Quem está preparado para o Blackmore's Night?
Por André Molina
Postado em 14 de julho de 2007
Existem alguns inexpressivos momentos que podem confirmar que o preconceito está ao lado da ignorância. Principalmente quando o assunto é gosto musical ou paixão por uma determinada banda de rock.
Um fato me causou surpresa em uma loja de discos na semana passada. Ao adquirir o CD "Made in Japan" do Deep Purple, a funcionária do caixa me informou que tinha direito a um vale CD de R$ 15,00. Após comprar o melhor trabalho ao vivo da banda britânica, comecei a percorrer novamente os corredores da seção de discos para encontrar um título que cobrisse a promoção do vale que acabava de ganhar. Olhei as fileiras das seções de Heavy Metal, Hard Rock, Progressivo, Pop Rock, Rock Nacional e não consegui encontrar nada interessante que valesse o preço do bônus.
Blackmores Night - Mais Novidades
Sem muitas esperanças fui conferir outros departamentos como de MPB, Blues, Jazz, Trilhas Sonoras e New Age. Depois de um certo cansaço encontrei algumas "bolachinhas" do grupo do ex-guitarrista do Deep Purple, Richie Blackmore, e de sua esposa Candice Night, chamado Blackmore’s Night. Sempre encarei com desconfiança essa dupla. O antipático fundador do Deep Purple, Ritchie Blackmore, saiu de sua banda de origem depois de intermináveis brigas com o vocalista Ian Gillan, reformulou a banda Rainbow, se desentendeu novamente e apareceu com sua esposa executando canções renascentistas. Para qualquer admirador de Hard Rock, a atitude de Blackmore não foi a mais adequada. A dupla lançou seu primeiro disco em 1997 e desde essa época vem sofrendo duras críticas dos fãs mais fiéis do Deep Purple.
Sem muitas opções, decidi levar o CD para casa. Diante dos cinco títulos disponíveis escolhi o "The Village Lanterne". Não foi por acaso. O trabalho de 2006 tem a canção "Child in Time" (originalmente gravada no disco clássico "In Rock "do DP) e "Street of Dreams" (do Rainbow). Utilizei a oportunidade do bônus de R$ 15,00 para ver o que Blackmore e sua esposa aprontaram com as canções.
Depois de ouvir em casa o "Made in Japan" até enjoar, principalmente as versões de "Highway Star" e "Strange Kind of Woman", fui conferir o disco do Blackmore’s Night.
A surpresa foi grande! As primeiras faixas causaram simpatia e decidi escutar o trabalho na integra. Na canção "I Guess It Doesn't Matter Anymore" percebi que Candice Night não era uma "genérica" de Yoko Ono. A esposa de Blackmore canta muito bem, é elegante, e tem personalidade. O estilo do grupo é único. A utilização de influências da Música Celta, do Hard Rock e do Folk caracterizam uma estética original. É complexo tentar definir um rótulo para o estilo. Acho melhor não ter essa pretensão.
No decorrer da audição, percebe-se bonitas baladas e temas mais consistentes, que poderiam agradar qualquer fã do Deep Purple. Infelizmente o trabalho não chega aos ouvidos dos admiradores mais radicais, que não dão uma chance para o novo projeto de Ritchie Blackmore. Azar deles!
Outras faixas com dinâmica mais rápida poderiam tocar exaustivamente nos rádios brasileiros. O formato das canções "Just Call My Name", "St. Teresa" e "All Because of You" é bem pop.
Após descobrir um novo nome da música contemporânea, a surpresa maior viria a seguir. A versão de "Child in Time" esnoba o vocalista Ian Gillan. A cantora Candice Night executa os agudos da canção original e ironiza o frontman do Deep Purple com algumas risadas no final da música. O desempenho de Candice é impressionante e deixa Ritchie Blackmore em segundo plano. Vale a pena dizer que a ironia de Candice não é gratuita. O cantor Ian Gillan excluiu "Child In Time" do repertório por não conseguir executar a canção com a mesma qualidade que apresentava na década de 70. O motivo foi as constantes bebedeiras em sua carreira. Ritchie Blackmore não deixou por menos e incentivou sua esposa a provocar seu desafeto.
Outro presente de "The Village Lantern" é a versão de "Street of Dreams". A canção foi originalmente gravada no início da década de 80 pela banda Rainbow. Na época, o grupo de Blackmore contava com o vocalista Joe Lynn Turner e exibia o Hard Rock Oitentista. No novo arranjo, a cantora Candice Night divide o microfone com Turner e demonstra que em uma nova reunião da banda poderia assumir o posto.
A discografia
Depois de escutar exaustivamente o "The Village Lantern" a curiosidade sobre a banda aumentou e a solução foi correr atrás dos demais discos. Estrategicamente decidi ouvir o trabalho anterior, chamado "Ghost of a Rose" (2003). O CD também foi uma grata surpresa. Canções como "Way to Mandalay", "Diamonds and Rust" ( de Joan Baez) e "Cartouche" demonstram o vigor do Blackmore’s Night. A versão de maior destaque é "Rainbow Blues", composta pelo Jethro Tull.
No mercado brasileiro existem 5 discos da banda a venda. Além dos dois mencionados, a gravadora CID ainda lançou "Shadow of the Moon (1997), "Under a Violet Moon" (1999) e "Fires at Midnight" (2001). No mercado internacional já está a venda o "Winter Carols", que como o nome diz, é inspirado no inverno. No primeiro disco "Shadow of the Moon", o líder do Jethro Tull, Ian Anderson, participa executando solos de flauta na canção "Play Ministrel Play". O trabalho de estréia é mais leve e prioriza o estilo renascentista.
O grupo ainda tem um disco ao vivo, comercializado somente no exterior, chamado "Past Times With Good Company" (2003) e o DVD "Castels and Dreams" (2005).
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