Em 11/10/2011 | Resenha - Paul Di'Anno (Central Rock Bar, Santo André, 11/10/11)

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Resenha - Paul Di'Anno (Central Rock Bar, Santo André, 11/10/11)

Por Diego Cesar Bortolatto Simi

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Era uma noite fria e com garoa em Santo André, na região do ABC Paulista. Dentro de algumas horas no minúsculo e humilde Central Rock Bar se apresentaria uma verdadeira lenda do Heavy Metal. Paul Di’Anno, o primeiro vocalista do gigante Iron Maiden, estava chegando para continuar divulgando a Running Free Again World Tour 2011 pelo Brasil.

O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

Ao entrar no bar, notei que o local era muito mais simples do que sua fachada demonstrava. Tábuas de madeira penduradas no teto, fiações soltas por toda parte, pregos mal fixados no parapeito do palco, uma guitarra feita de material reciclado suspensa por um pedaço de pau “enfeitava” o teto sobre o palco que deveria estar a uma distância de 2,50 metros do chão. Sim, o Central Rock Bar é um lugar extremamente pequeno.

Enquanto a galera ia se acomodando nas mesas para apreciar uma boa cerveja depois de um dia cansativo, já podia ser visto no palco o experiente vocalista Mário Pastore arrumando toda a parafernalha para o seu show. Pastore ao lado de seus companheiros inicia seu repertório solo com a pesadíssima faixa-título de seu debut “The Price of the Human Sins”, com uma pegada totalmente “Judas Priest” no começo e chegando ao refrão cantado de maneira bem grave e operística. Ótima abertura.

Pastore apresentou outras músicas muito boas como “Darkest Dreams”, “Keep the Flame Alive”, a balada “Horizons” e a canção “Far Away”, que até ganhou um clip e se destacou muito nesse show. Apesar da esmagadora maioria não conhecer o trabalho desse competente vocalista, ele conseguiu agradar muita gente com seu Heavy Metal simples e puro, mas com muita técnica nas vocalizações, o que faz a grande diferença.

Devo destacar também que antes de executar suas duas últimas músicas, Mário Pastore demonstrou sua insatisfação com a cena Metal brasileira após ter saído do projeto Soulspell Metal Opera: “Essa história é tudo babozeira. Enquanto você levanta a bandeira do Metal Nacional, outras bandas querem te foder. O que falta nessa cena é uma coisa chamada respeito”, afirmou.

No aguardo pela atração principal da noite, o público iria agora acompanhar o show da banda de abertura oficial e banda de apoio no Brasil do grande Paul Di’Anno desde 2009. Estou me referindo aos gaúchos do Scelerata. Infelizmente, a banda de Metal Melódico oriunda de Porto Alegre não conseguiu agradar muito. O público não reagia de nenhuma maneira as suas músicas.

Pra se ter idéia da indiferença do headbangers andreenses em relação ao Scelerata, eu contei apenas cinco pessoas na pista. Os integrantes do Scelerata são bons músicos, e muito profissionais seguiram o show dando o melhor de si, mesmo sem receber apoio em troca.

Aproximadamente uns 40 minutos depois, os membros do Scelerata Magnus Wichman e Renato Osorio, a dupla de guitarristas, e Gustavo Strapazon e Francis Cassol, baixista e baterista respectivamente, já iam se preparando no palco para a grande apresentação no Central Rock Bar.

Então, no fundo bar perto da entrada do corredor da área de fumantes se via uma grande movimentação. O mitológico Paul Di’Anno estava vindo para o stage, carregado por assessores e fãs por causa de sua dificuldade de locomoção. Algo interessante e que eu nunca vi em nenhum show antes, é que Di’Anno teve que atravessar a pista lotada pelo meio do público para chegar ao palco.

Enquanto Di’Anno subia com extrema dificuldade as escadinhas laterais para o stage, a inesquecível intro “Ides of March” – do clássico absoluto do Iron Maiden “Killers” de 1981 – era executada e tocava a alma de cada banger por ali. Todos acompanhavam as melodias cantando, foi realmente emocionante.
Por um curto momento, me imaginei em um show do Iron Maiden em algum Pub inglês no comecinho dos anos 80.

Mas para a surpresa de todos veio a música “Mad Man in the Attic” – do álbum solo “The Living Dead” -, que apesar de pesada não combinou muito bem com a introdução clássica do Maiden, o que pode ser sentido pela reação da galera.

Logo em seguida veio finalmente o primeiro grande clássico! Oriunda de tempos muito remotos veio a agressiva “Prowler” – do disco “Iron Maiden” -, levando os fãs a loucura, todos cantando os eternos versos da canção o mais alto possível, mal se podia ouvir a voz de Di’Anno. Colada com o clássico da maior banda do NWOHBM, veio a ótima “Marshall Lockjaw”, que na minha opinião é a melhor música solo de Paul.

Como esse foi meu primeiro show do Paul Di’Anno, eu pude notar de perto que o vocalista britânico de hoje, se excetuando pelo garra e a pegada, não tem quase nada em comum com aquele Paul do Iron Maiden, seja no estilo, aparência, postura de palco e principalmente a voz. 30 anos atrás Di’Anno tinha uma voz única e difícil descrever, era meio aguda, um pouco gemida, meio rasgada. Hoje em dia ele tem uma voz urrada e muito “suja”, talvez por conta do cigarro e da bebida.

Uma coisa que Paul Di’Anno faz em todos os shows que agradam a uns e incomodam a outros é ressaltar que é do “Timau”, mas no fim, são apenas brincadeiras pra melhorar o clima do show. Ele também brinca e menospreza às vezes o Iron Maiden, fonte de boa parte de seu repertório, onde muitos outros o criticam por viver à custa de seu passado na Donzela.

Voltando ao show, veio o grande problema da noite, pois enquanto estava sendo executada a clássicona da Donzela “Murders in the Rue Morgue – do disco “Killers” – a energia elétrica do bar simplesmente caiu e de lá até o fim do show os problemas insistiam em assolar o sistema de geradores, especialmente o microfone do vocalista inglês.

A galera esfriou muito, Paul Di’Anno estava furioso e inconformado com o que acontecia com seu microfone, não acreditava que seu show iria ser interrompido dessa forma. Técnicos em vão tentavam fazer gambiarras e improvisações para retomar o show.

Com as guitarras ainda funcionando, o Scelerata improvisou duas músicas instrumentais do Maiden enquanto Paul fumava irritado seu cigarro se apoiando em um roadie. “Transylvania” e “Genghis Khan” não conseguiram chamar a atenção dos fãs, que observavam Di’Anno discutindo com os técnicos de som. O ex-vocalista da Donzela chegou a atirar seu microfone no chão.

Quando todos os problemas foram resolvidos, a felicidade foi geral e todos estavam preparados para mais e mais clássicos. E a música ideal para isso foi “Purgatory” – também do Iron Maiden -, ela é rápida, meio punk e melódica ao mesmo tempo, e seu refrão foi cantado para superar tudo e mandar para os problemas um “fuck off motherfucker”, frase frequentemente usada por Paul.

Na sequência veio a fria e bela “Strange World” – do debut homônimo do Iron Maiden –, cantada com muito feeling por Di’Anno, que disse amar essa música. Depois disso, mais duas músicas solo motivaram a galera, foram elas “Children of Madness” e a sugestiva “The Beast Arises”.

Na continuação do show, Paul Di’Anno agora iria cantar a música que talvez para ele seja a mais especial, já que foi escrita em homenagem a seu finado avô. A imortal e insubstituível “Remember Tomorrow”- do clássico “Iron Maiden” de 1980 - foi executada de maneira fiel e foi um dos pontos altos do show. Quem dera se o Iron Maiden tocasse essa canção de vez em quando também.

Mais um grande hit foi anunciado na sequência, o maior do álbum “Killers”, todos começaram a pular quando o baixo cavalar e o solo de guitarra encarnavam a eterna “Wrathchild” no palco. Paul Di’Anno mandou muito bem, estava no comando e essa música sempre foi perfeita para sua voz. Foi impressionante, essa canção tem muita energia.

Chegava o momento de uma música que ninguém imaginava ouvir e que Di’Anno ressuscitou. Falo de “Drifter” – outra do Iron Maiden – que agradou bastante. Mas o que veio depois foi que realmente causou impacto, a assassina “Killers”, causava um arrepio na espinha dos fãs. Foi um sonho pra mim ouvir essa música, era como estar de volta em 1981.

Paul Di’Anno chamou sua banda de apoio e executou umas das músicas mais marcantes do debut do Iron Maiden, uma música feita para pular, banguear, acompanhar cada segundo cantando, se entregar. “Phantom of the Opera” era tocada e cada fã levou na paixão, no feeling, pois um clássico como esse causa muito impacto.

Terminando esse hino, Paul Di’Anno se apoiou em seu assistente e em outros fãs e surpreendentemente encerrou o seu show. Faltavam muitas músicas a serem tocadas ainda, mas Paul Di’Anno estava fisicamente destruído. Para ele, ficar de pé parecia ser um sacrifício e andar era quase impossível.

Eu entendo sua situação, mas esse fim precoce do show causou uma sensação ruim, um balde de água fria, sua missão não foi comprida em Santo André. Algum roadie poderia muito bem ter trazido uma cadeira para ele repousar, água, toalhas e comida para que ele pudesse descansar por um tempo e voltar em forma para finalizar o show.

Na verdade, a situação deplorável atual de Paul Di’Anno me deixa até comovido, pois ele precisa agüentar adversidades extremas. Ele está com mais de 50 anos, com os dois joelhos totalmente ferrados, está muito obeso e fuma demais, o que deve piorar os problemas nas pernas. Além disso, Paul é obrigado a fazer shows quase todos os dias em lugares com pouca estrutura e viajar enormes distâncias freqüentemente. Di’Anno está literalmente fodido.

Mas mesmo assim, foi excelente poder ver esse lendário vocalista, que marcou minha vida com músicas perfeitas e sua voz única. Muitos o acusam de viver com as migalhas do Iron Maiden, mas eu discordo.

Paul Di’Anno ainda toca ótimas músicas e acho que a sua verdadeira missão é mostrar para o mundo o que Steve Harris e o Maiden não mostram, os clássicos esquecidos, quase apócrifos, dos álbuns “Iron Maiden” e “Killers”. Esses tempos mágicos só podem ser revividos em noites como essa no pequeno Central Rock Bar.

PAUL DI’ANNO -
Paul Di’Anno - vocais
Magnus Wichmann – guitarra
Renato Osório – guitarra
Gustavo Strapazon – baixo
Francis Cassol - bateria

Set List -:
01 – Ides of March
02 – Mad Man In the Attic
03 – Prowler
04 – Marshall Lockjaw
05 – Murders in the Rue Morgue
06 – Transylvania
07 – Genghis Khan
08 – Purgatory
09 – Strange World
10 – Children of Madness
11 – The Beast Arises
12 – Remember Tomorrow
13 – Wrathchild
14 – Killers
15 – Phantom Of The Opera

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