Motorhead: Lemmy e o direito de morrer como quiser

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Por Alexandre Campos Capitão
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Lemmy é uma lenda. Como personagem e autor da própria história, a última página da sua biografia está ainda em branco, e o final dessa história está unica e exclusivamente nas mãos do seu mestre.

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Nascido Ian Fraiser Kilmister há quase 70 anos, foi roadie de Jimi Hendrix, reinventou-se após ser demitido do Hawkwind. Como frontman, criou uma forma única de cantar e tocar baixo.

Lemmy pode ser comparado à gigantes corporativos do porte de uma Unilever, tantas são as marcas registradas que possui. Ele é todo trademark. A voz, a barba estilo Dom Pedro, a posição do microfone, o timbre do baixo, a maneira de tocar, o lifestyle, a maneira de compor, o folclore ao seu entorno, e até mesmo suas verrugas.

Poderíamos chamá-lo de gênio. Mas ele não deixaria, sempre preferiu caminhar pela simplicidade. Cita Little Richard como um dos ídolos. Diz que sua banda toca rock´n roll, ainda que seus seguidores sejam o público do metal.

Uma vida bem vivida e marcada por excessos e ausência de regras vem cobrando seu preço. É, demorou, mas a conta chegou. Nas entrevistas, o assunto já não é mais quantas mulheres caíram de boca no seu rickenbacker, o tema agora é o tratamento, se parou de beber, se parou de fumar, suquinho de laranja.

Embora a criatividade e a produtividade permaneçam em alto nível, como está provado em Aftershock e nas canções divulgadas do vindouro Bad Magic. No entanto, a energia criativa do trabalho em estúdio não encontra bioequivalência nos palcos. Os pontinhos de bateria que ainda lhe restam, não tem sido suficientes para cumprir a rotina de viagens, translados, horários, passagens de som. E, com isso, vários compromissos tem sido cancelados ou parcialmente cumpridos.

O Motorhead já adiou turnê para aguardar uma melhor condição física de Lemmy, shows foram cancelados, incluindo no Brasil. E outros foram interrompidos, como recentemente nos EUA.

E aí, os coveiros de plantão ganharam força. Jornalistas, veículos de comunicação, arautos das redes sociais, uma verdadeira multidão tem defendido a tese de que Lemmy deveria se aposentar. O mundo do rock se transformou na convenção mundial de peritos do INSS.

“Um absurdo, ele deveria saber a hora de parar, lamentável, a produção deveria se tocar, tem que devolver o dinheiro do ingresso.” Decretaram o seu fim. Tudo devidamente assinado, carimbado, em três vias.

Lemmy viveu a sua vida da maneira que quis. Rápido, intenso, pesado, sujo, como se cada segundo da sua existência fosse a introdução de Ace of Spades, repetida e ininterruptamente. Da mesma maneira que escolheu como viver, ele também tem o direito de escolher como morrer. E se é no palco que ele quer morrer, esgotando o último sopro da sua existência enquanto tenta palhetar seu baixo. Pois que assim seja. Amém.

Quem são vocês que se julgam no direito de opinar sobre como deve ser o último capítulo de mais de 70 anos de um mito? Para todos aqueles que desejam Lemmy sentado no sofá, numa cama de hospital, ou num asilo, uma sugestão: introduza o dedo indicador esquerdo no seu reto, até a altura da falange média, deixe por alguns segundos, retire, e o coloque em seguida dentro da sua cavidade nasal. Esse procedimento pode ser repetido quantas vezes forem necessárias.

Eu particularmante prefiro ver Lemmy subir ao palco e tocar apenas três canções, do que ver muita bandinha que temos por aí tocando 30.

Desejo que ainda possamos vê-lo trabalhando por mais tempo, vencendo a mais pessimista realidade. Que ele continue trabalhando, tocando, compondo, produzindo, ou apenas tentando. E quando a hora chegar, que Lemmy esteja no palco, no backstage, numa passagem de som, num estúdio, de bengala ao lado de uma groupie.

Seja como for, no seu gran finale, é ele quem vai chutar o traseiro da morte.

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