Andreas Kisser diz que eutanásia precisa entrar na pauta de discussões da sociedade
Por Gustavo Maiato
Postado em 12 de setembro de 2022
O guitarrista Andreas Kisser, do Sepultura, participou do programa "Panelaço", do João Gordo, e comentou sobre a morte de sua esposa Patrícia Kisser e sobre como as questões relacionadas com a eutanásia precisam entrar na pauta de discussões da sociedade.
O diagnóstico e as dificuldades
"Essa coisa começou em janeiro de 2021, com o diagnóstico de câncer da Patrícia. Nós sabíamos que era agressivo e agradeci pela pandemia, para poder ficar em casa ao lado dela durante todo o tratamento. Agora, em 2022, ficou mais difícil, porque as turnês voltaram. Foi um período difícil para todo mundo. Na turnê europeia, a situação dela piorou e fiquei os últimos momentos com ela, passando pelo processo. Ela estava consciente até o último momento, mas o corpo já não funcionava mais. Foi muito pesado".
Eutanásia e a necessidade do diálogo
"Ela sempre foi uma pessoa muito forte e que agregava muita gente. Corintianos e palmeirenses! [risos]. Ela me inspirou muito na vida, mas com a morte também. Foi uma inspiração ver a coragem dela. Ela não se agarrou a nenhuma superstição. No caso da Patrícia, seria uma situação clássica para eutanásia. É uma bandeira que comecei a pesquisar. Ela estava consciente, sabendo o que queria. O corpo estava numa situação irreversível, a família estava na mesma página".
Conversar sobre a morte
"Ela sempre falou sobre a morte. Isso é um ponto crucial para a sociedade como um todo, não só brasileira. Aqui no Brasil, tudo é mais difícil, muito conservadorismo. Mas é preciso falar sobre a morte. Ela falava que queria o travesseiro e cobertor no caixão! [risos]. Ela sempre zoava com essas coisas. Não teve discussão na família, tudo estava tranquilo nesse aspecto. Falta se falar sobre a morte durante a vida, sem preconceito de falar palavras como ‘caixão, ‘viúvo’. Como quero ser cremado? Onde vai jogar as cinzas? É preciso começar a falar sobre isso. Tem pessoas falando sobre isso, mas é muito underground ainda".
As discussões ao redor do mundo
"Na Argentina, tem discussões sobre isso. Muitos vão para a Suíça ou Bélgica para fazer a eutanásia lá. No Brasil, o médico é considerado homicida. Isso é um absurdo, porque a decisão não é dele. O médico é uma ferramenta, quem decide é o paciente e a família. No meu ponto de vista, estão lidando de forma errônea e preconceituosa. Não tem que ter medo da morte, é algo inevitável. Por que não falar dela? É difícil se preparar para o momento, mas é possível, se lidarmos sobre isso durante a vida de forma mais leve".

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