Paul McCartney: em 1970, o primeiro disco solo de fato
Resenha - McCartney - Paul McCartney
Por Cezar "Dudy" Duarte
Postado em 04 de outubro de 2010
Coube a ele oficializar o que já era mais do que iminente. Em 10 de abril de 1970, a separação da banda mais emblemática da história do rock, The Beatles, era anunciada, por aquele que, ironicamente, foi quem mais queria levar o grupo de Liverpool adiante. Paul McCartney, naquele momento, lançava seu primeiro disco solo, apenas com seu famoso sobrenome.
Paul McCartney - Mais Novidades
Primeiro solo? Usando uma linguagem jurídica, há quem diga que o primeiro trabalho individual de fato, não de direito, foi Yesterday, em 1965. Primeira gravação só com um beatle, sem mencionar que praticamente toda composição é de Paul, apesar dos créditos incluírem o nome de Lennon (questão contratual). Em Yesterday, Paul canta e toca violão acompanhado por um conjunto de cordas arranjado pelo produtor George Martin. Na época, pensou-se em lançá-la em forma de compacto, como um projeto paralelo do baixista. A ideia foi rapidamente descartada. No entanto, Yesterday chegou ao mercado americano como compacto, mas com o nome dos Beatles.
No ano seguinte, 1966, antecedendo as primeiras gravações de Sgt.Pepper’s, Paul recebe a proposta para fazer a trilha sonora do filme The Family Way, dirigido por Roy Boulting. Para enfrentar a empreitada, Paul pede auxílio ao amigo George Martin para composição dos temas instrumentais. A faixa principal é Love in the open air, que ganharia 13 variações ao longo do LP, além de mais duas versões diferentes lançadas em um compacto. Salienta-se que Paul não toca nenhum instrumento, há, porém, algumas fontes que dizem que ele teria tocado baixo e piano. George Martin acaba sendo o verdadeiro regente através de sua própria orquestra. O lançamento da trilha ocorre em 12 de junho de 1967.
Voltando para a concepção do solo McCartney. Os primeiros passos foram dados em dezembro de 1969, em um estúdio montado em sua casa, até que o disco pronto chegasse às lojas em 17 de abril de 1970. A grande força motora que o fez partir sozinho para as sessões foi um dolorido sentimento de abandono em relação aos seus companheiros.
Nos idos de 69, John, George e Ringo queriam, a todo custo, que o empresário espertalhão, Allen Klein, tomasse conta dos confusos negócios da empresa do grupo chamada Apple. Paul se recusava, terminantemente, assinar o contrato que daria plenos poderes à Klein para fazer o que quisesse em nome dos Beatles. O desacordo foi parar na justiça, até que a dissolução judicial ocorresse em meados da década de 70. Para combater as feridas criadas pelo embate entre ele e os outros beatles, McCartney se dedica de corpo e alma à música, tendo ao seu lado, o total apoio de sua amada companheira, Linda McCartney, grande responsável por manter a veia musical de Paul pulsando em uma longa e promissora carreira solo, com e sem os Wings.
Paul toca todos os instrumentos sozinho em McCartney. Como já foi exposto, a maior parte das gravações aconteceu em sua residência, em Londres. Algumas faixas foram finalizadas nos estúdios Morgan e Abbey Road. Para evitar o assédio do público e da imprensa, Linda reservou os dias e horários para as sessões usando o pseudônimo Billy Martin. Assim, Paul teria a tranqüilidade suficiente para se dedicar às gravações da maneira que achasse mais conveniente. Linda, também, emprestou sua voz em algumas faixas fazendo backing vocal e harmonias. Foi incluído na embalagem do disco – edição especial para imprensa da época – um questionário produzido por Derek Taylor e Peter Brown (assessores de imprensa da Apple) no qual, Paul responde a várias questões. Entre suas respostas, está a declaração mais bombástica: Paul diz que está fora dos Beatles e, consequentemente, a banda deixava de existir.
A importância do debut solo de Paul McCartney não se credita, apenas, por se tratar de um trabalho de um ex-beatle. A musicalidade ao longo das 13 faixas justifica, de sobremaneira, a exuberância deste multiinstrumentista que domina, como poucos, o ofício de construir magníficas melodias para o deleite dos ouvidos receptivos à boa música.
O disco é igualmente especial por manter, de alguma forma, a atmosfera dos Beatles. É quase um registro do quarteto feito por apenas um integrante. As canções geradas ainda com os Beatles se encaixam perfeitamente com o restante do repertório. Sim, a qualidade das primeiras gravações dos ex-beatles, provam que Abbey Road e Let it Be não seriam o limite do que eles ainda podiam fazer juntos. De certa maneira, a saga dos Beatles continuou com muito da qualidade que os quatro produziram separadamente em suas respectivas carreiras . McCartney não é exceção.
Confira detalhes sobre cada uma das músicas existentes no álbum:
The Lovely Linda (0:44)
Ode de Paul à sua adorável companheira. Existe uma versão mais longa que permanece inédita.
That would be something (2:37)
Inicialmente, era uma faixa mais curta e mais próxima de um folk. Simples e cativante.
Valentine Day (1:40)
Instrumental usado para testar o gravador caseiro Studer de 4 canais, portátil, que acabou sendo incluído no disco.
Every Night (2:31)
Chegou a ser tocada pelos Beatles, mas não aproveitada pelo grupo. A letra teve sua origem na Escócia, em 1968, e foi finalizada na Grécia. Balada acústica dentro dos padrões dos Beatles.
Hot as Sun / Glasses (2:07)
Segunda faixa instrumental, composta em 1959. É na verdade, a junção de duas partes instrumentais distintas. No final, Paul canta alguns segundos da música Suicide que teria sido composta para Frank Sinatra.
Junk (1:54)
Começou a ser escrita em Rishikesh, Índia. Jubilee e Junk in the yard foram os primeiros títulos. Os Beatles chegaram a ensaiá-la e, fora cogitada para fazer parte de álbuns como White Album e Let it Be. Lenta, nostálgica com arranjo envolvente.
Man We Was Lonely (2:57)
A sétima faixa (em CD), conta com as harmonias de Linda que, também, teria tido uma pequena participação na letra. Música mais embalada, conta com um belo coro de Paul e Linda no refrão.
Oo You (2:48)
A princípio, era para ser uma faixa instrumental, até Paul criar a letra. O elogiado trabalho de guitarra e os agudos do vocal dão destaques à esta gravação.
Momma Miss America (4:05)
Fusão de dois temas instrumentais. O primeiro nome pensado foi Rock ‘n’ Roll Sprintime . Paul toca, com maestria, "só" sete instrumentos neste número.
Teddy Boy (2:23)
Mais uma faixa vinda das últimas sessões dos Beatles. Uma versão foi incluída no projeto Get Back até que este se transformasse no disco Let it Be, sem a referida faixa. Balada acústica de bonita melodia, típica do talento de Paul.
Singalong Junk (2:35)
Variação instrumental mais longa que a faixa seis (Junk). Ela faria parte da trilha sonora do filme Jerry Maguire, em 1995.
Maybe I’m Amazed (3:50)
Pode ser considerada o carro-chefe do disco. Uma das melhores músicas que Paul já fez em toda sua carreira, sem exagero. O próprio já admitiu ser uma de suas canções favoritas. A letra é dedicada à Linda, no qual, ele pede a presença dela para ajudá-lo a superar a difícil adaptação aos novos tempos como ex-Beatle. A versão ao vivo no disco triplo, Wings Over America, de 1976, pode ser considerada a execução definitiva.
Kreen-Akrore (4:14)
Paul encerra o disco com mais um instrumental. O título foi inspirado em um documentário chamado The Tribe that Hides From Man (A tribo que se esconde do homem). No caso, KreenÁkrore é o nome de uma tribo de nativos da selva amazônica, defensores ferrenhos de seu território. Paul tenta criar sons com base naquilo que ele captou vendo o programa.
Curiosidade: duas faixas ficaram de fora de McCartney e continuam inéditas: Indeed I do e 1982.
Data de Lançamento:
17 de abril de 1970 (RU)
20 de abril de 1970 (EUA)
Lado A
1 – The Lovely Linda (0:44)
2 – That Would Be Something (2:39)
3 – Valentine Day (1:40)
4 – Every Night (2:32)
5 – Hot as Sun/Glasses (2:07)
6 – Junk (1:55)
7 – Man We Was Lonely (2:57)
Lado B
8 – Oo You (2:49)
9 – Momma Miss America (4:05)
10 – Teddy Boy (2:23)
11 – Singalong Junk (2:35)
12 – Maybe I’m Amazed (3:51)
13 – Kreen-Akrore (4:15)
Créditos:
Paul McCartney: baixo, guitarra, violão, piano, mellotron, bateria, órgão, xilofone de brinquedo, gravação, produção.
Linda McCartney: Vocais, teclados, fotos e capa.
Posição nas paradas:
EUA: 1º lugar (Billboard), tendo permanecido por 47 semanas no Top 200.
RU: 2º lugar (UK Albums Chart), tendo permanecido 32 semanas do Top 200.
Texto publicado originalmente no site de (anti)jornalismo (contra)cultural Os Armênios.
Outras resenhas de McCartney - Paul McCartney
Receba novidades do Whiplash.NetWhatsAppTelegramFacebookInstagramTwitterYouTubeGoogle NewsE-MailApps



Regis Tadeu derruba consenso de décadas sobre "Roots" do Sepultura
As 7 maravilhas do mundo do heavy metal e como conhecê-las
Os cinco maiores discos progressivos dos anos sessenta, segundo site britânico
Shows no Brasil que encerraram ciclos em carreiras de bandas internacionais
Para conceituado escritor, Metallica está sofrendo de "síndrome de Iron Maiden"
O lendário vocalista que teve o dedão amputado por um anão de jardim no quintal
Sepultura, Titãs e Luiz Caldas levam o peso do rock ao Altas Horas deste sábado
As seis músicas mais importantes do Judas Priest, segundo K.K. Downing
Amanda Somerville diagnosticada com tumor cerebral maligno e agressivo
A banda de metal que Jerry Cantrell considera a maior e melhor de todos os tempos
Os 5 melhores guitarristas de todos os tempos, segundo Fernando Deluqui (ex-RPM)
A música do Pink Floyd que foi cortada de "The Wall" mas todos acabaram conhecendo
O clipe que estragou um dos maiores hits dos anos 80, segundo Humberto Gessinger
O baterista do prog que Neil Peart admirava profundamente
A música do Yes que serviu de inspiração para Dream Theater e Sepultura

John Lennon sobre seu álbum favorito dos Beatles: "Musicalmente superior ao 'Sgt. Pepper's'"
John Lennon sobre o real motivo da separação dos Beatles: "Era inevitável desde o Sgt. Pepper's"
O hit dos Beatles que Paul McCartney mandou um "é ruim, mas é bom"
A canção que Paul McCartney chamou de uma das mais matadoras de todos os tempos
Paul McCartney lista suas músicas favoritas dos Beatles, e a que mais ouviu na vida
A música solo de Paul McCartney que ele próprio odeia: "Não consigo nem ouvir!"
A música dos Beatles que Lennon compôs no fundo do poço: "Suicida e tentando alcançar Deus"
O músico que merece cada elogio que recebe, segundo David Gilmour
Paul McCartney explica porque se recusa a tirar fotos com seus fãs hoje em dia
Ringo Starr reflete se ele tocava melhor nas composições de John Lennon ou de Paul McCartney
Black Sabbath: Born Again é um álbum injustiçado?


