da critica musical, adotando uma postura comercial mais independente - porém sem exageros - em sua carreira, tendo seus trabalhos lançados pela gravadora semi-independente Constellation Records.

Muito do prestígio da banda se deveu também às apresentações ao vivo que o grupo realizou ao longo de sua carreira. Especificamente entre 1998 a 2003, o grupo não raramente realizava longas apresentações (às vezes com duração de duas horas e meia a até três horas) e abusava de improvisações, experimentos e efeitos sonoros e visuais - nesse ultimo caso, regado a slides ou vídeos que eram exibidos no palco durante as apresentações, dando um caráter mais artístico a esses shows. Muitas dessas apresentações, aliás, estão disponíveis legal e gratuitamente neste site.

Em meados de 2003, após uma atribulada turnê ocorrida nos Estados Unidos, onde os membros chegaram a ser confundidos com terroristas e barrados em um posto de gasolina em Oklahoma (evento isolado mas que deixou certo ressentimento para com a banda), o grupo anunciou que entraria em um período de "hiato" sem prazo definido de retorno. Apesar de os motivos nunca terem sido claramente expostos, acredita-se que a relação instável que ocorria há um certo entre os membros tenha sido o principal motivo dessa separação. No inicio de 2008, rumores afirmaram que o grupo teria terminado, devido a acontecimentos relacionados a guerra no Iraque, o que logo foi desmentido pela banda que, entretanto, revelou que não há planos, pelo menos a curto prazo, de uma reunião. Os membros do grupo atualmente se ocupam com projetos paralelos e em participações em outras bandas.

Apesar de uma carreira relativamente curta, o grupo fez seu nome dentro do post-rock e é um dos nomes obrigatórios para se conhecer a cena.

Discografia recomendada: "Lift your skinny fists like antennas to heaven" (2000), "Yanqui U.X.O." (2002)


Roberto Lopes, 30, é arquivista e moderador do Ummagumma, onde é conhecido como bobblopes. O Ummagumma é um fórum que procura discutir todas as vertentes do progressivo. Todos estão convidados a visitá-lo e discutir a música progressiva, desde os medalhões sinfônicos até as bandas mais experimentais.


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Sobre Roberto Lopes

Arquivista, professor, cientista da informação e pseudo escritor de música nas horas vagas. Apesar de mais focado no Rock Progressivo e clássico, também curte metal, punk, rock alternativo e indie Rock.

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