Rock no Brasil: Nascimento, Vida, Paixão e Morte

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Por Luiz Carlos Barata Cichetto, Fonte: Barata Cichetto
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A história do Rock no Brasil começou ainda em 1955, com a gravação de "Rock Around The Clock" de Bill Halley. A primeira das primeiras gravações de Rock em português foi feita dois anos depois com Cauby Peixoto ("Rock'n'Roll em Copacabana"). Nessa mesma época, conjuntos como Luizinho e Seus Dinamites, Betinho e Seu Conjunto e outros fizeram suas gravações naquele ritmo que chegou a ser proibido por governantes que o consideravam "obsceno". Nos anos 1960, com chegada da Ditadura Militar com sua censura moral e política por um lado e por outro da Jovem Guarda, uma tentativa de se trazer o tal de Rock'n'Roll para cá de uma forma mais amena e pasteurizada, o Brazilian Rock se arrastou, embora muita gente teimasse em abrir esse espaço. Nos anos 70 o Rock viveu no Brasil seu maior momento, ao contrário da história contada hoje à revelia dos fatos. A explosão do Rock Progressivo no mundo e a abertura dos portos (e aeroportos) brasileiros a músicos estrangeiros no auge da carreira a partir da primeira metade da década, trouxeram às terras abaixo da linha do Equador a chance de se produzir e criar Rock, mesmo que debaixo das botas militares e sem alcance a equipamentos e instrumentos de boa qualidade, cujas importações eram proibidas. E surgiram então centenas e centenas de bandas, começou-se a pensar e realizar festivais de médio e grande porte e as gravadoras abriram um pouco as portas às bandas de Rock.

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Parecia que o Rock no Brasil estava mesmo arraigado e estabelecido como a opção dos "jovens" de todas as idades. O Terço e Os Mutantes tocavam Beatles no Teatro Municipal de São Paulo, surgiam festivais como os de Iacanga em São Paulo e Hollywood Rock no Rio de Janeiro. Ginásios de futebol, como o do Palmeiras, da Portuguesa e do Corinthians e teatros particulares e das prefeituras recebiam festivais e temporadas de bandas, sempre lotados. "Banana Progressiva" e Festival Latino Americano de Rock", temporadas do Made In Brazil e Chave do Sol no Paulo Eiró e até casas especificas com a lendária "Tenda do Calvário" e salões de Rock aos borbotões tocando Rock pelas tarde e noites adentro como a Led Slay, Fofinho, Tarkus, Templo do Rock, Paraíso dos Loucos e muitas outras onde além de discos de bandas estrangeiras sempre abriam espaço para o Rock Brasileiro. E as bandas, empurradas e entusiasmadas com esses espaços e a presença do público surgiam aos montes. Ave Sangria, Chave do Sol, Rock da Mortalha, Lírio de Vidro, Arnaldo e A Patrulha do Espaço, Terço, Novos Baianos, Vímana, Joelho de Porco e muitas outras surgiam e tinham seu publico fiel e garantido.

Mas, ainda no final dos 70, a chegada do Punk ao Brasil, apesar de trazer novos ares, trouxe consigo um furacão que viria a derrubar todos os sonhos até então. O "movimento" Punk era um fenômeno puramente inglês, com causas e consequencias locais. Aqui, apenas uma caricatura mal feita, sendo responsável por uma divisão nas trincheiras já não muito resistentes do Rock Brasileiro. As tardes de Rock na Estação São Bento do Metrô, criadas como espaço de bandas emergentes e independentes, logo foi dominada pela violência gratuita de uma leva de Punks que culminou com o fechamento do espaço.

Até que na década de 80, a indústria fonográfica e a mídia global começaram a polir o Rock, transformando em algo mais palatável ao "gosto brasileiro". Isto significava irrediavelmente uma infantilização do Rock, ou melhor, uma idiotização do Rock, tornando-o mais comercializável. E dá-lhe então bandas infantilóides como Blitz, RPM, Capital Inicial, Legião Urbana. O "Rock In Rio" tido como um marco do Rock no Brasil, foi sim um divisor de águas, sendo que a partir dele, tudo degringolou trazendo uma quantidade de bandas querendo conquistar seu espaço tocando o que foi chamado de "Pós Punk", "Proto-Isso" Prato-Aquilo". Estava criada a cultura dos rótulos e consequentemente a divisão do "Exército do Rock" em pequenas divisões de uma infataria fraca e sem comando. Perdidos.

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Paralelamente o "Metal" começava a tomar conta das cabeças, mas o que até então era desenhado como "Rock Nacional" foi transformado em rascunho, passando a maior parte a ser meras copias de estilos, letras, gestos e atitudes das bandas e artistas estrangeiros.

Chegamos assim aos anos 90, uma década perdida sob todos os aspectos, definidos pela frustração logo no primeiro ano com a primeira eleição de Presidente da República das ultimas décadas. E tal e qual a política, o Rock Brasileiro foi de fracassos a fraudes passando pela insipiência e total falta de criatividade. Com o inicio do terceiro milênio, o avanço tecnológico e as facilidades na veiculação e acesso à informação poderia ter trazido às terras brasileiras no que tange ao Rock uma sedimentação. Mas o que ocorreu foi justamente o contrário. Os artistas das bandas "antigas" se cansaram das dificuldades e muitos abandonaram o barco, outros trocaram de bandeira e foram ganhar dinheiro mais fácil. A história foi se perdendo, as referências apagadas. Pouco sobrou e também pouco interessava a essa "nova" legião de "roqueiros" que tinham fácil acesso a instrumentos, sistemas de gravação e distribuição de música.

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Iludidos por uma fama de "15 minutos", a maioria optou pelo caminho fácil e pouco trabalhoso. A forma passou a ser mais importante que o conteúdo, a vaidade mais que qualidade e o tesão maior que a emoção. Poucos sobraram com aquela disposição de transformar o Rock no Brasil senão em dominante, mas em opção. Senão em hegemônico, mas como parte de um harmônico caldo cultural, que é afinal o que diferencia uma grande cultura de uma falácia cultural. Essa mesma sempre fomos.

E por fim, analisando o contexto histórico do Rock Brasileiro, percebemos que não foram as gravadoras e a grande mídia apenas os únicos responsáveis pela morte precoce do Rock por cá. A falta de visão e de cultura, aliada a vaidade excessiva da maior parte dos músicos brasileiros foi o grande responsável por esse falecimento. Explicando: enquanto o Rock nos Estados Unidos da América surgiu dos guetos pobres, dos artistas de Blues que buscavam na música a expressão de sua dor e de sua emoção maior, aliados a música caipira (Folk) que remetia às também dores da terra e ao Jazz, música de bêbados, vagabundos e intelectuais, o Rock no Brasil foi tomado pelas elites jovens, daqueles filhos da burguesia cansados de escutarem a Música Popular Brasileira de seus pais. Eram eles, e apenas eles, que tinham acesso a comprar instrumentos, equipamentos e discos importados. E foram eles que tomaram para si a "missão" de tocar Rock. Isso fica patente nos temas, nas letras da maioria da bandas brasileiras até hoje em dia. O trinômio "Carrão/Moto&Mulher&Bebida" sempre foi a temática principal, como se outras preocupações não fizesse parte do seu dia-a-dia. Atitude típica de classe média/alta.

Tal afastamento da realidade da imensa maioria da população, com temas e instrumentos que eram inacessíveis a ela, fez com que o Rock não atingisse as periferias, que continuava a escutar Samba e outros gêneros mais "populares", com temática e instrumental mais próximos de sua própria realidade. Era muito mais fácil para um garoto pobre da periferia chegar a comprar um violão e tocar Samba falando de sua realidade, do que uma cara guitarra ou baixo e falar sobre algo que não lhe dizia muito respeito, como a vida na estrada de um motociclista pilotando uma potente Harley Davidson. O Pagode, uma versão "Pop", ou seja mais simplificada do estilo tomou seu lugar, principalmente nas faixas de idade mais baixas. A chegada do "Rap" e "Hip Hop" deu a molecada da periferia o lugar que o Rock deveria ter tomado bem antes, com temas e instrumental acessível. O moleque do subúrbio não queria de fato saber do Punk, pois inconscientemente ele sabia que não tinha a ver com sua realidade. E assim se fez, e assim foi.

E enquanto os roqueiros brasileiros, que, aliás, nunca tiveram nada de bandidos, se debatiam para ter espaços sem deixar seu próprio quadrilátero nos bairros de classe média e alta, esses "movimentos" tomaram literalmente de assalto às mentes da garotada. O chamado "Funk Carioca", que nada mais é do que um reflexo de uma sociedade que oscila entre sexo fácil e drogas baratas, usa disso como instrumento de fuga das dificuldades cotidianas. Enquanto isso, o Rock brasileiro ainda fala do mesmo trinômio e acrescenta bruxas, dragões alados e duendes.

Um parêntese com relação a uma frase decantada, requentada e repetida por muitos músicos e artistas, de autoria de Milton Nascimento: "Todo artista tem de ir aonde o povo está." Sob o ponto de vista de postura cultural e política, um artista tem que ser provocador e inovador, ditando tendências culturais, nunca ir na tendência da manada popular. Mas isso tem que ser levado "onde o provo está" e não esperar que este venha até ele. Em outras palavras, o Rock tinha que ter ido até as periferias, aos guetos mais pobres e mostrar ao "povo" seu espírito provocador e inovador, não esperar que ele saísse da periferia por livre e espontânea vontade e os fosse procurar em seus redutos. Mas a arrogância e a preguiça da maioria dos artistas fez com que preferissem ficar no papel de um Maomé esperando que a montanha chegasse até ele.

Enfim, o Rock no Brasil perdeu sua grande oportunidade de ser o que foi na maior parte dos paises onde se estabeleceu e se firmou: um catalisador de idéias e cultura, um aglutinador de pessoas e um porta-voz dos jovens de todas as idades. O Rock perdeu o trem da história do Brasil. E esse trem não para em todas as estações. "Cuidado com o vão entre o trem e a plataforma."




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Sobre Luiz Carlos Barata Cichetto

Sou Barata, nascido Luiz Carlos, no dia do Anti-Natal, do ano da Graça do nascimento de Madonna, Michael Jackson, Bruce Dickinson, Cazuza e Tim Burton. Sou poeta, escritor, produtor e apresentador de Webradio, produtor de eventos e procuro pagar as contas trabalhando com criação de sites. Crescí escutando Beatles, Black Sabbath, Pink Floyd e Led Zeppelin. Participei da geração mimeógrafo nos anos 1970, mas quando chegaram os filhos, deixei de ser poeta e fui tentar ser homem, o que no entender de Bukowiski é bem mais difícil. Escrevo poemas desde que comecei a criar pêlos.... nas mãos. Trabalhei como office-boy, bancário, projetista de brinquedos e analista de qualidade. No final do século XX, acordei certo dia de sonhos intranquilos e, transformado em um ser kafkiano, criei um projeto cultural na Internet nos moldes dos antigos panfletos mimeográficos. Mesmo antes de meu processo de metamorfose, nunca deixei de cometer poemas, contos e crônicas. E embora tenha passado dos três dígitos o numero de textos escritos, nunca ganhei um prêmio literário. Fui apaixonado por Varda de Perdidos no Espaço, Janis Joplin, Grace Slick e Sonja Kristina; casei quatro vezes e tenho dois filhos, Raul e Ian. Atualmente sou também editor, costureiro e colador de livros, num projeto de editora artesanal.

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