Morbid Angel: pouco público e energia de sobra em São Paulo

Resenha - Morbid Angel (Cine Jóia, São Paulo, 23/05/2013)

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Por Durr Campos
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E lá se vão quase um ano e oito meses desde a última vez em que o MORBID ANGEL esteve à capital paulista. À época tocaram acompanhados de mais dois grandes nomes da cena, os noruegueses do Ragnarok e o Belphegor da Áustria, em uma das edições mais perversas do saudoso Setembro Negro, evento da também saudosa Tumba Produções. Devido ao nível daquela apresentação minha expectativa era alta, até porque entre um show e outro acabei vendo-os em Berlim, onde também "quebraram tudo" ao lado do Nile e Kreator. Mas o que interessa neste texto é o que ocorreu no Cine Jóia, local que visitei pela primeira vez e espero fazer isso novamente.

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Fotos: Fernanda Lira

Ao chegar por lá, a primeira constatação: a casa não lotaria. O que é pior, talvez nem a metade dela fosse preenchida. As desvantagens foram latentes, mas fiquemos com a que tange ter sido em uma quinta-feira às 23h30. O envolvimento de um produtor local não tão querido pelo público não foi confirmado por este que vos escreve, por isso prefiro concentrar-me à música em si.

Um pouco mais cedo que o previsto, o protagonista da noite surge frente a uma casa praticamente vazia. O fato não intimidou o quarteto, algo que o hino "Immortal Rites", que abre magnificamente o primeiro "Altars of Madness" (1989), confirmou. “Fall From Grace”/"Day of Suffering", do segundo "Blessed Are The Sick" (1991) veio na sequência, porém falhas no microfone do frontman David Vincet o impediram de iniciar os primeiros versos dela. Ainda obedecendo rigorosamente o set-list de 2009, a sensacional “Rapture”, canção que principia o terceiro e fabuloso "Covenant" (1993) foi anunciada após um breve agradecimento de Vicent. As três foram suficientes para provar aquela velha máxima do "quantidade não é qualidade", tamanha empolgação dos fãs. A energia foi ao palco, pois jamais vi, por exemplo, o líder e guitarrista Trey Azagthoth tão "empolgado", se é que esta palavra seja a mais apropriada quando trata-se dele.

David então pergunta se havia ali muitos old-school seguidores da banda e emendou com mais uma do debut, a poderosa “Maze of Torment”, recebida como merece. “Sworn to the Black” e "Blasphemy" encerraram a sequência inicial de clássicos. Como já era de se esperar, do mais recente escolheram as mais próximas do material antigo, a saber, “Existo Vulgore” – uma que podia estar facilmente em "Formulas Fatal to the Flesh" (1998) e “Nevermore”, velha conhecida muito antes da gravação de "Illud Divinum Insanus" (2011).

O baterista Tim Yeung (All That Remains, Hate Eternal, Vital Remains, Divine Heresy, World Under Blood, dentre outros) já nem pode mais ser considerado um membro convidado tamanho entrosamento e importância ganhos com a estrada e seu talento inquestionável. Pete Sandoval, afastado por motivo de saúde, faz falta ainda, mas já é hora de considerarmos mesmo sua saída permanente. Não sei vocês, mas andei bisbilhotando seu perfil no facebook e notei que todas as suas postagens possuem referência à Bíblia, algo que me fez questionar se de fato saúde foi o principal motivo de seu afastamento. Completa o quarteto de Tampa, Flórida, o norueguês Destructhor (aka. Thor Anders Myhren) comandando as seis cordas ao lado do chefão Trey Azagthoth desde 2008.

De volta ao "Altars of Madness" tivemos um duo de levantar qualquer um: "Lord of All Fevers and Plagues" e uma de minhas favoritas - e também de nossa fotógrafa Fernanda Lira - "Chapel of Ghouls". Creio que ela deve estar ainda sentindo o pescoço. Sobre a primeira citada não posso deixar de mencionar seu refrão contagiante: “Ia iak sakkakh/ Ia sakkakth/ Ia shaxul/ Ia kingu ia cthulu ia azbul/ Ia azabua”, cantado em uníssono. Em seguida tivemos o já famoso solo de guitarra de Trey, uma mistura de improvisos, arpejos, noises e muito experimentalismo. O momento foi perfeito para sacarmos o quão criativo e ousado é este músico. Impressionante ainda haver fãs mais "die hard" os quais insistem em esperar sempre o mesmo dele. Outra dobradinha mega funcional fica por conta de “Dawn of the Angry” e “Where the Slime Live”, ambas do quarto álbum "Domination" (1995). O já mencionado álbum "Formulas Fatal to the Flesh" fora lembrado com a ótima “Bil Ur-Sag”, única da fase sem David Vincent tocada, coladinha com "Blood On My Hands".

Encerraram com a obrigatória “God of Emptiness”, talvez a mais perfeita para tal missão se observarmos sua discografia de ponta a ponta. As vocalizações de David Vincent ali beiram a perfeição. "World of Shit", antes prevista, acabou não sendo tocada para a frustração geral.

Saldo final: apesar de triste em ver uma banda dessa magnitude tocar em um local tão vazio e sob uma qualidade de som não condizente a sua importância, estar ali no Cine Jóia naquela quinta-feira meio chuvosa e fria pareceu fazer parte de um concerto particular, privado, daqueles feitos para colarmos no palco - que nem teve o pit de fotógrafos - e curtirmos cada segundo de música sem empurra-empurra ou maiores transtornos.

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Sobre Durr Campos

Graduado em Jornalismo, o autor já atuou em diversos segmentos de sua área, mas a paixão pela música que tanto ama sempre falou mais alto e lá foi ele se aventurar pela Europa, onde reside atualmente e possui família. Lendo seus diversos artigos, reviews e traduções publicados aqui no site, pode-se ter uma ideia do leque de estilos que fazem sua cabeça. Como costuma dizer, não vê problema algum em colocar para tocar Napalm Death, seguido de algo do New Order ou Depeche Mode, daí viajar com Deep Purple, bailar com Journey, dar um tapa na Bay Area e finalizar o dia com alguma coisa do ABBA ou Impetigo.

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