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Por Rodrigo Contrera, Fonte: Rodrigo Contrera
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Lembro-me como se fosse hoje quando comprei o The Number of the Beast, em LP, após ganhar meus 15 sei lá o quê (cruzeiros, cruzados, não me recordo), que corresponderam ao primeiro dinheiro que ganhei fazendo um trabalho (vendendo livros de porta em porta). Lembro-me de como devorei o LP, ouvindo-o no único aparelho que tínhamos, com as caixas no banheiro, e como eu afundei literalmente no baixo do Steve Harris, em porradas como a faixa-título, Invaders, Hallowed by thy Name, e muitas outras, até quase riscar o LP.

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O Iron, quando eu conheci, me surpreendeu pela pegada. E eu o conheci direto por aquele LP, já passados três anteriores (Iron Maiden, Killers e o curto Maiden Japan). Claro que tinha aquele negócio do número da besta, da capa, do Eddie e tudo. Claro que tinha o vídeoclip que passava na tv, e que mostrava a pujança do baixo do Steve Harris, o jeito tranquilo com que Dave Murray tocava nas cordas, e a pegada absurdamente de mau gosto com que o Bruce Dickinson cantava. Tinha também o Eddie, mas ele não me agradava muito ali. Mas havia uma remissão a algum tipo de história, seja a seriados, filmes, à própria história do Apocalipse e à Besta, com seu 666, mas tinha também uma pegada urbana, dado que falavam de prostitutas, que a ideia de uma Gangland dominava meu imaginário (com os Warriors, o filme que passava na tv ou no cinema, não me recordo), e muito mais. Além do fato de falar de um condenado à morte, em seus últimos momentos, que passava um drama expresso a tal ponto de drama que escapava do "Adeus, mundo cruel", mas se referia a Deus, "Abençoado seja Teu nome", algo que em minha educação cristã pegava muito pesado. Claro que havia também as críticas, e lembro-me bem quando li uma delas, numa revista no Centro Cultural São Paulo, em que o sujeito abordava especialmente o trabalho do baixo. Com um destaque todo especial.

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Eu ouvia o LP tardes a fio no banheiro, tentando introjetar o baixo em mim, quando fazia cursinho e tentava passar na faculdade (o que consegui). Sei que depois eu iria comprar os dois primeiros LPs da banda, e depois o ao vivo no Japão. E foi aí que eu percebi que eles haviam sido bem mais toscos e assemelhados a um som rasteiro, que haviam tocado em lugares pequenos e da classe operária (era a época Thatcher, que tinha deixado muitos sem emprego), que não ligavam para a opinião das gravadoras, que fizeram sua história simplesmente tocando, por meio de cotoveladas. Era também a época punk, e eles não tinham nada a ver com eles, e pareciam até se distanciar dessa forma de entender seu trabalho como uma nova onda de heavy metal. Eles não me pareciam muito afeitos a querer se enturmar. E eu sempre os encarei assim. Nunca consegui assemelhá-los a nenhum outro.

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Por incrível que pudesse parecer, o primeiro LP deles era ainda mais a minha cara do que o The Number of the Beast. A gravação era tosca, bem mal feita, e havia pegadas ali que no The Number não existiam mais. Por exemplo, o The Phantom of the Opera. Eu nunca tinha ouvido antes músicas daquela complexidade tocadas com tanta raiva e ao mesmo tempo precisão. E o tema, se por um lado me escapava, por outro me remetia a uma tradição - e eu sempre fui um sujeito de tradições. Os andamentos que variavam, o pequeno solo do baixo, os diálogos com as guitarras estridentes, era algo que me conquistava para valer porque não me mostrava muita simplicidade, bem ao contrário. Me dizia que os caras sabiam o que estavam fazendo. Por outro lado, havia também um jeito determinado de cantar a liberdade que me agradava muito (Running Free), e a própria ideia de escolher um instrumento de tortura para imagem do próprio nome do grupo era algo acachapante - ao menos para um rapazola que mal conhecia realmente de história. O Di Anno também convencia, porque não parecia se assemelhar à ideia de rock star, e os caras pareciam bem jogados, meio à toa, mas sabendo que estavam ali para valer. Eles tocavam para fazer sucesso. Queriam o sucesso, mas do jeito deles.

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Mas foi com Killers que eu meio que fiquei de quatro, se bem consigo me expressar. Não tanto pela provocação da capa, que colocava o Eddie matando a Margaret Thatcher (na hora eu não reparei), nem pelo título (Assassinos), a bem da verdade. Mas pela entrada. Os Idos de Março hoje eu sei a que se referem, e é a Roma (procure quem tiver um Google aí). Mas uma pequena faixa, assim, instrumental, soturna mas ao mesmo tempo altaneira, algo tinha a me dizer para além de uma mera banda de rock. Pois os Idos de Março remetiam à morte de Júlio César nas mãos de Brutus, e portanto a um gesto de força, de traição e de algo que deveria acontecer. Ou seja, o devir, o destino. A grande sacada, claro, da banda foi jogar Killers logo em seguida, com aquele pequeno solo introdutório do baixo meio que anunciando o ponto de vista. Que era, o assassino está à sua porta, você não está sozinha/o, algo te espreita. Ou seja, a vida em qualquer subúrbio ou cidade grande. Confesso, contudo, que a ideia do assassino nunca me pegou de verdade, mas as duas faixas, assim, jogadas, eram algo de respeito que realmente mudou o meu gosto para sempre. Eu seria sempre Iron (ou não?). E outro aspecto se destacava: as faixas ainda eram sujas, os solos sujos, porém bem tocados, os temas estranhos, e o andamento, em geral, superrápido, que poderia levar alguns a achar que eles eram do ramo punk, mas não eram. Era só pegada dura, pesada, com a batera do Clive Burr, que arrasava também em The Number of the Beast.

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Quando veio Piece of Mind, contudo, eu estranhei. Aquela pegada do Killers havia sido deixada para trás, para não voltar, e eles agora entravam em certos experimentos de melodia e de temas que me faziam pensar. O que tinha a ver aquele livro Duna, que deu origem a To Tame a Land (e que era muito legal de ouvir)? E o Quest for Fire, ligado a um filme sobre o começo da humanidade, dos seres humanos? E o vôo de Ícaro? E o The Trooper, então, sobre guerras que eu não conhecia? Eu ficava estranhado com aquilo, e ainda mais com a foto de todos os membros, com um cérebro no meio da mesa. Mas eu adorava, embora não fosse exatamente aquele Iron de Killers e ficasse um pouco aquém de The Number of the Beast. O que me surpreendia naquela época era o vozeirão do Bruce, que gritava a não mais poder, sem ligar para qualquer bom gosto que pudesse torcer o nariz àquilo. Foi com Piece of Mind que eu começava a me familiarizar com faixas longas, estratosféricas, com andamentos variáveis, meio que flertando com o progressivo mas sem a chatice ou vontade de aparecer de um Pink Floyd, que eu já ouvira e do qual gostara, mas cujos excessos me estranhavam, e cujo lirismo me enchia um pouco o saco. Eu era apenas um jovem, caramba. Não era um homem destruído pelas lembranças.

Foi nessa época ou um pouco antes que eu frequentei, por poucas vezes, casas de shows em que passavam os shows do Iron em telões e em que os headbangers curtiam o som. Eu me lembro bem de ter ido a um desses shows na Brigadeiro Luís Antônio, e de ter conseguido passar com um canivete, pois eu imaginava que poderia rolar briga ali naquele tipo de recinto, e eu queria me precaver. Lembro-me que eu era um mero moleque, e que meus pais não ligavam para minhas manias desse tipo. A eles, agradeço fortemente. Só sabe quem teve juventude quem a teve.

Quando chegou Powerslave, então, eu literalmente pirei. Eles pareciam não ter limites. Foram até o Egito, recuperando seu visual, e fazendo o deles, e começavam falando de algo que me tocava muito especialmente: a primeira batalha aérea de que temos notícia, na defesa do Reino Unido contra Hitler, em Aces High. A questão dos aviões me pegava em especial porque eu havia visto, quando tinha apenas 6 anos, os militares derrubarem o presidente Allende, no Chile, em 1973, e guardara a impressão da força que as armas tinham (eu não ficara apenas nisso), em especial os aviões (além de ter uma obsessão por estratégia, área para a qual faria curso posteriormente, e sobre o uso da força). Mas um aspecto realmente me mantivera teso, em alerta, sem saber como entender o que acontecia: o colosso que foi Rime of the Ancient Mariner, uma obra extensa de 15 minutos (acho, não conferi agora), que levantava a bola de uma grande poesia, com base numa mensagem que me acalentava: o poder do pequeno ato, do pequeno ato fortuito errado, e que pode comandar nossa vida futura (no poema, um marinheiro mata um albatroz, o pássaro da boa sorte, por Coleridge). Lembro-me de ler a letra da música (que tem dois trechos do poema) num ônibus, descendo a Augusta, e chorar de emoção. Foi a forma que eu encontrava de me aproximar dos clássicos que a faculdade não me dava e que eu iria reencontrar depois. Muitos de vocês, eu sei, consideram Powerslave o maior de todos os LPs da Donzela. Eu não sei, sinceramente. Sei apenas que não me cansei de ouvir o LP, agora em meu quarto, e que foi ali que eu encontrei o liame com a história e com a literatura de que eu precisava (como outros jornalistas também fizeram).

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Sei que o Iron veio ao Brasil, e que eu fui aos shows. Sei que não aguentava muito bem a jogada da galera da frente, sempre amontoada e sofrida, sei que eu gostei de tudo e gastei bastante em revistas sobre a banda - revistas que ainda possuo.

Claro que minha paixão continuou quando vieram Somewhere in Time e Seventh Son of a Seventh Son, mas os ingredientes estavam já dados, e se mudassem provavelmente eu cairia fora - além do que estava ouvindo outras coisas, também. Houve momentos de profunda identificação com meu momento histórico, quando imaginei meu pai - olha só - dando uma de Alexandre o Grande em uma das faixas do primeiro, e quando já me imaginava tocando o baixo como o Steve, em diversas faixas do segundo CD (agora já era CD). Mas aos poucos eu sentia que estava me afastando. E assim foi, quando, apesar de comprar alguns dos CDs posteriores da Donzela, eu já não conseguia ficar tão aceso, tão animado, tão jovem. Era uma nova época, essa, época de uma nova geração, que gostava agora de clássicos mais lentos e mais baladeiros (o Iron dificilmente falava realmente de amor, mas passou a fazer isso também), e que apreciava o Iron por outros méritos, que não deviam ser menores, não, mas que não eram mais bem os meus.

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É assim que, contudo, a Donzela ainda bate em minha vida, com influências que deixou, marcantes, e que quis compartilhar com vocês, esperando - quem sabe - histórias legais de outra parte. Porque, todos sabemos, Up the Irons!


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Sobre Rodrigo Contrera

Rodrigo Contrera, 48 anos, separado, é jornalista, estudioso de política, Filosofia, rock e religião, sendo formado em Jornalismo, Filosofia e com pós (sem defesa de tese) em Ciência Política. Nasceu no Chile, viu o golpe de 1973, começou a gostar realmente de rock e de heavy metal com o Iron Maiden, e hoje tem um gosto bastante eclético e mutante. Gosta mais de ouvir do que de falar, mas escreve muito - para se comunicar. A maioria dos seus textos no Whiplash são convites disfarçados para ler as histórias de outros fãs, assim como para ter acesso a viagens internas nesse universo chamado rock. Gosta muito ainda do Iron Maiden, mas suas preferências são o rock instrumental, o Motörhead, e coisas velhas-novas. Tem autorização do filho do Lemmy para "tocar" uma peça com base em sua autobiografia, e está aos poucos levando o projeto adiante.

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