Napalm e Cannibal: mostrando o que fazer num Shopping em Fortaleza

Resenha - Napalm Death e Cannibal Corpse (Espaço Jangada, Fortaleza, 22/09/2018)

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Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Duas das mais amadas bandas de metal extremo passaram pelo Brasil recentemente. Uma hora dessas as duas bandas já estão na América Central, mas o rastro de destruição que deixaram no Brasil se espalhou por nove cidades em oito estados. Um dos últimos locais por onde passaram espalhando sua música foi o Espaço Jangada, uma luxuosa (!) casa de shows dentro nada menos que de um dos shoppings mais tradicionais da cidade, o Iguatemi. E naquele sábado o Iguatemi ficou mesmo lotado de camisas pretas como jamais acontecera. Mentira! No início do ano a mesma casa e o mesmo shopping receberam os fãs do EPICA, mas, convenhamos, agora os sujeitos são bem mais mal encarados, né? Confira como foi a estreia do NAPALM DEATH no Ceará e o retorno do CANNIBAL CORPSE, com fotos de Rubens Rodrigues, em mais uma super produção da Liberation, que vem apostando firme no público cearense e, pela resposta que está recebendo, acertando em cheio.

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NAPALM DEATH

Logo que os pais do grindcore subiram ao palco do Espaço Jangada os cerca de mil headbangers que tomaram conta de metade do local (que era mesmo muito grande) enlouqueceram de vez. Era a primeira vez em Fortaleza que Mark "Barney" Greenway e o resto do quarteto (nenhum membro original, mas numa formação consolidada há décadas, embora com a sentida ausência do guitarrista Mitch Harris, que não faz mais turnês). O público queria mostrar, principalmente pra Barney e Shane Embury que sabe fazer roda como poucos lugares do mundo. Mesmo na declamada "Multinational Corporations", que abre o histórico "Scum" (e também o show), rapidamente seguida por "Instinct of Survival" já tinha roda no meio do salão. Claro. E o show inteiro foi uma grande roda, incansável, que parava por poucos segundos, só para Barney tomar uma água ou fazer algum dos seus discursos sobre causas sociais e a luta pela dignidade humana. O próprio Barney parecia que se sentiria bem melhor ali no chão no meio da roda pois não parava de percorrer o palco de um lado pro outro na sua dança punk frenética, epilética e descontrolada. Ele, meio como um instrutor, dava aulas pro povo como é que se roda num mosh irrefreável durante canções como "When All is Said and Done", "Unchallenged Hate" e "Smash a Single Digit", uma das novas.

Sentimos a falta de "The Wolf I Feed", mas pode ter passado rápido demais. E até quem escreve foi pra roda. Seria um pecado ir a um show do NAPALM DEATH e não se meter no meio da pancadaria. E uma atrás da outra, "Practice What You Preach", "Standardization" e "Everyday Pox", a do sax (acredita?), iam sugando, ou talvez alimentando, a energia do público. Barney fez questão de lembrar que a banda está na ativa desde 1981 antes de cantar a faixa que dá nome ao seu primeiro álbum, o já mencionado "Scum". E continuou com canções dele como "Life?" e "Control". Nesta ele lança a pergunta: "tem um fascista na sua cabeça?". Do jeito que as coisas vão, é melhor deixar pra lá, Barney. E ainda do "Scum", a banda até resolveu repetir uma música. Adivinha qual era?

Era aquela do "olhou pro lado, perdeu". Claro. "You Suffer". Tocaram duas vezes.

A loucura continou com "Narcoleptic": "Essa é sobre ficar com os olhos abertos". Adiante, alguém atira uma bandeira ao palco. Barney, a príncipio, fica surpreso. "Manowar?" E fez uma cara como se estivesse pensando "Por que diabos estão jogando uma bandeira do MANOWAR pra mim?", até se dar conta de que era a bandeira de um dos times de futebol locais. Pela cor assumimos que era do vozão, mas a roda não nos deixava ver direito. E se a roda era uma constante, em "Suffer the Children", mais death metal, a coisa ficou realmente perigosa.

"Todo mundo nesta sala merece uma vida de dignidade e felicidade sem ameaças . E fora desses paredes também todo ser humano merece", foi o discurso antes de "How the Years Condemn", também do mais recente "Apex Predator", lançado em 2015. E, muito apropriada para o momento brasileiro atual, a cover dos DEAD KENNEDYS "Nazi Punks Fuck Off" caiu como uma luva. Antes, Barney reforçou que era uma canção antifacista e os gritos de "Antifa", "Antifa", "Antifa" pipocaram aqui e ali pelo Espaço Jangada. "Vamos, em clima de amizade, gritar 'Punks Nazistas vão se fuder", conclama Barney.

Antes de terminar o show, Barney agradece e promete voltar em breve (tomara!) e, gentleman que é, não obstante a apresentação caótica, aconselha: "lembrem se de ter cuidado com vocês e tão importante quanto com quem está ao redor de vocês". No set oficial constam "Cesspits" e "Inside The Torn Apart", mas o que a gente viu mesmo foi "Siege of Power" (e eu acho que foi até melhor assim). Se eu estiver errado, botem a culpa na roda.

CANNIBAL CORPSE

Não dá pra enxergar o show do NAPALM DEATH como mera abertura do show do CANNIBAL. A apresentação da banda britânica é tão intensa que a meia-hora entre eles e o quinteto norte-americano pareceu muito pouco tempo para que o público recuperasse o fôlego. Essa é uma verdade tão irrefutável que, ao contrário do massacre que foi a primeira passagem de Paul Mazurkiewicz (bateria), Alex Webster (baixo), Rob Barrett e Pat O'Brien (guitarra) e George Fisher, em 2015, naquela noite o público parece que demorou um tanto a mais para perceber que aquela iluminação completamente vermelha sinalizava que a hora da violência havia chegado. Mas não foi tanto, "Code of the Slashers" já trouxe a galera de volta para a roda. Em turnê de divulgação do álbum mais recente, "Red Before Black", o quinteto mandou mais duas do álbum nesse início de show, "Only One Will Die" e a faixa título. E levantou os punhos da multidão na tenebrosa lentidão de "Scourge of Iron", uma das canções que serve de cartão de visitas do quinteto. "Evisceration Plague" foi outra muito bem recebida.

Com um show direto até chegar em "The Wretched Spawn", do álbum de mesmo nome lançado em 2004, George 'Corpsegrinder' começa a falar com o público. "Bem, bem, bem. Tá alto como vocês querem? Vamos tocar mais umas músicas pra vocês. Vocês estão prontos?" E soa até estranho ouvir a verdadeira voz de George de tão acostumados que estamos com o gutural que seu pescoço enorme emite.

O show continua misturando composições mais novas e clássicos, tentando dar lugar a pelo menos uma canção de cada disco. Mesmo álbuns mais recentes, como "A Skeletal Domain", acabam mantendo apenas uma canção no setlist (no caso, a ótima "Kill or Become"), fato que provavelmente se repetirá com o novo, "Red Before Black", mas ninguém reclama, uma vez que a qualidade em cada lançamento tem se mantido desde antes de Corpsegrinder assumir os vocais da banda. O público responde, sedento por Death Metal violento a cada uma, como foi em "A Skull Full of Maggots" ou "Devoured By Vermin", do "Eaten Back to Life" e do "Vile", respectivamente.

Uma que não pode faltar em nenhum setlist do CANNIBAL é a "romântica" "I Cum Blood". Antes dela, George avisa: "se vocês tentarem bangear como eu, vão falhar miseravelmente". E como não pode faltar mesmo o romantismo a la Cannibal, ele completa: "está é sobre sair sangue do seu pau". O Espaço Jangada ficou doido.

Se George é mais comunicativo, não se pode dizer o mesmo de Alex Webster e dos guitarristas Rob Barrett e Pat O'Brien, ou mesmo de Mazurkiewicz (este por razões óbvias). Eles ficam sempre muito concentrados na técnica extrema necessária para fazer o Jangada tremer, mas não quer dizer que estejam alheios a tudo à sua frente. Alguém grita dizendo que Alex é o melhor baixista, ele escuta, sorri e responde.

E George continua desafiando o público a bangear como se este fosse o último show de metal da vida de cada um. "Essa foi patética", brinca ele em "Stripped, Raped and Strangled". "Vou dar mais uma chance, vocês estão prontos?" É mesmo difícil competir com aquele monte de carne com cabelo girando como um ventilador, mas a gente tenta, George, a gente tenta.

Se o sonho dos diletos apreciadores do metal extremo de Fortaleza era ver o CANNIBAL CORPSE em sua cidade, o sonho aconteceu de novo. Antes de 2015 expressões como "só no dia 30 de fevereiro", "só no dia de São Nunca" ou "só quando o CANNIBAL CORPSE tocar em Fortaleza" diziam basicamente a mesma coisa, o raio caiu duas vezes no mesmo lugar. E depois de ouvirmos "Hammer Smashed Face" pela segunda vez ao vivo já estamos pensando na terceira. E que fique registrado aqui também que muita gente de cidades onde esse raio ainda não caiu, gente do Rio Grande do Norte, do Piauí e do Maranhão, veio a Fortaleza especialmente para o show. Quem sabe um dia o CANNIBAL toca por lá também (mas, passando por Fortaleza, claro).

Agradecimentos:

Liberation e Ultimate Music Press, pela atenção e credenciamento.
Rubens Rodrigues, pelas imagens que ilustram esta matéria.

Confira também a cobertura em vídeo destes dois shows no Detector de Metal

Setlist oficial Napalm Death

1. Multinational Corporations
2. Instinct of Survival
3. On the Brink of Extinction
4. Unchallenged Hate
5. When All Is Said and Done
6. Smash a Single Digit
7. The Wolf I Feed *
8. Practice What You Preach
9. Standardization
10. Everyday Pox
11. Scum
12. Life?
13. Control
14. You Suffer
15. Dead *
16. Victims of a Bomb Raid (cover de Anti Cimex)
17. Suffer the Children
18. Breed to Breathe
19. Call That an Option?
20. How the Years Condemn
21. Nazi Punks Fuck Off (cover de Dead Kennedys)
22. Cesspits *
23. Inside the Torn Apart *

. Podem ter sido suprimidas

Setlist CANNIBAL CORPSE

1. Code of the Slashers
2. Only One Will Die
3. Red Before Black
4. Scourge of Iron
5. Evisceration Plague
6. Scavenger Consuming Death
7. The Wretched Spawn
8. Pounded Into Dust
9. Kill or Become
10. Gutted
11. Devoured by Vermin
12. A Skull Full of Maggots
13. I Cum Blood
14. Make Them Suffer
15. Stripped, Raped and Strangled
16. Hammer Smashed Face



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Sobre Leonardo Daniel Tavares da Silva

Daniel Tavares nasceu quando as melhores bandas estavam sobre a Terra (os anos 70), não sabe tocar nenhum instrumento (com exceção de batucar os dedos na mesa do computador ou os pés no chão) e nem sabe que a próxima nota depois do Dó é o Ré, mas é consumidor voraz de música desde quando o cão era menino. Quando adolescente, voltava a pé da escola, economizando o dinheiro para comprar fitas e gravar nelas os seus discos favoritos de metal. Aprendeu a falar inglês pra saber o que o Axl Rose dizia quando sua banda era boa. Gosta de falar dos discos que escuta e procura em seus textos apoiar a cena musical de Fortaleza, cidade onde mora. É apaixonado pela Sílvia Amora (com quem casou após levar fora dela por 13 anos) e pai do João Daniel, de 1 ano (que gosta de dormir ouvindo Iron Maiden).

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