Um Saxão nas areias do deserto

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Por Miguel Pacífico (Delfos)
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Claro, o título aí em cima parece fazer referência a uma daquelas comédias que vez ou outra são exibidas durante a tarde na TV. Sim, também poderia fazer parte de algum impresso de agência de turismo da Europa. Como não tenho o hábito de assistir TV nesse horário e freqüentar agências de turismo européias ainda é uma realidade muito distante para mim, acho que vou falar daquilo que gosto: Heavy Metal. E vou falar de um episódio de extrema importância que nos permite pensar não só sobre a música pesada como também em algumas questões do interesse de qualquer indivíduo com um mínimo de sensibilidade em relação aos problemas de ordem sócio-cultural atualmente em evidência.

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Matéria escrita para o site DELFOS - www.delfos.art.br

O tema em questão é a expulsão do Saxon de um festival de música, o Desert Rock, que se realizaria em Dubai. Localizada no coração do oriente médio, Dubai tem 5/6 de seu território composto por desertos. É um dos sete emirados (o que nós entendemos como estados) que juntos formam os Emirados Árabes Unidos. Já a banda, bem, é desnecessário falar sobre ela: remanescente, como o Iron Maiden, da tão cultuada "New Wave of Britsh Heavy Metal", o grupo produziu ao longo de sua carreira trabalhos que ajudariam a estabelecer as características básicas do estilo. E exatamente entre estes trabalhos,encontra-se o grande objeto da polêmica em questão. O álbum "Crusader". Trazendo na capa figuras de típicos cavaleiros medievais participantes dos eventos conhecidos como Cruzadas, a faixa título traz os seguintes trechos:

"we're marching to a land far from home / no one can say who'll return / for Christendom's sake, we'll take our revenge / on the pagans from out to the east/we christians are coming, with swords held on high / united by faith and the cause / the saracen heathen will soon taste our steel/our standards will rise 'cross the land."

Em português, ficaria algo como:

"estamos marchando para uma terra longe de casa / ninguém pode dizer quem vai retornar / em nome do cristianismo teremos nossa vingança / sobre os pagãos que vêm do leste / os cristãos estão chegando empunhando suas espadas / unidos pela fé e pela causa / em breve os selvagens sarracenos sentirão nosso aço / por toda a terra ergueremos nossas bandeiras."

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Ora, todos sabemos que, além da literatura e da ficção científica, um dos temas sempre presentes no mundo da música pesada é a História. Especificamente nesse caso, o Saxon apropriou-se de um tema que extrapolou as fronteiras do ofício dos historiadores e lançou mão de um episódio que, de alguma maneira, a grande maioria das pessoas tem conhecimento, ainda que de forma precária: as Cruzadas. Não é necessário discutir a receptividade que temas ligados a grandes batalhas têm entre os apreciadores da música pesada. Blind Guardian, Grave Digger e Rhapsody (pra ficar em alguns poucos exemplos) narram com muita maestria batalhas épicas de inspiração histórica ou fantasiosa. No entanto, quando o referencial utilizado é a série de acontecimentos denominada Cruzadas e, a conseqüência, a expulsão de determinado grupo de um festival de música é preciso pensar sobre o fato.

Apesar do pouquíssimo destaque dado ao episódio pela mídia especializada, ele nos permite pensar em questões maiores, que com toda a certeza estão muito distantes do simples cerceamento da liberdade de expressão. Em alguns fóruns é possível encontrar afirmações do tipo: "são radicais religiosos que não sabem o que é boa música". Ora, qualquer pessoa minimamente familiarizada com os grandes problemas de nosso tempo sabe que um deles é justamente a oposição entre grupos praticantes de duas religiões cujo número de adeptos, se somados, inclui muito mais do que a metade de todos os habitantes de nosso planeta: o islamismo e o cristianismo. E, por favor, não me venha com aquela ladainha infanto-juvenil sobre religiões facilmente encontrável nos discursos de determinados setores do Black Metal. Esse é um assunto extremamente complexo, e sério.

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Obviamente que, acopladas às questões religiosas, estão as questões de ordem econômica e aí abre-se a possibilidade de visualização de conflitos de toda a ordem: disputa por petróleo e disputa pelo controle da tecnologia para enriquecimento de urânio como ficou claro no recente embate envolvendo EUA e Irã. Por tudo isso, sabemos que as relações entre o ocidente e o mundo árabe são extremamente delicadas e qualquer evento que possa servir de palco para dar vazão a disputas será motivo de retaliações por parte de ambos os lados. Falar das Cruzadas de maneira nada imparcial, e de alguma maneira pretender levar esse discurso ao mundo árabe, é demonstrar desconhecimento de questões básicas de nosso tempo. A disputa por Jerusalém, palco de acontecimentos extremamente preciosos tanto para muçulmanos quanto para cristãos, é fato que está nas origens de um dos grandes e atuais problemas com os quais a humanidade ainda não aprendeu a lidar: a intolerância religiosa.

Obviamente que não vamos deixar de ouvir os álbuns do Saxon e muito menos deixar de apreciar as fabulosas narrativas de batalhas épicas que povoam nossos CDs. No entanto, é possível perceber que o Heavy Metal, assim como outros estilos musicais, possui em determinados momentos relação direta com as grandes questões de seu tempo. Talvez exatamente por isso as areias do deserto do mundo árabe não sejam o lugar mais adequado para um saxão cantar sobre as Cruzadas.




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