Dorsal Atlântica: "Operação Brother Sam"
Por Sergio Filho
Fonte: Catarse
Postado em 14 de maio de 2012
Continuando a sequência de textos sobre os temas das músicas do possível novo CD, Carlos Lopes, vocalista e guitarrista da Dorsal Atlântica, publicou no blog do Catarse sobre a música "Operação Brother Sam", que fala sobre os momentos que antecederam o golpe militar de 64 no Brasil.
A Dorsal Atlântica anunciou a sua volta há 11 dias e está em uma campanha para arrecadar 40 mil reais para a gravação de um álbum de inéditas. Para saber mais, acesse o link abaixo.
http://catarse.me/pt/projects/659-novo-cd-da-banda-dorsal-atlantica#about
Dorsal Atlântica - Mais Novidades
A faixa OPERAÇÃO BROTHER SAM foi escrita para homenagear meu irmão no dia do seu aniversário e falar sobre um assunto que me empolga: história brasileira.
DORSAL é história, pois não.
Cláudio Lopes, o baixista da DORSAL, nasceu no dia 31 de março de 1964, ou seja: a mesma data do golpe militar. Nosso pai nos contou que ao levar nossa mãe à maternidade, ele foi barrado por soldados no centro da cidade, se não me engano. Creio que ele estava dirigindo um caminhão. Ele queria passar pela barreira, que impedia o deslocamento da população entre os bairros. Após reclamar muito e quase bater no coitado do soldado, que nem devia saber o que estava havendo, liberaram a passagem para meu irmão vir ao mundo.
OPERAÇÃO BROTHER SAM fala de um caso desconhecido para a maior parte dos brasileiros: em 1964, caso o presidente João Goulart, deposto por uma quartelada militar, resistisse ao golpe, os Estados Unidos teriam bombardeado as cidades brasileiras até a renúncia ou deposição do presidente, empossado pela Constituição.
Segundo documentos já em domínio público, liberados pelo governo americano, a OPERAÇÃO consistia no envio de 100 toneladas de armas leves e munições, quatro navios petroleiros para os insurgentes cuja capital – financiada pelos americanos – seria em Minas, sob o comando do presidente empossado pelos americanos, Magalhães Pinto, presidente do Banco Nacional e governador de Minas que bancou do próprio bolso o treinamento de 10 mil soldados da Polícia Militar de Minas para ampará-lo no golpe (após 1964, sua fortuna se multiplicou e ele incorporou mais seis bancos em 1972). Fora isso, os americanos prepararam o envio de uma esquadrilha de aviões de caça, um navio de transporte de helicópteros com a carga de 50 helicópteros com tripulação e armamento completo, um porta-aviões da classe Forrestal, seis destróiers, um encouraçado, além de um navio de transporte de tropas, e 25 aviões C-135 para transporte de material bélico. Lincoln Gordon, embaixador americano no Brasil e agente da CIA, tinha vários negócios aqui, e queria a intervenção rapidamente. Se o golpe não tivesse vingado, o Brasil seria invadido, pela poderosa Frota do Caribe que estava a 50 milhas náuticas ao sul do Rio de Janeiro. A ordem era bombardear Recife, Rio, Santos e Brasília.
Jango resistiria no sul, cuja capital provisória seria Porto Alegre, sob a liderança do governador Leonel Brizola, mas Jango abriu mão do derramamento de sangue e de uma guerra civil ao pedir asilo no Uruguai e lá mesmo, anos depois, foi provavelmente envenenado sob ordens da OPERAÇÃO CONDOR, uma liga da justiça de ditaduras latinas que trocavam aSSSaSSSinatos de esquerdistas entre si.
Documento do Congresso norte americano comprova a ação intervencionista, sem meias palavras: "The role of the United States in these events was complex and at times contradictory. An anti-Goulart press campaign was conducted throughout 1963, and in 1964 the Johnson administration gave moral support to the campaign. Ambassador Lincoln Gordon later admitted that the embassy had given money to anti-Goulart candidates in the 1962 municipal elections and had encouraged the plotters; that many extra United States military and intelligence personnel were operating in Brazil; and that four United States Navy oil tankers and the carrier Forrestal , in an operation code-named Brother Sam, had stood off the coast in case of need during the 1964 coup. Washington immediately recognized the new government in 1964 and joined the chorus chanting that the coup d’état of the "democratic forces" had staved off the hand of international communism. In retrospect, it appears that the only foreign hand involved was Washington’s, although the United States was not the principal actor in these events. Indeed, the hard-liners in the Brazilian military pressured Costa e Silva into promulgating the Fifth Institutional Act on December 13, 1968. This act gave the president dictatorial powers, dissolved Congress and state legislatures, suspended the constitution, and imposed censorship".
Traduzido: O papel dos Estados Unidos nesses eventos era complexo e às vezes contraditório. Uma campanha de imprensa anti-Goulart foi administrada ao longo de 1963, e em 1964 apoiada por Lyndon Johnson (presidente americano). O Embaixador Lincoln Gordon admitiu mais tarde que a embaixada tinha dado dinheiro a candidatos anti-Goulart nas eleições municipais de 1962 e encorajado os conspiradores; muitos agentes do exército dos Estados Unidos e pessoal extra da Agência de inteligência estavam operando no Brasil; havia quatro navios tanques e o porta-aviões Forrestal da Marinha dos Estados Unidos; a operação foi chamada Irmão Sam. As forças estavam ao largo da costa e, em caso de necessidade durante o golpe 1964, agiriam rapidamente. Washington reconheceu o novo governo imediatamente ao golpe 1964 e uniu-se ao coro que cantava que o golpe de estado das "forças democráticas" barrou o comunismo internacional. Em retrospecto, parece que a única mão estrangeira envolvida era Washington, embora os Estados Unidos não fossem o ator principal nestes eventos. Na verdade, a linha dura do exército brasileiro, pressionou Costa e Silva em promulgar o Quinto Ato Institucional no dia 13 de dezembro de 1968. Este ato deu para o presidente poderes ditatoriais, o Congresso e assembléias legislativas foram dissolvidos, foi suspensa a constituição, e imposta a censura.
Desde o governo John Kennedy, os Estados Unidos tramavam o golpe. Ao financiar economicamente os rivais de Jango, como Carlos Lacerda e Magalhães Pinto, os americanos interferiram diretamente nos destinos de um país livre. Em 1964, ao saberem por intermédio da Embaixada e de brasileiros entreguistas, que caminharíamos para uma República Socialista, com as reformas de base, os gringos não tiveram pudores em nos tratar como Cuba, El Salvador, Irã e Iraque.
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