Ghost, Slayer, Iron Maiden: Resenha dos shows em Curitiba

Resenha - Ghost, Slayer, Iron Maiden (Bioparque, Curitiba, 24/09/2013)

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Por Haggen Kennedy
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O texto representa opinião do autor, não do Whiplash.Net ou dos editores.

Apesar do frio de 6ºC, os fãs em Curitiba não se deixaram intimidar. O local, um grande parque a céu aberto, era alvo de rajadas glaciais de vento que petrificavam até a alma. Nada disso, entretanto, dissuadiu a presença do público, que se concentrou no Bioparque em plena terça-feira para curtir as apresentações de Ghost, Slayer e Iron Maiden.

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Cumprindo com o horário rigorosamente britânico, o Ghost deu início a sua apresentação exatamente às 18:30 da terça-feira, dia 24/09/2013. O playback de “Infestissumam” logo dava lugar a “Per Aspera ad Inferi”, trazendo uma surpresa no mínimo interessante: paradoxalmente ao frio antártico do local, Curitiba foi a cidade que mais calorosamente bem-recebeu os suecos. No decorrer do set do grupo, o público gritava, aplaudia bastante ao final de cada música e alguns – principalmente quem estava na frente – chegava a cantar as letras. “Con Clavi con Dio” manteve a atenção da plateia, e em “Prime mover” e “Stand By Him” foi possível notar um certo arrefecimento por parte dos presentes – muitos dos quais, sem dúvida, viam a banda pela primeira vez. Todavia, a empolgação voltou depois de “Year Zero”, e as últimas duas, “Ritual” e “Monstrance Clock”, como de praxe, angariaram maior participação do público, em particular pelo refrão desta última.

Já foi-se dito antes (cf. resenha do show de São paulo, dia 20/09/13) que o Ghost é uma banda eminentemente teatral, cujo objetivo é retirar a atenção dada ao rosto físico do instrumentista, depositando-a, em vez disso, na música que se ouve. De quebra, dá uma mística especial ao som dos caras, principalmente se for levada em consideração a temática ocultista e/ou satânica desses suecos. A levada doom, que tende a prejudicar a apresentação do sexteto num contexto onde tocam dois outros grupos com um som mais “pra frente”, surpreendentemente encontrou um abrigo muito bem-vindo em meio ao público extremamente receptivo de Curitiba. Será que o frio teve algo a ver? De qualquer forma, não dá pra deixar de fazer uma pequena observação ao português de Papa Emeritus II, dono de uma pronúncia excelente no idioma.

Os californianos do Slayer subiram ao palco exatamente às 19:30, com a quebradeira habitual. Ao contrário de São Paulo, o som curitibano estava uma obra prima, e a selvageria das composições do grupo se aliaram à clareza do sistema sonoro, culminando numa performance primorosa. “World Painted Blood” aqueceu a plateia, que gritava “Slayer” a plenos pulmões, naquele rasgado vociferado por quem é fã, e “Disciple” colocou todos para berrar “God hates us all” no refrão. A plateia estava tão insana pela banda que Araya chegou a trocar a introdução da música seguinte: ao invés do rotineiro “are you ready?” repetido duas ou três vezes (a exemplo de São Paulo e Rio), a apresentação da música foi simplesmente a constatação, com surpresa: “I guess you’re ready”. E então: “War Ensemble!”, no bramido enfurecido do vocalista.

A pancadaria continuou com o set list padrão: “Hallowed Point”, “Dead Skin Mask” e “Hate Worldwide” fizeram o público esquecer do frio, e basicamente não há o que se dizer da beleza inerente de “Raining Blood”, posicionada estrategicamente entre “South of Heaven” e “Angel of Death”. As duas últimas músicas foram dedicadas a Jeff Hanneman (1963-2013), falecido por insuficiência hepática em 2 de maio de 2013, resultado de uma cirrose provocada pelo excesso de álcool. Entre as fotos que apareciam no telão, algumas mostravam até Hanneman com o próprio Gary Holt (EXODUS), guitarrista que o substituiu nesta turnê. Eram exatas 20:30 quando a apresentação do Slayer chegou ao fim, marcando precisamente uma hora de show.

Trinta minutos depois, ainda fiel ao horário, a levada alegre de “Doctor, Doctor” (UFO) contagiava o público, marcando exatas 21:00. Dali a pouco o playback operístico que acompanha as imagens de icebergs no telão já dava as caras, desembocando na introdução de “Moonchild”, para a emoção desregrada de quem se encontrava no Bioparque. Explosões, chamas e um som cristalino foram a abertura perfeita para impelir a totalidade da massa presente ao puro êxtase. O refrão épico da música de abertura deu lugar a “Can I Play with Madness?”, que estranhamente não teve a contagem de Bruce no início, mas bastaram os primeiros acordes para causar grande comoção na plateia.

O clipe introdutório de “The Prisoner” também foi acompanhado pelo público em voz cheia, e desnecessário dizer que “I’m a free man” foi entoado em alto e bom som do primeiro ao último refrão. “2 Minutes to Midnight” causou o furor habitual e logo depois percebia-se a primeira das diferenças entre o show de Curitiba e o resto do Brasil. Bruce brincou dizendo que pensava que a Antártica ficava muito mais ao sul, mas naquela noite parecia que se encontrava em Curitiba. Deu boas vindas a todos os presentes, chamando a atenção do público à temática glacial do “Seventh Son...”, concluindo logo depois: “mas nem precisávamos disso, pois dá pra fazermos nossa própria geleira hoje aqui”. Finalizou em tom jovial: “mas vamos levar logo a próxima música, senão viramos estátua aqui no palco”, referindo-se ao ar ultra gelado que soprava ali em cima. Puxaram “Afraid to Shoot Strangers”, portanto, sem qualquer comentário à letra da música e seu significado no mundo atual, ao contrário de São Paulo e Rio.

Logo depois emendaram “The Trooper”, onde foi possível notar que Bruce estava com problemas vocais. Notava-se-lhe a voz mais cansada do que no Rio, e definitivamente mais do que em São Paulo – show que abriu as apresentações da banda no Brasil. Cantou a música quase toda uma oitava mais baixo, dada a provável gripe que o assolava – ou isto ou o início de uma infecção na garganta. É um dos efeitos negativos de viajar por tantos locais com temperaturas diferentes em tão curto espaço de tempo. Quem sai dos 35ºC do Rio e pisa nos 10ºC de Curitiba de um dia pro outro corre o risco de não sair inteiro – principalmente para quem faz algum tipo de esforço, como é o caso de Dickinson, que corre, pula, dança e canta com extremo vigor no palco. A parte do solo teve ainda a participação da iguana atacando Dave Murray no lado direito do palco, seguindo o protocolo de todos os outros shows da Maiden England Tour de 2013.

Economizando a voz para se esforçar apenas nos momentos mais difíceis, Bruce seguiu adiante e levou ainda “The Number of the Beast”, com direito ao bode mecânico e à letra diferenciada (“I’ll possess your body and make Curitiba burn”), e logo depois “Phantom of the Opera”, grande clássico do primeiro full-length da banda, de 1980. Na sequência, “Run to the Hills” trouxe o primeiro Eddie ao palco, vestido como o colonizador europeu de que fala a música (“soldier blue in the barren wastes…”), e em seguida o clássico “Wasted Years” fez todos se esgoelarem com essa que é uma das melodias mais acessíveis da Donzela.

Depois disso, o Eddie de fundo do palco subiu e a atmosfera tomou ares de grande teatralidade: era hora de “Seventh Son of a Seventh Son”. Aqui, outra grande diferença: Bruce já não usava o sobretudo aberto, como fizera nos shows anteriores; incluiu também um cachecol em volta do pescoço; e não usou o gel no cabelo para fazer o penteado incomum durante a música. Porém, garantida a presença de Michael Kenney – técnico do baixo de Steve Harris – nos teclados, usando a habitual máscara baseada na peça musical homônima. O épico foi acompanhado de explosões no topo do palco, em visível substituição de “Rime of the Ancient Mariner”, e terminou em estilo para dar lugar à famosíssima linha de baixo de Steve Harris em “The Clairvoyant”. Tocaram ainda “Fear of the Dark”, claramente ainda uma das favoritas do público, onde Bruce fez o jogo de sempre com a letra (“I sometimes feel a little strange… Curitiba in the dark”). Terminaram a primeira parte do set com “Iron Maiden”, que incluiu a aparição do “Big Eddie” e seu feto móvel, que mais parecia estar “bangueando” dentro da placenta, antes de saírem do palco para o bis.

Com o palco imerso em escuridão, o telão de súbito mostrou um velho avião da Segunda Guerra e o discurso de Churchill. Era hora de “Aces High”, que o público comemorou vitorioso, por ser um clássico absoluto da Donzela. A ela seguiu-se “The Evil that Men Do”, entoada pelos presentes, e finalmente, com chave de ouro, “Running Free”, onde Bruce apresentou a banda – dessa vez, ao contrário de São Paulo e Rio, deixando de fora a brincadeira com Nicko McBrain, onde dizia que o baterista odeia fazer solos do instrumento.

O evento terminou com Bruce agradecendo efusivamente ao público pela presença numa noite tão fria de meio de semana, e deixando o palco com o “God bless you all, my friends” que lhe é quase tão peculiar quanto o consagrado “thank you, good night”. Steve e Nicko permaneceram por bem mais tempo no palco do que em São Paulo ou no Rio, claramente satisfeitos com o público em Curitiba. Enquanto o baterista agradecia a plateia no microfone com seu jeito bonachão, Steve comunicava-se olho-a-olho com quem estava na grade antes de finalmente saírem do palco e o playback de “Always Look on the Bright Side of Life” rolar no PA, acusando o fim de uma noite inesquecível.

Em tempo, algumas considerações: primeiro, a organização de Curitiba. A prefeitura cedeu ônibus inteiramente gratuitos a todos os pagantes do show, saindo do centro da cidade até o local do evento. Isso é algo especial, e mostra que não há necessidade de se ter um show da magnitude do Rock in Rio para fazer uma coisa bem-feita. Para quem vem de fora (como foi meu caso, além de incontáveis outras pessoas), foi uma mão-na-roda. Em segundo, a fidelidade dos fãs de heavy metal, que se deslocaram sabe Deus de onde (encontrava-se ali gente de todo o Brasil, de Porto Alegre a Salvador; de Manaus a Vitória do Espírito Santo) e encararam o gelo daquela noite com a febre de quem ama o estilo – em plena terça-feira, frise-se. O público em geral estava mais parado do que o de São Paulo e Rio (efeito do frio congelante?), mas o clamor e a paixão eram idênticos. Em terceiro, o som no Bioparque foi simplesmente o melhor do Brasil. Ao contrário do fraquejo de São Paulo, em que estava muito baixo; e do Rio, que estava muito alto numa área muito aberta e terminou embolando, o de Curitiba contou com uma equalização perfeita. Ouvia-se tudo, de qualquer lugar ali dentro – um som limpo, cheio e alto. Simplesmente grandioso. E finalmente, merecido elogiar as próprias bandas que fizeram a noite. Aquele foi um palco de muita energia, com grande dedicação de todos que se apresentaram. Seja na honestidade da performance do Ghost, no sorriso puro de Araya ao contemplar o público ou no esforço sobrehumano de Bruce frente a todas as adversidades, o fato é que esse tratou-se de um show verdadeiramente digno de recordação. Ao fim de tudo, inegável a sensação de total contentamento com uma noite excelente, em especial pelo sempre magnífico Iron Maiden, que esbanja qualidade e profissionalismo faça chuva, faça sol, faça calor ou faça frio – uma verdade literal, atestada pelo calor e chuva do Rio, e pelo frio de Curitiba.

Em suma, Curitiba teve o público que melhor recebeu o Ghost; o som que mais beneficiou o Slayer; e os pagantes que mais tiveram atenção da Donzela. Tudo isso regado a uma excelente organização que culminou num tom de sucesso triunfal naquela fatídica noite de terça-feira. Público, bandas e cidade: todos estão de parabéns.

SET LIST GHOST

1. Infestissumam
2. Per Aspera ad Inferi
3. Con Clavi Con Dio
4. Prime Mover
5. Stand by Him
6. Year Zero
7. Ritual
8. Monstrance Clock

SET LIST SLAYER

1. World Painted Blood
2. Disciple
3. War Ensemble
4. Mandatory Suicide
5. Hallowed Point
6. Dead Skin Mask
7. Hate Worldwide
8. Seasons in the Abyss
9. South of Heaven
10. Raining Blood
11. Angel of Death

SET LIST IRON MAIDEN

1. Moonchild
2. Can I Play with Madness
3. The Prisoner
4. 2 Minutes to Midnight
5. Afraid to Shoot Strangers
6. The Trooper
7. The Number of the Beast
8. Phantom of the Opera
9. Run to the Hills
10. Wasted Years
11. Seventh Son of a Seventh Son
12. The Clairvoyant
13. Fear of the Dark
14. Iron Maiden

- BIS -
15. Aces High
16. The Evil That Men Do
17. Running Free

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Sobre Haggen Kennedy

Nascido ao fim dos anos 70 e adolescido em meio ao universo metálico, Haggen Heydrich Kennedy já trabalhou e atuou numa vultosa gama de atividades, como o jornalismo, o desenho, a informática, o design e o ensino, além de outros quefazeres. Atualmente vive em Atenas, Grécia, onde estuda História, Arqueologia e Grego Antigo na Universidade de Atenas. A constante nesse turbilhão de ofícios, todavia, sempre constituiu-se de dois fatores: as línguas (ainda hoje trabalha com tradução e interpretação) e a música - esse último elemento, definitivo alimento espiritual.

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