Resenha - Wake The Sleeper - Uriah Heep

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Resenha - Wake The Sleeper - Uriah Heep


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Após quase 10 anos desde seu último CD de estúdio (“Sonic Origami”, de 1998), a banda inglesa Uriah Heep finalmente nos brinda com um novo álbum, seu vigésimo primeiro gravado em estúdio. Apropriadamente intitulado “Wake The Sleeper”, apresenta uma mudança na formação com a entrada do baterista Russell Gilbrook, substituindo Lee Kerslake, que em virtude da idade avançada resolveu se dedicar a projetos mais esparsos.

Nota: 9

O texto representa a opinião do autor, não do Whiplash.Net ou de seus editores.

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Na realidade, várias mudanças ocorreram para este lançamento. Finalmente de volta a uma gravadora grande (a Universal Music), a banda ouviu os pedidos dos fãs antigos, e não procurou dessa vez conquistar novos mercados, como havia ocorrido na frustrada tentativa com o disco anterior, o apenas razoavelmente bom “Sonic Origami”, voltado ao mercado norte-americano AOR (tentativa essa que se mostrou totalmente inútil e equivocada). Para isso, gravou um disco pesado, sem baladas (o que é até de se estranhar, em se tratando do Heep), registrado “ao vivo no estúdio”, com o intuito de agregar mais energia às performances, algo de fato atingido. A formação que estava junta desde 1986 foi levemente alterada no início de 2007. A cozinha é agora formada por Trevor Bolder (no grupo desde 1976, fora uma breve passagem pelo Wishbone Ash no início dos anos 80) e o novato Russell Gilbrook (que já tocou com Tony Iommi e no Bedlam, substituindo Cozy Powell), e se mostra entrosada, variada e pesada, fornecendo o pano de fundo para os demais brilharem. As maiores surpresas nesse novo lançamento ficaram entretanto por conta da dupla Bernie Shaw (vocais) e Phil Lanzon (teclados). Este é certamente o auge da participação deles no Uriah Heep. O vocal de Shaw está mais maduro do que nunca, e ao que tudo indica ele finalmente acertou a mão (ou o gogó), numa performance variada, dinâmica, mesclando muito bem o seu estilo original com o tradicional do Heep. O grande destaque do disco fica, entretanto, por conta de Lanzon. Talvez pelo próprio efeito-surpresa, pois ele sempre ficou devendo uma performance de peso ao tocar órgão Hammond, até porque está no lugar que já foi de Ken Hensley (hoje em carreira solo) e John Sinclair (que andou tocando direto na banda de Ozzy Osbourne). E neste álbum ele toca – somente – um autêntico órgão Hammond B3 com caixa rotativa Leslie, nada de teclados digitais com timbres pasteurizados e sem energia. Tanto nas bases quanto nos solos, ele está simplesmente brilhante, com muita intensidade e feeling, colocando toda a força que o Hammond pode adicionar tanto nos momentos mais pesados, quanto nos mais calmos. Por fim, a produção de Mike Paxman tirou o melhor da banda, com excelente equilíbrio entre os instrumentos e vocais, e peso e clareza nas medidas certas. Deu um verdadeiro banho em Pip Williams, que vinha trabalhando com o grupo nos discos mais recentes, e que apesar de ser um produtor muito competente, deixava a sonoridade dos discos polida demais, até pelo uso excessivo de overdubs.

O recado de que novos ares rondam o grupo é dado logo de cara: a abertura é uma faixa instrumental (ou quase), rápida e pesada. Há vocais sim, mas eles são compostos pelos tradicionais coros “operísticos” do Uriah Heep (aahh’s e oohh’s), e pela entoação do título da música (e do disco), como que clamando pelo renascimento da banda. Logo, os vocais acabam participando meio que como um instrumento a mais. A guitarra de Mick Box parece ter rejuvenescido uns 35 anos, com muito mais garra do que vinha apresentando já há um bom tempo. O “Rei do Wah-Wah” está de volta em todo o seu esplendor, e aqui algumas passagens lembram as da música “The Magician’s Birthday”, de 1972. A bateria de Gilbrook, adicionando um peso extra (cortesia também do bumbo duplo, mas sem exageros, dentro do estilo da banda), dá um gás a mais. O baixo de Bolder, vibrante e melodioso, não se prende ao óbvio e preenche todos os espaços que pode. Uma abertura bastante empolgante, que nos leva a outro petardo, “Overload”. Novamente Mick Box e sua guitarra com wah-wah abrem os serviços, sendo seguido pelos demais. O solo lembra um pouco o seu próprio em “Between Two Worlds”, do disco anterior. Ao final, um solo de Hammond arrebatador, enquanto a banda desce literalmente o couro numa bem sacada mudança de andamento, com a força adicional imposta por Gilbrook (coitado do prato “China”!). É notável o tanto que a banda lucrou com a entrada do novo baterista, sem desmerecer Kerslake, que já não ostenta mais a forma de outrora (suas performances nos anos 70 com o Heep, e nos anos 80 com Ozzy, eram sensacionais).

Seguem-se duas com ênfase nas harmonias vocais, ponto forte do conjunto, já que todos os 5 integrantes cantam (esse foi um dos pontos cruciais na escolha do novo baterista). “Tears Of The World” lembra muito “Time Of Revelation”, do disco “Sea Of Light”, só que com dose extra de peso e empolgação, em mais uma boa faixa (que já vem sendo tocada ao vivo). “Light Of A Thousand Stars” é outra no mesmo estilo que a banda vem desenvolvendo há anos, porém mais inspirada na parte vocal e com uma tecladeira de respeito. O grupo dá uma segurada nas rédeas nessa parte do disco, até para não cansar o ouvinte, sem exagerar portanto na dose de peso e velocidade. Num momento de faixas “mid-tempo”, seguem-se “Heaven’s Rain” e “Book Of Lies”, talvez as mais fracas do disco, até por também lembrarem muito algumas músicas dos dois últimos discos, embora ainda assim sejam boas composições. Os arranjos estão de fato caprichados nesse disco, tentando sempre fugir do marasmo e de fórmulas consagradas, incluindo uma surpresa aqui ou ali. Conforme mencionado acima, este CD não possui “fillers”, e mesmo após algumas audições não dá aquela vontade de pular algumas faixas.

As coisas começam novamente a esquentar com o épico “What Kind Of God”, uma das melhores da bolacha. A bateria marcial de Russell conduz os trabalhos. Bernie Shaw se destaca no vocal principal, numa letra que fala sobre os antigos conflitos entre os índios nativos norte-americanos contra os (então) invasores ingleses. O final apoteótico nos leva a um dos melhores momentos instrumentais do grupo nos últimos 20 anos ou mais, sem exagero algum. “Ghost Of The Ocean” é uma rápida e pesada, na linha de “Everything In Life” (também de “Sonic Origami”), só que com uma inusitada parada no meio, adicionando um toque surpresa, vocais diferentes do usual e uma levada que lembra (novamente) partes de “The Magician’s Birthday”. Em outra letra inspirada e fantasiosa, Bernie canta sobre navios, piratas, sereias e guerras.

Até este ponto, todas as composições são da dupla Box/Lanzon. Curiosamente, a seguir vem uma das duas únicas composições de Trevor Bolder incluídas nesse disco, e ele mostra estar num período inspiradíssimo, pois “Angels Walk With You” é possivelmente a melhor música do CD. Levada pesada, tanto no som quanto no “clima”, numa composição que nada lembra o velho Heep, abrindo novos horizontes para a banda. O trabalho de bateria de Gilbrook está ótimo, com muito peso e grande variação com os pratos, bastante presentes na mixagem. Os vocais de Bernie Shaw se destacam, como comentado anteriormente, num estilo muito mais maduro. O solo de Hammond de Lanzon é simplesmente brilhante, lembrando muito Jon Lord em seus anos de Deep Purple.

A contagiante “Shadow” (essa somente de Lanzon) é a próxima, num estilo que lembra algumas músicas do Heep dos idos de 1973, mesclando elementos de “Pilgrim”, “Sunshine” e “Dreamer”. O refrão tipicamente foi feito para ser cantado em uníssono ao vivo por banda e público. O momento instrumental inclui outro bom solo de Box. Segue-se “War Child”, outra ótima composição de Bolder, interessantemente também lembrando o Purple, com uma levada que soa de certa forma similar a músicas como “Perfect Strangers” e “Rapture Of The Deep”, com melodias reminiscentes de influências orientais, e altas doses de Hammond no arranjo, pesado e sujo na medida certa. O próprio solo de Mick Box lembra no início o estilo de Ritchie Blackmore, para depois seguir linha própria. O final pesado encerra o disco de forma inquestionável.

Embora não esteja nos lançamentos normais, há ainda uma faixa bônus chamada “You Are The Only One”, outra inspirada composição de Trevor. É difícil de entender o que fez com que ficasse de fora do disco, até por ser superior a algumas músicas que acabaram entrando, como “Heaven’s Rain” e “Book Of Lies”, mas de qualquer forma ela irá certamente aparecer em algum lançamento futuro. Talvez por ser um pouco mais “comercial” tenha sido a escolhida para ser tirada do CD, e ficar de “bonus track”. Mas a verdade é que possui um refrão muito cativante, comprovando a ótima fase de Bolder como compositor. Gilbrook se sobressai, num excelente e variado trabalho na caixa e pratos.

A arte do disco como um todo (capa, encarte, até o logotipo novo da banda) foi criada pelo artista norte-americano Ioannis, que já havia trabalhado com Deep Purple, Allman Brothers, Lynyrd Skynyrd, entre outros. Uma linha sóbria a caracteriza, e o resultado final ficou muito bom, sendo melhor observada na versão do disco em LP, lançada para os colecionadores (com capa dupla e tudo mais).

Um disco para se ouvir ALTO. São 50 minutos de duração total, sem exagerar na extensão, algo que se tornou infelizmente muito comum após o advento do CD e seus 80 minutos à disposição. Concorre com “Sea Of Light” como o melhor disco do grupo tendo Bernie Shaw nos vocais, e corre o risco de ganhar a parada. De uma forma geral, uma bola totalmente dentro da banda, que mostra ter fôlego para ainda alguns bons anos de rock pesado.

Tracklist:

1. Wake The Sleeper
2. Overload
3. Tears Of The World
4. Light Of A Thousand Stars
5. Heaven’s Rain
6. Book Of Lies
7. What Kind Of God
8. Ghost Of The Ocean
9. Angels Walk With You
10. Shadow
11. War Child

Sites:
http://www.uriah-heep.com
http://www.wake-the-sleeper.com

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Sobre Rodrigo Werneck

Carioca nascido em 1969, engenheiro por formação e empresário do ramo musical por opção, sendo sócio da D’Alegria Custom Made (www.dalegria.com). Foi co-editor da extinta revista Musical Box e atualmente é co-editor do site Just About Music (JAM), além de colaborar eventualmente com as revistas Rock Brigade e Poeira Zine (Brasil), Times! (Alemanha) e InRock (Rússia), além dos sites Whiplash! e Rock Progressivo Brasil (RPB). Webmaster dos sites oficiais do Uriah Heep e Ken Hensley, o que lhe garante um bocado de trabalho sem remuneração, mais a possibilidade de receber alguns CDs por mês e a certeza de receber toneladas de e-mails por dia.

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