Nenhum de Nós: "Governos que negam a ciência. Pessoas que negam a solidariedade"

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Por Vicente Reckziegel, Fonte: With Every Tear a Dream
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A entrevista dessa semana é com a clássica banda gaúcha Nenhum de Nós, com seus quase 35 anos de carreira ininterruptos, sempre com relevância e comprometimento com seus fãs. Aqui, Thedy Correa, Carlos Stein e Sady Homrich falam sobre toda a carreira da banda, e não deixam de comentar sobre os atuais acontecimentos, que vem afetando a todos.

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Vicente – Após tantos anos de estrada ininterruptos, como vocês avaliam a trajetória do Nenhum de Nós?

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Thedy Correa - Creio que construímos uma trajetória digna e honesta. Temos um volume significativo de produção discográfica e sempre tivemos como norte o preceito artístico, deixando o mercadológico sempre em segundo plano. Realmente não é fácil manter uma banda de rock no Brasil por tanto tempo, e por isso somos muito gratos aos nossos fãs que tem nos dado suporte.

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Carlos Stein - Foi um longo caminho, marcado sobretudo pela coerência e, naturalmente, pela busca do aperfeiçoamento de nossa musicalidade.

Sady Homrich - Uma trajetória marcada pela coerência artística, pelo respeito aos fãs, entregando conteúdo sem futilidades.

Vicente – A banda está com a mesma formação desde seu princípio, algo raro na música. Qual o segredo para manter a relação entre os membros saudável após tanto tempo de convivência?

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Thedy Correa - O respeito é o fundamental. Quando temos nossas desavenças, temos sempre em mente a relação de respeito que construímos desde o início. Não fosse isso, acredito que não estaríamos juntos até hoje. Claro que é bom ressaltar que existe uma boa dose de sorte, do destino ter feito que os caminhos de caras que acreditam na relevância do que fazem, se cruzassem. A música ainda é nossa cola, mas sem estes atributos, ela sozinha não nos manteria.

Carlos Stein - Bom, não é que não tenhamos nossas discordâncias, mas elas são expressas de forma civilizada, já que todos nós estamos remando para o mesmo lado.

Sady Homrich - O Nenhum de Nós foi formado em torno de uma amizade que se provou sólida ao longo da caminhada. O trio inicial (Carlão, Thedy e Sady) ja tinha uma ideia bem estabelecida de que uma banda tem que ter uma "química". Veco e João Vicenti entraram nesse espírito, sendo a formação definitiva há mais de 30 anos.

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Vicente – Já são mais de 2000 mil shows realizados, mais de uma dezena de discos lançados e fãs espalhados por todo o pais. De onde tirar força para prosseguir na ativa, e, principalmente, sendo relevante no cenário musical nacional?

Thedy Correa - Eu tiro minha força do próprio público. Ele me abastece, sustenta e inspira. Saber que temos pessoas tão ligadas ao que eu escrevi e canto, que criaram vínculos com nossas músicas, é o que me mantém motivado.

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Carlos Stein - Justamente dessa base de admiradores que formamos, e continuamos trabalhando para expandir, por todo o país. Eles são os nossos melhores divulgadores e são, em larga medida, responsáveis por nossa longevidade e relevância. Além do mais, outra de nossas relações duradouras é a nossa produção, que é a mesma desde nosso início, e que trabalha muito para nos garantir uma agenda constante e saudável nesse tempo todo, o que é fundamental também para a manutenção do projeto.

Sady Homrich - O fato de nosso filtro ser bastante criterioso passa para o público, que vai se tornando fã. Nossa poesia foge do óbvio, a moldura musical é autêntica e a comunicação é valorizada.

Vicente – O último lançamento da banda foi o EP "Doble Chapa" (2018). Como avaliam o resultado deste trabalho, e como foi a reação dos fãs e da mídia para o mesmo?

Thedy Correa - Foi um ótimo trabalho em relação ao público! Conseguimos um excelente espaço de divulgação, estreitamos nossos laços com músicos uruguaios, fizemos todas as capitais. Tivemos uma recepção muito boa por parte dos fãs! Eu fico particularmente feliz por ter feito essa aproximação entre os idiomas – português e castelhano – pois sou muito fã da música latina como um todo. O Nenhum sempre acreditou nessa integração.

Carlos Stein - O "Doble Chapa" foi mais uma forma de expressarmos a influência que o rock latino americano possui em nosso trabalho. Nossos fãs curtiram e, melhor, começaram também a buscar algumas dessas referências, o que era um dos nossos objetivos também. Com a mídia tivemos alguns problemas, como a inacreditável rejeição ao termo "Ordinária" presente em nossa música de trabalho. A palavra está tão estigmatizada que o próprio sentido encontrado no dicionário, de comum, banal, parece não ser mais reconhecido. Assim, algumas rádios se recusaram a executar a música. Parece mentira, eu sei, mas infelizmente não é.

Sady Homrich - Nossas relações com o rock latino-americano saíram reforçadas, é uma conexão que começamos no século passado e transpõe a barreira cultural. A concentração de canções em um EP trouxe uma unidade que não havíamos experimentado, mesmo sendo esteticamente heterogêneas. O público do NDN é curioso por natureza, por isso os shows dessa turnê foram um sucesso.

Vicente – A música de trabalho do disco é "Uma Vida Ordinária". Como foi o processo de composição desta faixa em particular?

Thedy Correa - Estávamos planejando nossa tradicional temporada de final de ano no Theatro São Pedro e decidimos convidar o Federico Lima a participar (novamente). Quando oficializei o convite a ele já propus que escrevêssemos algo inédito para a ocasião. O mais incrível é que eu contribuí com a LETRA, em castelhano, e ele com a música. Poderia se imaginar que o natural fosse justamente o contrário. Escrevemos a canção e quando ele chegou em Porto Alegre para os ensaios, fizemos o arranjo. Foi tudo tão fluido e orgânico, que assim nasceu a ideia do EP.

Carlos Stein - Foi uma parceria entre o Thedy e o Federico Lima, nosso parceiro uruguaio que tem um fantástico projeto musical chamado "Sócio", em que o Thedy entrou com a letra, em espanhol mesmo, e o Fede compôs a música. Posteriormente o Thedy fez a versão em português.

Sady Homrich - Quando se fala em "ordinário" em espanhol, entende-se algo comum, regular. Uma vida ordinária tem um quê de monotonia, poucas aspirações. A canção induz a virar esse jogo, a arriscar um crescimento para sair desse marasmo. Pena que no Brasil essa palavra tenha se tornado sinônimo de vulgar...

Vicente – E quais os planos para um futuro lançamento?

Thedy Correa - Temos que esperar o que o futuro reserva para os artistas no mundo pós-Covid. Tínhamos a ideia inicial de lançar algo ainda esse ano, mas já empurramos isso para 2021. Eu tenho muito material escrito, resta saber para onde a inspiração vai apontar. Gosto de deixar o processo de compor a música quando já tenho uma data para projetar o lançamento. Trabalho melhor assim. Pelo que sei, o Noel Gallagher tem o mesmo modo de trabalhar. Funciona!

Carlos Stein - Somos, essencialmente, um grupo de compositores. É através de nossas composições e arranjos que expressamos nosso estado de espírito e nosso momento nessa trajetória. Os prazos foram revistos, em função da pandemia, mas logo devemos lançar mais um trabalho inédito.

Sady Homrich - Estamos preparando material isoladamente para entrar em pauta depois do período de isolamento devido à pandemia. Esperamos que seja em 2021.

Vicente – Estamos vivendo tempos estranhos, com uma pandemia assolando o mundo. Como vocês analisam o atual momento, tanto no Brasil quanto no exterior?

Thedy Correa - São tempos sombrios. Incertezas e ameaças vindas de muitas direções. Governos que negam a ciência. Pessoas que negam a solidariedade. Polarização ideológica criando insegurança até mesmo na saúde da população. Em certo sentido vejo que caminhamos para trás. "Involuímos" enquanto espécie. Viramos as costas para o meio-ambiente, para as minorias, para a desigualdade, gastando nossa energia em convencimentos que jamais vão ocorrer. Cada um pensa de uma forma e não está disposto a mudar. Esse é um quadro mundial. Nunca pensei que chegaríamos em pleno 2020 com pessoas negando a vacina e afirmando que a Terra é plana. Os avanços da civilização irão ocorrer, pois quem os concretizam são as pessoas de mente aberta e que se baseiam na ciência. O obscurantismo, nesse momento, tenta atrasar esse avanço, mas a história prova que isso não é possível.

Carlos Stein - É um momento muito estranho mesmo. Único em uma geração que já se acostumava com a sensação de que tudo seria mais ou menos do mesmo jeito a vida inteira. Não sou, particularmente, daqueles que alimentam grandes expectativas na inerente bondade humana, mas é triste ver que, num momento em que nossa melhor escolha parecia ser buscar algum tipo de sintonia que nos ajudasse a agir conjuntamente contra a doença, parece que o investimento na radicalização parece ter até aumentado. De qualquer forma, acho que só teremos um retrato mais conclusivo sobre esse momento mais adiante, como aliás costuma acontecer com todos os fenômenos históricos.

Sady Homrich - Tempo de reflexão, reciclagem, estudo, aprendizado. Vai passar e vai deixar suas marcas. Valores artísticos e científicos serão tratados de forma distinta, o obscurantismo material havia ultrapassado alguns limites.

Vicente – Como uma banda acostumada a estar na estrada, qual o sentimento de não poder apresentar sua música para o público?

Thedy Correa - É uma oportunidade perfeita para a reflexão. Pensar no papel de cada e no nosso, como um coletivo. A distância do público e dos eventos nos causa imensa preocupação na medida que temos famílias para sustentar, mas já que isso é inevitável, vamos tirar proveito parando para pensar em nós mesmos.

Carlos Stein - É muito frustrante. Imagino que muitas pessoas que já estavam na expectativa de ver nosso show estejam com um sentimento parecido. Mas é bom alimentar essa saudade, às vezes.

Sady Homrich - É a parte mais dura. A impessoalidade das versões #fiqueemcasa que os músicos têm feito, inclusive nós, não se compara a sinergia do palco, do olho no olho.

Vicente – Com essa situação, estamos vendo a proliferação das chamadas "lives". Algumas apresentações honestas, outras parecendo grandes eventos midiáticos. Como se sentem com essa nova forma de apresentar a música?

Thedy Correa - Vejo como uma tentativa de apontar novos caminhos. Elas são democráticas na medida que qualquer um pode realizá-las, com um abismo que separa a produção de uns e outros. O ruim é que os patrocínios seguem nas mãos dos mesmos e quase não existe incentivo para socorrer os menores. Não acredito que as lives vão prosseguir sem que haja um desgaste ou sem ampliar os ganhos para os artistas que trabalham longe das rádios e do TOP 40.

Carlos Stein - Tenho visto pouca coisa. Não sei se os artistas estão concebendo bem esses momentos. Apresentações com som ruim e nenhum cuidado de produção me parecem atentar contra a própria imagem deles. Mas vi algumas que foram muito legais e inspiradoras. Poucas, infelizmente.

Sady Homrich - Algumas lives são apresentadas como se nada estivesse acontecendo, são péssimos exemplos de isolamento social. É só analisar a trajetória do artista que dá pra ver claramente qual o objetivo...

Vicente – Com tanto tempo de carreira, certamente já passaram por todo tipo de situação. Qual foi o melhor e o pior momento no palco?

Thedy Correa - Quando fiz um show atravessando uma crise de cálculo renal, foi ruim. Mas o mais triste foi quando fiz meu primeiro show logo após a perda de minha mãe. Senti um vazio avassalador. Não era eu ali no palco, apenas uma casca.

Carlos Stein - Sempre que me fazem essa pergunta eu percebo que minha memória já não é mais a mesma mas, é compreensível, já vão mais de 30 anos, hehe. Mas houve, é certo, momentos inesquecíveis. Alguns deles: a abertura do show do REM, o Rock in Rio que fizemos, o nosso primeiro Planeta Atlântida, o nosso primeiro acústico no São Pedro, o show que fizemos num bar em Pelotas quando soubemos de nosso primeiro contrato de gravação. Sobre os maus momentos, quase todos saudavelmente esquecidos ou colocados na prateleira dos aprendizados. O mais recente foi em nossa participação em um importante festival em que TODO o meu equipamento apresentou problemas. Era um show especial, para ser curtido e lembrado, mas passei todo o tempo trabalhando com os nossos roadies para tentar solucionar esses problemas.

Sady Homrich - O pior momento foi em sonhos quando me vejo no palco, o show vai começar, eu olho o set-list (repertório) e não conheço nenhuma música, não faço a menor ideia de como toca-las! Chego a suar frio!!! Os melhores são os shows em teatros, com horário e acomodações decentes. Sempre preparamos algo diferente para esses momentos. Quando dá certo sentimos a vibração energética da plateia invadindo o palco. Quase um nirvana!

VicenteO que acham das seguintes bandas:

The Beatles –

Thedy Correa - Ídolos! Uma de minhas maiores referências. Sem eles, a história da música nesse planeta seria outra. Muito menos inspirada, com certeza

Carlos Stein - Uma grande influência, principalmente pela inquietude artística. Estavam sempre se desafiando para crescer musicalmente.

Sady Homrich - The Best

Engenheiros do Hawaii –

Thedy Correa - Uma carreira digna e cheia de hits

Carlos Stein - Parceiros nessa longa e difícil jornada. Tive, inclusive, a felicidade de ter participado da primeira formação da banda.

Sady Homrich - segue representada pelo Gessinger com muita competência.

David Bowie –

Thedy Correa - Para mim, um cara que rivalizou com os Beatles na influência sobre a música e a nossa cultura. Um gênio!

Carlos Stein - Outra influência, por razões similares aos Beatles,

Sady Homrich - uma referência cultural que ultrapassa os limites da música.

Secos & Molhados –

Thedy Correa - Maravilhosos!

Carlos Stein - Um dos grandes pioneiros do rock brasileiro. Além das músicas fantásticas, possuíam uma inspiradora noção de imagem e um grande frontman, uma das coisas mais legais das boas bandas.

Sady Homrich- pena que foram apenas 2 discos com a formação original. O João Ricardo é um compositor sensacional, assim como as interpretações do Ney.

Legião Urbana –

Thedy Correa - Grande banda! Um dos melhores poetas da música brasileira, sem dúvida.

Carlos Stein - A banda mais independente do rock brasileiro. Mesmo vendendo milhões de discos e lotando estádios, nunca abdicou do espírito que a motivou quando começou.

Sady Homrich - A prova do que boas referências podem gerar. A poesia do Renato era tão complexa que a música tinha que seguir um caminho fora do convencional. Pura emoção.

Vicente – Para finalizar, deixem um recado para os fãs e amigos que admiram seu trabalho, e aqueles que querem conhecer mais sobre o Nenhum de Nós.

Thedy Correa - Sigam o Thedy e o Nenhum nas redes sociais para saber mais das nossas novidades, movimentos e pensamentos! E obrigado pelo apoio!

Carlos Stein - Acho que nenhuma mensagem hoje passa incólume pela difícil situação que atravessamos. O Nenhum continua focado em seu trabalho, contando os dias para reencontrar o palco e as pessoas que curtem a banda. A saudade é grande! Para quem quiser conhecer melhor a banda, já dispomos a maior parte de nossa obra nas plataformas de streaming e muito material antiquíssimo em nosso canal do YouTube. Coragem. Logo vamos matar essa saudade.

Sady Homrich - As redes sociais tem fortalecido nossa relação com público e mídia. Mantemos perfis ativos nas plataformas e convidamos para que nos sigam, curtam e compartilhem nossos posts. Sei que não tá fácil, mas vai passar. Assim que for possível, estaremos de volta aos palcos com muita vontade! Que a fonte nunca seque!

Abraço

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Sobre Vicente Reckziegel

Servidor público, escritor, mas principalmente um apaixonado pelo Rock e Metal há pelo menos duas décadas. Mantêm o Blog Witheverytearadream desde Dezembro de 2007. Natural e ainda morador de uma pequena cidade no interior do Rio Grande do Sul, chamada Estrela. Há muitos anos atrás tentou ser músico, mas notou que faltava algo simples: habilidade para tocar qualquer instrumento. Acredita na música feita no Brasil, e gosta de todos os gêneros, desde Rock clássico até Black Metal.

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