Helloween e Gamma Ray: Os melhores do Melódico e do Power em BH
Resenha - Helloween e Gamma Ray (Chevrolet Hall, Belo Horizonte, 18/04/2008)
Por Maurício Gomes Angelo
Postado em 24 de abril de 2008
Anos atrás, quando Helloween e Gamma Ray começaram, pela primeira vez, a fazer as tais pequenas jams de reunião ao final do show, na Europa, pensei: que bom seria se isto ocorresse no Brasil. Finalmente, isto foi possível.
Não por acaso, sempre achei duas coisas, comprovadas após o concerto: o Helloween é a melhor banda de heavy melódico e o Gamma Ray a melhor do power metal. Tais nomes resumem e definem um estilo com maestria, talento e uma capacidade de fazer hinos impressionante. Para ser sincero, são as únicas dentro do gênero que merecem meu irrestrito respeito e admiração, bem como as únicas que consigo ouvir até hoje. São carreiras longínquas, de uma regularidade incrível. Cada álbum de tais grupos é praticamente um atestado de qualidade e competência. Você sempre achará composições acima da média ali. E músicas capazes de ultrapassar o tempo, sem se tornarem datadas ou desnecessárias.
Pontualmente às 21:00 hs a trupe de Kai Hansen sobe ao palco, mandando logo "Into The Storm". Com o tempo de show reduzido pelo formato do evento, o que se viu foi um set todo calcado em clássicos, um deleite para os fãs. Como se gosta muito de falar em "entrosamento", o clichê cabe bem ao grupo: Kai, Henjo Richter, Dirk Schlächter e Dan Zimmerman são precisos e milimétricos. Músicas velocíssimas executadas praticamente de modo perfeito – destacando-se em especial os solos fiéis reproduzidos por Henjo e o incansável Zimmerman, em tempos e conduções infalíveis. 12 anos de estrada juntos – numa estabilidade que o Gamma Ray jamais teve até a entrada dos dois – sem dúvida elevou o poderio das composições e trouxe álbuns num crescendo constante.
Kai, simpaticíssimo, é um perfeito frontman – a noite, aliás, não poderia ter dois homens de frente melhores. Interagindo com o público, puxando coros e participações coordenadas, como na maravilhosa "Heavy Metal Universe", o grupo não deixou ninguém piscar, mandando hinos como "Valley Of The Kings", "Rebellion In Dreamland", "Ride The Sky", "Somewhere Out In Space" e "Send Me A Sign". Todas sinônimo de power metal. E que funcionam muito, mas muito bem ao vivo. As novas músicas, ainda pouco conhecidas, foram recebidas com maior frieza, mas demonstram que o grupo teve sucesso na segunda parte do clássico "Land Of The Free" – a principal falta no set list, ao lado de "The Silence", uma das melhores baladas do metal. Contudo, foi uma experiência para ninguém reclamar.
Após longos preparativos e ajustes, o Helloween sobe ao palco, belamente decorado para a turnê do ótimo "Gambling With The Devil". Quem esperava uma música nova de abertura foi surpreendido com a soberba "Halloween", sem deixar nenhuma saudade de Michael Kiske. Aproveito para dizer que, pra mim, Kiske é muito mais mito que qualquer outra coisa. Bom vocalista, claro, tremendamente eficiente e límpido nos agudos, mas limitado, demasiado "happy happy", esquecendo que o "hell" vem depois. Se você colocar na balança, produziu dois ótimos CDS com a banda, os "Keepers", e dois médios/fracos "Chameleon" e "Pink Bubbles Go Ape". Ou seja, neste tempo o nome de Kiske foi desmensuradamente elevado e glorificado numa adoração exagerada e sem razão de ser.
Andi Derris, querendo ou não, representou não só uma volta do Helloween ao espírito do espetacular "Walls Of Jericho", como injetou vida nova e um contorno muito mais interessante às composições. Com ele, temos um Helloween mais pesado, agressivo, perigoso, direto, hard, com intensidade, balanço, riffs, técnica e sem nenhum prejuízo de clássicos: pelo contrário, nos últimos 14 anos a banda produziu hino atrás de hino, fato comprovado pelo set list deste show, que embora excelente, poderia conter inúmeras outras composições. Seu vocal é mais polivalente, rasgado, contém peso e melodia de modo equilibrado. Felizmente ele saiu da sombra de tentar reinterpretar Kiske, como fazia no início, gerando atuações às vezes constrangedoras. Sem receio e dono de si, Derris evoluiu e produz muito mais, sabendo que ele é a voz do Helloween, mais que qualquer outro.
Isto se faz notar na presença de palco. Vestido a caráter com uma jaqueta do novo CD, Andi domina a cena, tem o público na mão, e literalmente, sem usar nenhuma expressão polida, "desce o pau" cantando muito tanto nas rápidas e pesadas, como nas baladas mais lentas, além de dar sua própria interpretação às músicas da fase Kiske – hoje é muito melhor ouvir "Eagle Fly Free", "Halloween", "Dr. Stein", "March Of Time" e "A Tale That Wasn’t Right" na sua voz do que era há alguns anos atrás. Em tons bem baixos e mais rasgado do que nunca, tanto melhor, é ele dando o melhor de si, a frente, com muita competência, do maior nome do heavy melódico.
Nota-se, também, que Sascha Gerstner (guitarra) e Dani Löble (bateria) demoraram pouquíssimo tempo para se sentir a vontade no grupo, indo além de simplesmente executar seus papéis. Markus Grosskopf é "a" figura no palco, o mais feliz e empolgado, satisfeito por fazer o que gosta. E Michael Weikath continua poser como sempre, com seu ar blasé de rock star, mas sem comprometer.
"Sole Survivor" foi um ponto altíssimo, a exemplo das anteriormente citadas, e, surpreendentemente, "The Bells Of The 7 Hells" também: que exemplifica o quanto Derris sabe tornar as músicas novas conhecidas e marcantes, naquela brincadeira de fazer o público cantar o refrão em etapas, aula de como produzir clássicos. E a música, além disso, é mesmo boa. Sobre o solo de bateria, chega a ser covarde desprezá-lo, dada a tamanha obviedade do quanto ele é anti-climáx. Passando por cima disto, chegamos a "If I Could Fly", balada diferenciada, que foi bem recebida.
Para tentar abarcar o máximo de músicas possível em pouco tempo, a banda atacou com um interessante medley composto por "Perfect Gentleman", "Where The Rain Grows", "I Can", "Power" e "Keeper Of The Seven Keys". Umas apenas com uma pequena parte executada – como "Power", lamentavelmente negligenciada – mas com um encadeamento muito bem feito e que manteve o público alto o tempo todo, cantando e acompanhando sem esfriar, neste que é um recurso bem vindo se bem feito, e o Helloween o fez muito bem.
Como todos esperavam, o final ficou por conta da reunião entre eles e o Gamma Ray, mandando "Future World" e "I Want Out", duas músicas adoradas e bem no espírito "happy happy helloween", que deve ter arrancado lágrimas dos mais emotivos e contou até com passos ensaiados pelos integrantes, naquelas coreografias clássicas do metal. Pouco a se objetar. Um dos melhores shows que a capital mineira já viu.
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