Amon Amarth: O Ragnarök paulistano quebra jejum de dois anos

Resenha - Amon Amarth e Genocidio (Carioca Club, São Paulo, 17/05/2014)

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Por Durr Campos
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Passaram-se mais de dois anos desde que o Amon Amarth visitou nossas terras, porém pela intimidade intacta entre banda e público parecia ter sido ontem sua última passagem por esses lados. Em agosto de 2012 os vi no Wacken Open Air, quando fizeram um dos melhores shows do evento, mas nada comparado ao que presenciamos no último sábado em um Carioca Club lotado e sedento pelo mais puro death metal sueco de temática viking. A abertura ficou por conta do Genocidio, que preparou a plateia ao massacre que viria a seguir. Acompanhe o resumo dos fatos através de minhas palavras e dos cliques do Diego Cabral da Camara.

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GENOCIDIO

E mais uma vez tive a chance de assistir aos paulistanos do Genocidio. Vê-los em ação é sempre um gáudio deleite e desta vez foi exatamente assim. Pegando a casa cheia, iniciaram os serviços com “Kill Brazil”, arrasa-quarteirão de seu mais recente “In Love With Hatred”, lançado ano passado. “Rebellion” nos trouxe de volta aquela pegada ‘roots’ dos bom e velho death metal. A rifferama dela, bem como seu clima denso a faz uma das mais fortes em seu culto. A poga rolava solta em meio aos headbangers. Fiquei feliz pelo ótimo acolhimento ao quarteto!

Ouvir o hino “Encephalic Disturbance” sempre me faz recordar da importância do álbum “Depression” (1990) para o cenário brasileiro. Infelizmente ainda há muita gente que desconhece este magistral trabalho. Rogo para que após este pequeno clamor corram em busca dele, pois trata-se de uma das mais criativas obras já forjadas por um nome brasileiro da música pesada. “A música que fala sobre o futuro”, como o frontman Murillo costuma referir-se a “Heredity”, congrega uma das mais acertadas definições possíveis a ela. Sua pegada de vanguarda até hoje a coloca como algo moderno e creio que assim sempre será. Imagine-se de volta a 1993, quando editaram o “Hoctaedrom”, de onde esta vem, e pense em outra banda que tenha escrito algo parecido. Este álbum, aliás, seria mais ou menos o “Killing Technology” (Nota do redator: Álbum lançado pelo grupo canadense Voivod em 1987) de sua discografia.

“In Love With Hatred” não poderia ficar fora dessa, lógico. O peso nas seis cordas a credencia como das mais acertadas composições do quarteto. A cozinha formada pelo membro fundador Wanderley Perna (baixo) e o baterista João Gobo agrega muito em algo assim. O espavento em ouvir e ver “Condemnation” ao vivo pela primeira vez, no meu caso, foi uma grata surpresa, afinal tudo em “Posthumous” (1996) soa interessante se sua pegada é mais o lado doom/gothic do Genocidio. Seu instrumental possui algo até da NWOBHM, o que a posicionou de modo bastante inteligente devido à versão de “Come to the Sabbath”, do Mercyful Fate, tocada a seguir. Eu já a havia conferido mês passado quando abriram para o Obituary, mas desta vez ficou ainda melhor. As passagens de guitarra estão tão boas quanto a original, arrisco-me a dizer. O final veio novamente com “Uproar” e “The Clan”, algo que vem se tornando um agradável ritual.

Line-up Genocídio:
Murillo Leite – vocais/guitarra
Wanderley Perna – baixo
João Gobo – bateria
Rafael Orsi – guitarra

Set-list Genocidio:
Birth of Chaos (intro)
Kill Brazil
Rebellion
Encephalic Disturbance
Heredity
In Love With Hatred
Condemnation
Come to the Sabbath (Mercyful Fate cover)
Uproar
The Clan

AMON AMARTH

Amon Amarth é um dos nomes mais bacanas retirados do Senhor do Anéis, obra de J.R.R. Tolkien. A Montanha da Perdição, também denominada nos livros de Orodruin, é um vulcão localizado no centro da terra de Mordor, local onde o Anel de Sauron fora forjado pelo próprio e representa o fim da aventura de Frodo Bolseiro para destruir a pequena relíquia. Pois bem, o nome equivalente em Sindarin (Nota do redator: A língua élfica mais comumente falada na Terra-Média durante a Terceira Era) para Montanha da Perdição é o que batiza a banda sueca, que significa literalmente Montanha do Destino.

Como uma cordilheira de riffs, surge o quinteto liderado por Johan Hegg (vocais) entoando uma das mais recentes, “Father of the Wolf”, retirada de “Deceiver of the Gods” (2013), novo álbum de estúdio do Amon Amarth. A sequência matadora com a faixa que dá nome ao disco agora citado mostrou que apesar de não muito tempo nas prateleiras, a bolachinha já caiu no gosto dos fãs, pois tinham as letras na ponta da língua. O som estava claro e na altura adequada, podendo-se ouvir tudo com clareza. Ponto ao técnico de som que deixou no capricho as guitarras de Johan Söderberg e Olavi Mikkonen.

A banda, impressionada com a reação do público, era só sorrisos. “Boa noite, São Paulo! Boa noite, Brasil!”, cumprimentou Johan, que continuou: “Estão bem ou estão se sentindo ‘fodidamente’ sensacionais?”. A resposta denotou a emoção geral, intensificada com “Death in Fire” do “Versus the World” (2002), cujo vídeo você relembra mais ao final desta resenha. Assim como a totalidade daquele trabalho, esta composição mostrou à época um Amon Amarth mais ritmado e pesado do que em suas velozes investidas preliminares. Olavi destaca-se nela, sem sombra de dúvidas. Sua técnica soberba e inventiva é de um bom gosto ímpar e casa-se perfeitamente à dinâmica de Söderberg, responsável pelo solo nela.

Coladinha com a anterior, “For Victory or Death”, sensacional canção de um igualmente fabuloso registro, no caso “Surtur Rising” (2011), uma das melhores coisas lançadas naquele ano. O set-list ali já possuía aquele clima de “greatest hits”, apesar de que praticamente todo o almanaque do Amon Amarth desfruta da mesma característica pegajosa das escolhidas para aquela chona. O novo álbum retorna com “As Loke Falls”, inclusive das minhas favoritas nele. O público cantando as linhas de guitarra emocionou Johan. O destaque aqui é dele e do baterista Fredrik Andersson. Permanceram com o “Deceiver of the Gods” através da “ironmaideniana” “Coming of the Tide”. O que toca esse Söderberg não é possível descrever em palavras!

“Skål!” (pronuncia-se ‘skole’), brindou Johan aos seus súditos. “Vocês vão festejar conosco hoje? É sábado à noite então levantem seus drinks ou simplesmente os chifres!”. Era hora de “Guardians of Asgaard”, do premiado “Twilight of the Thunder God” (2008). Lembro-me que antes do lançamento deste havia uma grande expectativa devido aos diários de estúdio divulgados em vídeo na Internet. Ali já era possível perceber que o material possuía uma força tamanha, ainda mais pelas adições de alguns convidados especiais, a exemplos de Lars Göran Petrov (Entombed) na própria “Guardians...”, Roope Latvala (Children of Bodom) e do grupo finlandês Apocalyptica. Quando revelaram a belíssima arte da capa trazendo o deus do trovão Thor em batalha com seu arqui-inimigo Jörmungandr (Nota do redator: Na mitologia nórdica, Jörmundgander ou Jormungand, é o segundo filho de Loki com a gigante Angrboda. Tem o aspecto de uma gigantesca serpente. Segundo a lenda, Odin raptou os três filhos de Loki, sendo Jormungand jogado no grande oceano que circula Midgard, aonde viveu desde então. A serpente cresceu tanto que seria capaz de cobrir a Terra e morder sua própria cauda. Como resultado disso, ganhou o nome alternativo de Serpente de Midgard ou Serpente do Mundo), aí sim tínhamos a certeza da magnificência do álbum, confirmada pela posição 50 na Billboard 200 assim que lançado.

Eu não esperava que tocassem “Shape Shifter”, outra das atuais. A espantosa receptividade justificou sua inclusão. Ficou ainda mais bonita pela emenda a “Warriors of the North”, com seu início bem interessante. Com esta encerraram a participação de “Deceiver of the Gods” na batalha. Foram seis temas dele tocados no total, um pouco demais em minha opinião. Com “Runes to My Memory” fomos levados ao “With Oden on Our Side” (2006), um de meus álbuns prediletos do Amon Amarth. O vídeo dela e de outra do mesmo disco, “Cry of the Black Birds”, também tocada, você confere mais abaixo. O peso neste trabalho o fez superar em todos os aspectos seu antecessor, o regular “Fate of Norns” (2004). Tão bom cantar esta junto: “Here I lie on wet sand/ I will not make it home/ I clinch my sword in my hand/ Say farewell to those I love…”

Hegg pediu que todos seguissem seu comando antes de iniciar a ótima “Varyags of Miklagaard”. Com toda a casa pulando junta ficou ainda mais intenso e belo curtir uma das mais elegantes canções dos suecos. Seu final é apoteótico com um espetáculo vocal: “We!/ Set out from Svitjod’s/ Shores!/ With honor and/ Rewards!/ We return back/ Home!/ We return back/ Home!/ With honor and/ Rewards!/ We return back/ Home!”. A pesadíssima e cadenciada “The Last Stand of Frej” não poderia estar em lugar mais adequado, em especial por preceder uma tão distinta dela, “Destroyer of the Universe”, cantada de modo tão efusivo que o chão parecia tremer. “Tenho uma pergunta”, disse Johan. “Vamos enlouquecer?” Havia roda em todos os cantos do Carioca, mas ninguém deixou de cantar o refrão: “See me rise, the mighty Surt/ Destroyer of the universe/ Bringer of flames and endless hurt/ Scorcher of men and Earth...”

“Cry of the Blackbirds” é das mais queridas dentre os fãs. Deliciosa melodia e atuações individuais impecáveis. Tem tudo ali: velocidade, quebradeira, guitarras marcante e os urros mais fortes que você ouvirá por aí. Como eu supracitei, haverá o vídeo dela logo mais para nos deliciarmos, incluindo uma versão filmada por um fã durante sua execução ali. A obrigatória “War of the Gods” veio em seguida e com ela um dos momentos mais bacanas da noite. Precedida do famoso “olê, olê, olê, olê... Amon! Amon!”, quase arrancou lágrimas daqueles guerreiros nórdicos e promoveu uma energia incrível. Com esta eles se retiraram brevemente do palco para tomar um fôlego, voltando minutos após.

“Twilight of the Thunder God” iniciou o encore majestosamente. Se já findassem o concerto nela estaríamos provavelmente todos satisfeitos, pois se trata de uma das formosuras das mais brilhantes em toda a história do Amon Amarth. Como é possível não se enternecer ao cantar junto à banda seu refrão: “Thor! Odin's son/ Protector of mankind/ Ride to meet your fate/ Your destiny awaits/ Thor! Hlödyn's son/ Protector of mankind/ Ride to meet your fate/ Ragnarök awaits…” Se pretende apresentá-los hoje a algum amigo comece por ela. Hegg: “Infelizmente não podemos tocar muito mais. Que tal vocês gritarem bem alto para mandarmos mais uma?” Ele ainda citou o show do Rio de Janeiro para provocar a plateia e fazê-la bramir ainda mais alto. Conseguiu e ali estava a deixa perfeita para “The Pursuit of Vikings” clamar à Valhalla todas as bênçãos. Pode não ser das canções mais inspiradas, na verdade é até bem comum se comparada aos demais ritos, mas justiça seja feita e encerrar o escarcéu com ela foi como sobreviver com honra ao Ragnarök manifestado.

Em tempo, agradecemos a atenção e credenciamento por parte da Liberation Music Company.

Line-up Amon Amarth:
Johan Hegg − vocais
Johan Söderberg – guitarra
Olavi Mikkonen – guitarra
Ted Lundström – baixo
Fredrik Andersson − bateria

Set-list Amon Amarth:
Father of the Wolf
Deceiver of the Gods
Death in Fire
For Victory or Death
As Loke Falls
Coming of the Tide
Guardians of Asgaard
Shape Shifter
Warriors of the North
Runes to My Memory
Varyags of Miklagaard
The Last Stand of Frej
Destroyer of the Universe
Cry of the Black Birds
War of the Gods

Encore:
Twilight of the Thunder God
The Pursuit of Vikings

Vídeo de “Death in Fire”:

Vídeo de “Runes to My Memory”:

Vídeo de “Cry of the Blackbirds”:

Vídeo de “Cry of the Blackbirds” ao vivo em São Paulo:

Set completo de fotos em:
https://www.flickr.com/photos/diegocamara/sets/7215
(Diego Camara)

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Sobre Durr Campos

Graduado em Jornalismo, o autor já atuou em diversos segmentos de sua área, mas a paixão pela música que tanto ama sempre falou mais alto e lá foi ele se aventurar pela Europa, onde reside atualmente e possui família. Lendo seus diversos artigos, reviews e traduções publicados aqui no site, pode-se ter uma ideia do leque de estilos que fazem sua cabeça. Como costuma dizer, não vê problema algum em colocar para tocar Napalm Death, seguido de algo do New Order ou Depeche Mode, daí viajar com Deep Purple, bailar com Journey, dar um tapa na Bay Area e finalizar o dia com alguma coisa do ABBA ou Impetigo.

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