Visage: um ano sem um dos herdeiros estéticos de David Bowie
Por Roberto Rillo Bíscaro
Postado em 07 de fevereiro de 2016
Sempre antenado no que acontecia no undergound, quando David Bowie idealizou e codirigiu o icônico clipe de Ashes To Ashes (1980), recrutou frequentadores do Blitz Club, local que reunia uma moçada fortemente maquiada e descolada, epicentro do movimento New Romantic (para saber mais, acesse o link ao final desta matéria), que daria ao planeta Boy George, Duran Duran e o Spandau Ballet, donos de parcela do mundo pop nos anos iniciais da década de 1980.
Um dos partícipes do vídeo foi Steve Strange, host(ess) do Blitz Club e líder do Visage, um dos grupos a investir pesado no visual e no sintetizador. Em atividade desde 1978, o Visage teve Midge Ure e Billy Curie, do Ultravox, em sua formação e um grande sucesso em 1981, com a seminal Fade to Grey, síntese perfeita do que era o New Romantic/synthpop. Fundamental mesmo é só essa, mas vale a pena descolar uma coletânea para conhecer/possuir a gelidez do teclado interestelar de Damned Don’t Cry; o balanço quadradão New Wave de Mind of a Toy; a síndrome de Roxy Music, de Visage; a de Bowie, em We Move (especialmente se você descolar um best of que tenha a versão remix) e a melancolia disfarçada da sintetizada In the Year 2525. Pouca coisa mais se salva desse grupo que em 83 já tinha álbum de "maiores sucessos". Isso significava que já estavam mortos comercialmente, eram passé.
Em 1985, o Visage era defunto (e o New Romantic também) e a partir daí os problemas pessoais de Strange tomaram precedência. Vício em heroína, colapso nervoso e até roubo de boneco de Teletubbie em loja.
Quase 30 anos após o desmantelamento, o Visage lançou Hearts and Knives, em 2013. As 3 décadas não passaram no planeta-purpurina de Steve Strange; parece que estamos ouvindo canções lançadas em 1983. E não é que esse tornou-se o único álbum (quase) completo que convém manter do grupo? Exceto pela chata Breathe Life, todas são boas e uma é clássico oitentista temporão.
Never Enough abre com sua referência ao batidão que Giorgio Moroder fez para Donna Summer e bom trabalho de Robin Simon, guitarrista do Ultravox, fase pré-Midge Ure. A guitarra continua afiada e competente na maravilhosa Shameless Fashion, puro New Romantic glam, com baixo galopante e barulhinho de máquina fotográfica à Girls on Film, do Duran Duran. Sexy, desfilável e posável.
Eletricidade obcecou a geração 70’s/80’s. Além da Electric Light Orchestra, Kraftwerk, OMD, Duran Duran, Debbie Gibson, Phil Oakey e o desprezível OFF eletrificaram títulos de canções e álbuns. O Visage, tão retro-moderno, também plugou sua moça elétrica: She’s Electric (Coming Around) tem teclados The Human League. Como resistir ao synth disco de I Am Watching?
A voz de Steve Strange nunca foi grande coisa, mas servia para a remota finalidade gelada de muito do synthpop. Em Hearts and Knives dá para perceber como a idade e os desregramentos cobraram seus impostos, mas vocais de apoio estrategicamente camuflam um pouco essa deficiência e sai até canção mais lenta linda como Lost in Static ou a minissinfonia de araque de sintetizador On We Go.
Esta playlist apresenta 7 canções do álbum:
Em março de 2014, o Visage tocou com uma orquestra tcheca na cidadezinha de Harrachov, para o enceramento do campeonato mundial de salto de esqui. A experiência deu a ideia para Orchestral, que reúne canções dos 4 álbuns e uma inédita em versão synth-orquestral. Embora conceito original para um álbum tipo "maiores sucessos" (só há uma inédita, a deletável The Silence), o casamento com sinfônico nunca funciona de verdade. Por mais simpáticas que Fade to Grey e Damned Don’t Cry tenham resultado, na hora H o ouvinte quer a versão original, especialmente da última. O estado da voz de Strange acabou pesando, especialmente em Pleasure Boys, que ficou pior que o original; e mesmo com os disfarces de estúdio, a gelidez jovem faz falta. Orchestral pode servir como curiosidade para os (muito) poucos fãs do Visage, mas para o público geral nada acrescenta.
E assim terminou o retorno às atividades do Visage, pelo menos em sua encarnação com Strange (e pode haver outra?).
O coração New Romantic do vocalista parou de bater em 12 de fevereiro do ano passado, enquanto de férias no Egito. O enterro contou com a presença de Boy George e os irmãos Kemp, do Spandau Ballet carregando o caixão; Martin Fry, do ABC; Andy Bell, do Erasure; Tony Hadley, vocal do Spandau. Celebridades New Romantic e synthpop de há 30 anos que foram se despedir dessa figura complicada, mas definidora de muito do que se amou na primeira metade oitentista. A imprensa britânica não poupou laudas e louros para a importância de Steve. Se o considerava tão especial, por que ignorou seus últimos lançamentos?
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