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Lulu Santos: quem mais seria capaz de misturar funk com solos?

Resenha - Lulu Santos (Centro de Eventos do Ceará, 22/10/2016)

Por Leonardo Daniel Tavares da Silva
Em 30/10/16

Fotos: Cristiano Machado

Luiz Maurício Pragana dos Santos é, talvez, da geração que explodiu no rock nacional nos anos 80, talvez um dos artistas de maior sucesso atualmente. Contemporâneos como PARALAMAS DO SUCESSO e BARÃO VERMELHO jamais deixaram de ocupar os corações e ouvidos dos fãs, CAPITAL INICIAL fez as pazes com o sucesso mais tardiamente(depois do "Acústico MTV") mas outros, como a LEGIÃO URBANA (que realmente chegou a encerrar as atividades depois do triste 11 de outubro de 1996, quando Renato Russo deixou este mundo) e RPM voltaram, mas se apoiam em sucessos do passado, sem nada de muito novo pra mostrar. LOBÃO, colega de VÍMANA de LULU, apesar de ainda lançar canções (muito) boas, é mais conhecido hoje por suas opiniões políticas que pela música. Roger, do ULTRAGE A RIGOR, uma das bandas mais bacanas daquela década, consegue a proeza de ter um QI altíssimo em um crânio acéfalo.Há, claro, os que vieram nos anos 90 e depois, mas, daqueles que surgiram na era de ouro do rock nacional e tomaram de assalto o Brasil, de Norte a Sul, LULU SANTOS é um dos poucos que continuam fornecendo hits ano a ano (a despeito - ou talvez, por causa - das guinadas na carreira, das aproximações com a música eletrônica e com o funk carioca). Com uma discografia invejável, a ClubeLux, turnê em que o guitarrista/cantor/produtor/jurado de reality show passeia por toda a carreira, não havia como não prever que a noite de sábado traria uma coleção de sucessos ao palco do Centro de Eventos do Ceará.

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Mas não foi sem chatear o público com uma longa demora que o músico carioca, acompanhado de oito outros músicos (saxofonista, baixista, baterista, backing vocal, percissionista, dois tecladistas (!) e até um DJ), iniciou seu show. Com abertura dos portões às 21h, quem estava mais ansioso para ver o astro de perto e chegou cedo pagou um preço a mais, a dor nos pés, para garantir um lugar em frente ao palco. O show só começou às 23:30. Nas redes sociais, inclusive, comentava-se o quanto artistas gringos (MAROON V, por exemplo) eram pontuais, enquanto os brasileiros (DJAVAN, LEGIÃO URBANA foram alguns nomes citados) eram afeitos a garantir a seus fãs, fartos chás de cadeira. Mas no caso da arena, sem cadeiras. Vamos melhorar isso, artistas brasileiros?

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Vamos ao show. Com o salão já cheio, demora perdoada ou esquecida, todos já cantavam "Toda Forma de Amor", para, em seguida, dançar ao som de "Já É", que começa bem funkeada/// (ainda com o funk de Brown, não o de Ludmilla), principalmente pelos toques bem anos 70 generosamente dados por Andrea Negreiros (backing vocals) e Milton Guedes (saxofone). O saxofonista continua se destacando na banda de LULU ao assumir a flauta em "Aviso aos Navegantes". E o público inteiro joga os braços no ar. LULU SANTOS arremata: "Só tem bom coração / quem faz assim com a mão".

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Um dos traços mais marcantes da música de LULU SANTOS é o fato de que seu autor é inquieto. Lulu abraça hoje um estilo, livra-se dele amanhã e abraça mais outro depois de amanhã, o que faz com que esteja sempre atento a novidades (claro, nem sempre novidades são boas), fazendo com que canções que furaram os discos nas rádios ainda sejam bem interessantes. "Assim Caminha a Humanidade", por exemplo, vem comum arranjo que possibilita que Sílvio Charles assuma uma cuíca.

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Era sábado. E "Sábado à Noite" não poderia faltar. E a música nem estava no setlist do show (apesar de ser frequente na turnê). Na primeira (das poucas) vezes que se dirigiu diretamente ao público, LULU agradeceu a presença de todos e lembrou que era a primeira vez que tocava naquele espaço, o Centro de Eventos, para, em seguida oferecer uma versão de "Um Certo Álguém", que até ficou bem indie com LULU tocando um ukulele, colada a "O Último Romântico", na mesma vibe.

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"Condição" começa funk carioca, com o DJ Sany Pitbull e Andreia ocupando os holofotes. Mas o que vem a seguir é um bombástico solo de guitarra, uma mistura impensável que só LULU SANTOS consegue se atrever a imaginar fazer. Ora, estamos falando de um artista que já misturou MPB com guturais e música eletrônica ("Fé Cega, Faca Amolada", de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, gravada por Lulu com vocais cheios de revolta no álbum "Liga Lá", de 1997). E ele faz. A salada de ritmos continua em "Tudo Azul", com trechos de "Baião", do verdadeiro Rei do Baião, do forró (do forró de verdade, não o de plástico das bandas que sonegam impostos) e do que melhor esta terra produziu, Luiz Gonzaga (em parceria com Humberto Teixeira). Aproximando a canção do ritmo nordestino, Sílvio pendura-se em uma enorme zabumba. Lulu nunca foi o rei do baião, nem soube fazer chover no sertão, mas a homenagem do "flagelado da paixão, retirante do amor, desempregado do coração" valeu.

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E se eu disse que Lulu era inquieto, "A Cura", começando cheia de efeitos, meio eletrônica, meio psicodélica. Uma boa versão de um dos muitos sucessos de novela. Já "Apenas Mais Uma de Amor" inicia apenas com LULU, sua voz aveludada, sua guitarra e o público.

"Vamos voltar para o século XXI, só um pouquinho, eu prometo", ele pede antes de "O Sócio do Amor", canção com um bom jogo de palavras do álbum mais recente, "Luiz Maurício", de 2014, seguida de uma volta à era disco, com "Dancing Days", cover das FRENÉTICAS, e por "Tudo bem", numa belíssima versão que emocionou o público.

"Luiz Maurício", música batizada depois de seu próprio autor (e que, portanto, mereceria um maior cuidado com a letra - duvidamos que se torne um clássico como "Minha Vida", por exemplo), foi introduzida com um set do DJ, passeando pela discografia de LULU, com canções como "Assaltaram a Gramática". E em "Adivinha o Quê", Milton Guedes tenta (de novo) roubar a cena com seu sax, mas a canção termina com um belo solo de guitarra. O jogo ficou em 1 x 1.

"Descobridor dos Sete Mares", sucesso de TIM MAIA. Sucesso de LULU SANTOS também, é o que vem na sequência. E já que falamos de praias, mesmo na estrutura luxuosa do Centro de Eventos dá pra ter um clima de luau com o medley de "Sereia", "De Repente Califórnia" e "Como Uma Onda". O medley escancara a semelhança entre "Sereia" e "Como Uma Onda", músicas irmãs. "Daria-me um imenso prazer se vocês cantassem, com seu sotaque e a sua voz", pede o astro. É prontamente atendido e joga o boné que usava para a multidão. É como agradece. Ele pediria silêncio mais tarde, em "Certas Coisas", no trecho "somos feitos de silêncio", mas, dessa vez, não foi atendido. O público continuou vibrando. "Gostoso", "delícia", alguém até grita.

O show se aproxima do final. Foi rápido. Uma boa quantidade de músicas, mas pouca interação direta com a plateia. Nenhum discurso. Nenhuma contação de estórias. E ninguém estava ali mesmo pra isso. O ClubeLux é uma coleção de sucessos radiofónicos, trilhas sonoras de novelas... algumas em diferentes versões, muitas com uma guitarra diferente da anterior. "Casa", a penúltima da noite vem com um solão de guitarra daqueles de valer o preço do ingresso, cheio de efeitos, demorado. Lulu se diverte, foge das limitações do pop, fica bem à vontade como guitar hero sem nenhum locutor de rádio inconveniente que venha falar bobagens interrompendo o solo que fecha a canção. Sim, Lulu é do funk (hoje, amanhã não sei mais), mas antes disso, antes de qualquer coisa, Lulu é do rock. E um solo como aqueles serve pra acabar qualquer preconceito.

O show acaba como começou a carreira solo de LULU, com "Tempos Modernos", primeira faixa de seu primeiro LP. Em 1982, LULU cantava "Eu vejo um novo começo de era, De gente fina, elegante e sincera com habilidade pra dizer mais sim do que não". Estamos em 2016 e ainda não chegamos nesse tempo. LULU é bom músico e compositor, cantor, mas um péssimo profeta. E não sabe fazer chover no sertão.

"Não é só a a saudade dos verdes mares, é a saudade de vocês que me trouxe aqui", despediu-se LULU SANTOS antes de pedir aplausos para o "elenco do espetáculo: Sílvio Charles (violão e percussão), Pedro Augusto e Hiroshi Mizutani (teclados), Sérgio Melo (bateria), Jorge Aílton (baixo), Andréa Negreiros (backing vocals), Sany Pitbull (DJ) e Milton Guedes (sax, flauta, gaita, etc). "Isso não começou ontem e nem vai acabar amanhã. Foi um prazer inesgotável tocar pra vocês hoje e lembrem-se, lembrem-se, espalhem a mensagem: faça amor ou então não faça nada", concluiu.

Demoras a parte, outros detalhes do show funcionaram bem. Iluminação, som, banheiros, segurança, tudo estava bem dimensionado, mas o que a produção merece mesmo elogios é pela área reservada aos portadores de necessidades especiais. Algo que ainda não é tão bem feito em Fortaleza (infelizmente) e, mesmo em São Paulo, recebe muitas críticas negativas (procure aqui resenhas do último show do BLACK SABBATH na capital paulista) naquela noite estava muito bem dimensionada. A fórmula é simples: local elevado mas não tanto, com boa visibilidade para seus ocupantes (não precisa ser colado no palco) e cadeiras para os acompanhantes (para que não atrapalhem a visibilidade de quem está atrás - apesar de que nem todos tenham essa consciência, mas aí vai da educação de cada um). O custo é enorme, claro. Estamos falando de um espaço onde caberiam bem mais pessoas sem as necessidades de um PNE e de uma estrutura que não é barata, mas, estamos falando também de respeito. E do direito dessas pessoas de pagar para curtir um show e realmente curtí-lo. Parabéns à produtora. Que continue assim e que seu exemplo seja seguido.

Agradecimentos:
Arte Produções, especialmente Louise Mezzedimi, pela atenção e credenciamento.
Cristiano Machado, pelas imagens que ilustram esta matéria.

Setlist:

1. Toda forma d amor
2. Já é
3. Aviso aos navegantes
4. Assim caminha a humanidade
5. Sábado a noite
6. Um certo alguém
7. O último romântico
8. Condição
9. Tudo Azul
10. A Cura
11. Apenas mais uma de amor
12. O sócio do amor
13. Tudo bem
14. Luiz Mauricio
15. Adivinha o quê
16. Descobridor dos Sete Mares
17. Sereia / De Repente California / Como uma Onda
18. Certas Coisas
19. Casa
20. Tempos modernos

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Sobre Leonardo Daniel Tavares da Silva

Daniel Tavares nasceu quando as melhores bandas estavam sobre a Terra (os anos 70), não sabe tocar nenhum instrumento (com exceção de batucar os dedos na mesa do computador ou os pés no chão) e nem sabe que a próxima nota depois do Dó é o Ré, mas é consumidor voraz de música desde quando o cão era menino. Quando adolescente, voltava a pé da escola, economizando o dinheiro para comprar fitas e gravar nelas os seus discos favoritos de metal. Aprendeu a falar inglês pra saber o que o Axl Rose dizia quando sua banda era boa. Gosta de falar dos discos que escuta e procura em seus textos apoiar a cena musical de Fortaleza, cidade onde mora. É apaixonado pela Sílvia Amora (com quem casou após levar fora dela por 13 anos) e pai do João Daniel, de 1 ano (que gosta de dormir ouvindo Iron Maiden).

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