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Opinião: Parem de politizar o Iron Maiden

Por
Postado em 17 de janeiro de 2022

Em 2015, foi publicado aqui no Whiplash um texto de opinião que defendia a tese de que o Iron Maiden seria uma banda de direita. O texto, na verdade, é uma reprodução de um artigo publicado originalmente no site conservador "Voltemos à direita", trazido ao Whiplash por um colunista colaborador. No artigo, o autor tenta sustentar sua tese usando como exemplos as músicas "Afraid to shoot strangers", "Aces high" e "Revelations".

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Antes de adentrar no conteúdo em si, preciso ressaltar que não defenderei aqui qualquer posicionamento político, pois o único objetivo desta análise é verificar se a tese do suposto conservadorismo político do Iron Maiden se sustenta ou não.

Sobre "Afraid to shoot strangers", que trata de um tema corriqueiro em letras do Iron Maiden (guerra), o texto usa o tema como gancho para dizer que as duas grandes guerras mundiais do século XX ocorreram por motivação política. Até aí, nenhuma surpresa, pois as guerras quase sempre têm um motivo ou interesse político por trás. Só que o autor força uma lógica sem sentido ao afirmar que as duas grandes guerras se deram por uma "visão política que relativizou a moral e quis a todo custo romper com os valores e a tradição". Tudo errado. É notório que a Segunda Guerra Mundial ocorreu devido à expansão do nazismo sobre a Europa, quando Hitler decidiu invadir a França. A simpatia do povo alemão para com as ideias nazistas era justamente no sentido de manter os valores e a cultura alemã, quando o país passava por uma humilhação imposta com a derrota na Primeira Guerra Mundial (não pela derrota em si, mas pelo tratado e a não militarização impostos).

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Em "Aces high", o argumento se apoia no fato de a música, na versão ao vivo, conter um trecho de um discurso de Winston Churchill. Apenas isso. Desse discurso, dois argumentos surgem: a evocação de Deus e a contraposição à Alemanha. Segundo a lógica torpe, ser religioso, então, é ser de direita? Isso não tem o menor fundamento. Tantos religiosos de esquerda poderiam ser citados aqui, como o Leonardo Boff ou o Frei Betto, por exemplo. Da mesma forma que há inúmeros ateus com posicionamento político conservador. Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Mas o mais absurdo mesmo é colocar o nazismo como um regime de esquerda. Nazismo é a mais legítima representação da ultradireita. Vale lembrar que a extinta URSS, maior representante do comunismo na História, lutou contra a Alemanha na Segunda Guerra Mundial.

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Por fim, em "Revelations", mais uma vez o autor aponta para a religiosidade como argumento. Bruce Dickinson se valeu de um poema de G. K. Cherterton na letra dessa música. Falar sobre História faz parte da temática do Iron Maiden, por isso a banda aborda com recorrência temas religiosos e bélicos. Achar que a escolha de tais temas se dá por inclinação política é um sofisma da ignorância ou de má fé, para dizer o mínimo. E dizer que o Iron Maiden é uma banda religiosa chega a ser risível! No início dos anos 80, era justamente o oposto que lhes era atribuído: a banda foi taxada de satanista quando do lançamento do álbum "The Number of the Beast" (1982).

Em suma, o Iron Maiden é ou não é de direita? Não sabemos. Não há nada em sua obra que leve a essa conclusão. Nem o contrário. E não importa. O Iron Maiden é uma grande banda, que passa ao largo de discussões políticas. Seja de direita ou de esquerda. Então, parem de inventar teorias estapafúrdias e as ventilar para gerar infrutíferas discussões. Não precisamos disso. Parem de politizar o Iron Maiden!

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Sobre Rodrigo Clark

Rodrigo Clark é músico inscrito na OMB-SP, formado em Letras e criador do canal “Só me resta o Rock’n’Roll” no YouTube.
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